Cidades
Desumanidade
Duas histórias de morar feito bicho
Em comum, eles têm mais que o nome. Alex Ângelo e Alexsandro Araújo moram em lugares que ninguém imagina ser possível
Yanna Guimarães
da Redação
21 Out 2008 - 01h42min
São quase 11 horas da manhã de uma sexta-feira. Alex Ângelo, 26, está acordando agora. Trabalhou até tarde na noite anterior vigiando carros. Ele se espreguiça e vai atender às visitas. A conversa descontraída se dá de cima mesmo da castanholeira onde mora há três meses, na avenida Beira Mar, na esquina com a rua José Vilar. Quase no mesmo horário, na segunda-feira seguinte, Alexsandro Araújo, 29, sai todo molhado de sua casa improvisada há dez anos. Uma das galerias de esgoto que passa embaixo da avenida Historiador Raimundo Girão, na esquina com a Ildefonso Albano.
Parece mentira. Alex Ângelo e Alexsandro, o Tigrão, têm quase o mesmo nome. Trabalham como flanelinhas e vivem da mesma forma. Para fugir da rua, cada um teve sua idéia. E passam praticamente despercebidos pelas milhares de pessoas que freqüentam uma das áreas mais nobres da cidade. O mais novo era casado, tem um filho de 5 anos. Morava em Iparana com a família. Trabalhava como mecânico na oficina montada por ele. Mas se separou, não conseguiu manter o negócio e recorreu ao trabalho de flanelinha na Beira Mar. "Ia ser muita burocracia pra eu conseguir a minha parte da casa na separação. Preferi deixar com ela e vim tentar a sorte".
A idéia de morar na árvore veio porque Alex cansou de ser roubado. "Eu dormia na rua e quando acordava, os meninos tinham levado meu boné, meu chinelo. Cansei. Aqui em cima ninguém mexe comigo". A construção foi simples. Pegou algumas tábuas, pregou nelas uns papelões e cobriu com sacos plásticos. "Por causa dos morcegos. Eles não me deixavam dormir". Se ele tem medo de cair? "Tenho nada. Quando o vento é forte, aí é que eu durmo mais. Tem perigo, não". Dia desses, os policiais do Ronda até mandaram Alex desmontar a casa. "Eu tirei tudo, mas no outro dia montei de novo. Eles vieram, conversaram comigo e me entenderam. E eu fiquei".
Longe do mundo
O outro Alex, conhecido como Tigrão, é mais fechado. Não brinca como o que mora na castanholeira. A história dele é mais antiga. Nas suas contas, já dura dez anos. Por preferir sua privacidade, foi dormir longe do mundo e da rua. A mãe mora na comunidade Rosalina. A casa pequena abriga muita gente. "Não tem lugar pra mim". Na galeria, o espaço também é pequeno. Tanto para entrar, como para dormir. A cama é improvisada com uma tábua apoiada em uma cadeira. Mas são os sustos que incomodam. "Uma vez, caiu um rato na minha roupa quando eu tava dormindo. Matei o bicho e voltei a dormir". Mas o maior problema é quando a água sobe.
"Já aconteceu de eu ficar preso, esperando a água baixar". Quando isso acontece, ele apóia a tábua na parte mais alta da "parede" e se equilibra até que ela baixe. Diferentemente do Alex da árvore, Tigrão tem medo de ficar preso, de não conseguir mais sair. "Mas é o jeito. Prefiro isso à rua". Em comum, eles também têm sonhos. Alex Ângelo gostaria de trabalhar como mecânico de novo. Ter sua casa. Já o Tigrão queria que alguém escrevesse uma carta ao programa do Gugu (apresentador do SBT). "Pra eu ganhar uma casa, uma motocicleta pra trabalhar com entregas e poder ajeitar meus dentes. Se tivesse isso, seria o homem mais feliz do mundo".
E-MAIS
> Um casal de professores universitários que veio de São Paulo não acreditou quando viu Alex Ângelo dormindo na castanholeira. "Nunca vi disso, morar numa árvore?", impressionou-se Antônia Mota. Seu marido, Antônio Pina, aproveitou para tirar uma foto. "Vou ter mais uma história pra contar aos meus alunos".
> Alexsandro Araújo, o Tigrão, recebe ajuda de todos que trabalham próximo da galeria onde mora. Recebe almoço diariamente de um restaurante e lanche de um hotel. "Ele é muito querido. Todo mundo gosta dele e ajuda", afirma Raimundo Carvalho, funcionário do restaurante há 12 anos. Tigrão reconhece a ajuda e diz que gostaria de morar em uma casa, mas não queria deixar os amigos. "Eles me ajudam muito. Quando eu fico doente, são eles que compram remédio pra mim".
> Ele usa uma das caixas que antes tinha fiação elétrica como guarda-roupa. Suas coisas ficam guardadas lá. Alexsandro diz que na galeria não tem barulho e nem faz calor. Ele perdeu todos os documentos, que foram levados em uma das enchentes da galeria. Para entrar "em casa", o Tigrão tem de mergulhar para passar pela galeria e chegar em sua cama. Ele sempre sai molhado do bueiro.
> Ao contrário do que muitos possam pensar, nenhum dos dois Alex parecia ter algum problema mental. Escolheram viver na árvore e na galeria para fugir, de alguma forma, da rua.
Veja mais fotos das moradas dos dois Alex no: www.opovo.com.br/conteudoextra
Parece mentira. Alex Ângelo e Alexsandro, o Tigrão, têm quase o mesmo nome. Trabalham como flanelinhas e vivem da mesma forma. Para fugir da rua, cada um teve sua idéia. E passam praticamente despercebidos pelas milhares de pessoas que freqüentam uma das áreas mais nobres da cidade. O mais novo era casado, tem um filho de 5 anos. Morava em Iparana com a família. Trabalhava como mecânico na oficina montada por ele. Mas se separou, não conseguiu manter o negócio e recorreu ao trabalho de flanelinha na Beira Mar. "Ia ser muita burocracia pra eu conseguir a minha parte da casa na separação. Preferi deixar com ela e vim tentar a sorte".
A idéia de morar na árvore veio porque Alex cansou de ser roubado. "Eu dormia na rua e quando acordava, os meninos tinham levado meu boné, meu chinelo. Cansei. Aqui em cima ninguém mexe comigo". A construção foi simples. Pegou algumas tábuas, pregou nelas uns papelões e cobriu com sacos plásticos. "Por causa dos morcegos. Eles não me deixavam dormir". Se ele tem medo de cair? "Tenho nada. Quando o vento é forte, aí é que eu durmo mais. Tem perigo, não". Dia desses, os policiais do Ronda até mandaram Alex desmontar a casa. "Eu tirei tudo, mas no outro dia montei de novo. Eles vieram, conversaram comigo e me entenderam. E eu fiquei".
Longe do mundo
O outro Alex, conhecido como Tigrão, é mais fechado. Não brinca como o que mora na castanholeira. A história dele é mais antiga. Nas suas contas, já dura dez anos. Por preferir sua privacidade, foi dormir longe do mundo e da rua. A mãe mora na comunidade Rosalina. A casa pequena abriga muita gente. "Não tem lugar pra mim". Na galeria, o espaço também é pequeno. Tanto para entrar, como para dormir. A cama é improvisada com uma tábua apoiada em uma cadeira. Mas são os sustos que incomodam. "Uma vez, caiu um rato na minha roupa quando eu tava dormindo. Matei o bicho e voltei a dormir". Mas o maior problema é quando a água sobe.
"Já aconteceu de eu ficar preso, esperando a água baixar". Quando isso acontece, ele apóia a tábua na parte mais alta da "parede" e se equilibra até que ela baixe. Diferentemente do Alex da árvore, Tigrão tem medo de ficar preso, de não conseguir mais sair. "Mas é o jeito. Prefiro isso à rua". Em comum, eles também têm sonhos. Alex Ângelo gostaria de trabalhar como mecânico de novo. Ter sua casa. Já o Tigrão queria que alguém escrevesse uma carta ao programa do Gugu (apresentador do SBT). "Pra eu ganhar uma casa, uma motocicleta pra trabalhar com entregas e poder ajeitar meus dentes. Se tivesse isso, seria o homem mais feliz do mundo".
E-MAIS
> Um casal de professores universitários que veio de São Paulo não acreditou quando viu Alex Ângelo dormindo na castanholeira. "Nunca vi disso, morar numa árvore?", impressionou-se Antônia Mota. Seu marido, Antônio Pina, aproveitou para tirar uma foto. "Vou ter mais uma história pra contar aos meus alunos".
> Alexsandro Araújo, o Tigrão, recebe ajuda de todos que trabalham próximo da galeria onde mora. Recebe almoço diariamente de um restaurante e lanche de um hotel. "Ele é muito querido. Todo mundo gosta dele e ajuda", afirma Raimundo Carvalho, funcionário do restaurante há 12 anos. Tigrão reconhece a ajuda e diz que gostaria de morar em uma casa, mas não queria deixar os amigos. "Eles me ajudam muito. Quando eu fico doente, são eles que compram remédio pra mim".
> Ele usa uma das caixas que antes tinha fiação elétrica como guarda-roupa. Suas coisas ficam guardadas lá. Alexsandro diz que na galeria não tem barulho e nem faz calor. Ele perdeu todos os documentos, que foram levados em uma das enchentes da galeria. Para entrar "em casa", o Tigrão tem de mergulhar para passar pela galeria e chegar em sua cama. Ele sempre sai molhado do bueiro.
> Ao contrário do que muitos possam pensar, nenhum dos dois Alex parecia ter algum problema mental. Escolheram viver na árvore e na galeria para fugir, de alguma forma, da rua.
Veja mais fotos das moradas dos dois Alex no: www.opovo.com.br/conteudoextra
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