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Bem-vindo ao clube dos excomungados

O padrasto da menina poderia estuprá-la durante a vida inteira, e até matá-la, que não seria excomungado

Ricardo Kelmer
13 Mar 2009 - 07h45min

O país inteiro ficou chocado com o caso da menina pernambucana de 9 anos que engravidou de gêmeos após ser violentada por seu padrasto. E com a confissão do padrasto veio o segundo choque: há 3 anos ele abusava da menina.

O padrasto foi preso e a menina teve que ser submetida a um aborto pois seu corpo infantil dificilmente suportaria uma gravidez, ainda mais de gêmeos. O procedimento foi realizado com sucesso num hospital de Recife e a menina agora está bem. Está bem é modo de dizer, claro, pois violência sexual, principalmente na infância, costuma deixar graves sequelas psicológicas.

Mas um terceiro choque aguardava na lista de espera. Dias depois o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, anunciou que a mãe da menina e toda a equipe médica que participou do procedimento estavam excomungados da Igreja Católica. O assunto, que já era complexo, tomou jeitão de polêmica nacional e o tema aborto voltou forte à ordem do dia, mostrando que felizmente as políticas de saúde pública não dependem da leis católicas.

Toda igreja tem suas leis e se você entra pra uma delas, precisa segui-las sob pena de ser expulso. Foi o que ocorreu em Recife. Praticar ou ser cúmplice num caso de aborto é um dos pecados que causam automaticamente a expulsão da Igreja Católica. Assim sendo, a mãe e a equipe médica foram automaticamente excomungados no momento em que participaram da interrupção da gravidez da menina e o arcebispo apenas expressou a posição oficial da Igreja.

A atitude do arcebispo possibilitou a muita gente, católicos inclusive, saber que pra Igreja o pecado de estuprar ou assassinar alguém é menor que o de praticar um aborto. Isso quer dizer que o padrasto da menina poderia estuprá-la durante a vida inteira, e até matá-la, que não seria excomungado e, assim, poderia continuar indo à missa todo lindão, e casar e receber os sacramentos normalmente como o mais santo dos católicos. O mesmo vale pros padres pedófilos que abusam de crianças e lhes traumatizam a vida - esse é um pecadinho bobo sem importância, que é ejaculado pela urina.

Como você reagiria se o caso envolvesse sua filha? Não faria nada e deixaria que a lógica de Deus decidisse? Ou autorizaria o aborto e depois procuraria outra igreja que o aceitasse? E agora, como os católicos brasileiros encaram a posição de sua religião em relação ao aborto? Seria interessante que, após esses acontecimentos, houvesse uma pesquisa de opinião sobre aborto e religião.

Quanto a mim, esse caso me fez ficar sabendo, com 25 anos de atraso, que eu também estou excomungado. Sim, pois quando eu tinha 20 anos uma garota com quem eu tinha um caso engravidou e decidimos pelo aborto. Como eu já não mais me considerava católico, ter sabido àquela época que eu estava expulso da Igreja não faria qualquer diferença.

Mas hoje faz diferença. Eu me sinto bem por ter sido expulso de uma instituição cujos membros estariam dispostos a sacrificar aquela menina pernambucana - pelo simples fato de que essa é a lógica do deus deles.

>> Saiba se você está excomungado e não sabe:
http://blogdokelmer.wordpress.com/category/blog-do-kelmer



Ricardo Kelmer é escritor e roteirista e mora em São Paulo. Em mar/abr RK estará em Fortaleza, Crato, Juazeiro do Norte, Assaré (CE) e Sousa (PB) para lançar seu livro Vocês Terráqueas e fazer palestras. Site pessoal: Blog do Kelmer - Um escritor em liberdade incondicional, blogdokelmer.wordpress.com

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07/07/2009
14:13

Concordo com o Sr, Ricardo Kelmer, no que diz respeito ao descaso para as crianças que sao abusadas todos os dias neste pais, mas descordo que isto seja por causa de Deus, ou melhor do Deus catolico. O problema nao é Deus e sim a hipocrisia das autoridades catolicas em querer manter dogmas que deixam impunes esses monstros pedofilos, sejam estes padres ou parentes da criança.

lidia

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