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Cearenses lançam HQ pela Conrad em 2007 sobre a Revolta da Chibata

A produção cearense de quadrinhos vai começar 2007 em grande estilo. A Conrad Editora tem programado para lançar no começo do ano a graphic novel

Claude Bornél
22 Dez 2006 - 12h21min

Legenda: Hemeterio durante a produção da graphic novel; Olinto Neto concetrado no trabalho; Ao fim de um longo e exaustivo dia de trabalho, a demonstração mútua de carinho; Em seguida, uma seqüência das páginas da HQ feita com base nos eventos que ficaram conhecidos como
A produção cearense de quadrinhos vai começar 2007 em grande estilo. A Conrad Editora tem programado para lançar no começo do ano a graphic novel produzida pelos artistas cearenses Olinto Neto e Hemeterio sobre o levante conhecido como a Revolta da Chibata. Mais do que um primoroso trabalho de histórias em quadrinhos, trata-se do registro de um importante fato da História do Brasil pouco destacado pelos livros de escola.

A Revolta da Chibata aconteceu em 22 de novembro de 1910, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro. Cerca de dois mil marinheiros da Marinha do Brasil se rebelaram contra a aplicação dos castigos físicos a eles impostos como punição, e ameaçaram bombardear a então capital brasileira.

A manifestação foi liderada por João Cândido, um marinheiro pobre e negro, filho de escravos libertos, que ascendeu ao comando do encouraçado Minas Gerais, o maior do mundo na época. Ficou conhecido pela imprensa da época como “Almirante Negro”.

Durante viagem do navio de guerra ao Rio de Janeiro, o marinheiro, Marcelino Rodrigues Menezes, foi punido com 250 chibatadas por ter ferido um cabo com uma navalha. A punição foi considerada desumana, uma vez que eram 25 as chibatadas regulamentares como castigo. A tripulação ficou indignada e a revolta foi deflagrada.

O traço de Hemeterio capta de maneira primorosa a tensão do momento da revolta, utilizando desenhos em preto e branco enriquecidos pela técnica de pontilhismo que dão um tom grandioso ao trabalho. Mas o leitor não vai encontrar apenas imagens de ação. Há também belas cenas do Rio Antigo e personagens da nossa História “escondidos” nas paisagens – preste atenção, por exemplo, no Santos Dumont paseando em frente à Confeitaria Colombo.

O roteiro de Olinto Neto não fica atrás em matéria de beleza e grandiosidade. Os acontecimentos são narrados de forma simples, tornando-se poéticos em alguns momentos, permitindo que a leitura flua de maneira prazerosa.

Olinto deixa claro, no entanto, que a graphic novel não é exatamente um “trabalho documental”. “Nossa história é uma ficção de época, recheada de personagens reais. As liberdades tomadas na concepção do enredo foram imensas”, explica.

Leia abaixo o bate-papo da SEQÜENCIAL com os artistas da obra, que mais uma vez coloca a produção cearense de quadrinhos entre as melhores do mundo.


Olinto Neto

SEQÜENCIAL - Por que vocês escolheram a Revolta da Chibata para fazer uma graphic novel? Como surgiu o projeto?
OLINTO NETO - O tema veio como sugestão da editora. Estávamos ansiosos para trabalhar com a Editora Conrad e, aparentemente, eles conosco. Durante nossas conversas iniciais, alguns temas foram sugeridos por parte deles, e o que mais nos intrigou, e imediatamente captou nossa atenção foi esse.

S - A idéia de escolher um personagem para desenrolar a trama - no caso, João Cândido - segue a linha de Joe Sacco de fazer um trabalho "jornalístico" em quadrinhos? No caso de vocês, um trabalho de resgate "histórico"? Fale um pouco sobre isso.
ON - Não se trata necessariamente de um trabalho documental, mas pinça características de tais obras, pois afinal são referências para nós. Nossa história é uma ficção de época, recheada de personagens reais. As liberdades tomadas na concepção do enredo foram imensas. Desde cedo, alertamos a editora para o fato de que iríamos fazer um relato ficcional, embora fortemente baseado nos fatos históricos. Eles nos deram carta branca e total liberdade criativa, respeitando nossos instintos, e preservando nossa forma de expressão. Logo, existem cenas e fatos narrados no álbum que jamais ocorreram na realidade, outros foram dramatizados. Essas intervenções são fundamentais, pois trata-se da narração de uma saga, e a criação de um herói nacional.

S - Quanto tempo levou para realizar o projeto, desde a pesquisa até a conclusão da última página?
ON - Mais tempo do que esperávamos. Muitos e longos meses. Projetos assim são trabalhos de fôlego, que exigem paciência e comprometimento. No início, encaramos problemas com a divisão de tarefas entre a produção do livro, e nossos demais afazeres do dia a dia, os trabalhos mais imediatos, tão necessários para todo profissional. Mas enfim aprendemos a lidar com esse alinhamento de tarefas, e criamos uma disciplina de trabalho muito saudável, que nos será bastante útil para o próximo projeto.
S - Que contribuição você imagina que esta graphic novel pode dar ao entendimento deste fato histórico? Acredita que a graphic novel pode ser recomendada como leitura nas escolas, por exemplo?
ON - Sim, sem dúvida. O que mais falta no nosso sistema educacional é a exposição dos alunos à outras formas de expressão e opinião, e não ver as coisas somente como estão descritas nos livros plastificados. Os livros de história tradicionais tratam o fato como uma nota de rodapé, e ao resumir, simplificam. Muito me alegraria que alunos aprendendo sobre a revolta da chibata utilizassem nosso álbum para se informar e expandir seus conhecimentos sobre o tema. Essa seria a maior contribuição que poderíamos almejar. Mas vou além, por que não tocar "Mestre Sala dos Mares", de Aldir Blanc e João Bosco, na sala de aula? Por que não discutí-la? Ou, quem sabe, encenar-se trechos do espetáculo de teatro "João Cândido do Brasil". Experiências assim não custam um centavo sequer a mais no minguado orçamento das escolas, e deixam marcas indeléveis na mente dos jovens.

S - Já existe algum outro projeto semelhante em vista, com ênfase em algum fato histórico? Se houver, qual o fato ou personagem que pretende enfocar?
ON - Existe sim um novo projeto, e encontra-se em fase de criação do argumento inicial. Porém, seria leviano de minha parte antecipar qualquer informação sobre o mesmo assim tão cedo, visto que nós - e nossos editores - estamos com esforços concentrados na divulgação e finalização do livro da Revolta da Chibata.


Hemeterio

SEQÜENCIAL - Por que dois cearenses optaram por fazer um trabalho com base em um evento histórico que se passou no Rio de Janeiro? Fazer um trabalho sobre o fato de Redenção ter sido o primeiro lugar do Brasil a libertar os escravos, por exemplo, talvez não fosse mais conveniente?
HEMETERIO - A sugestão da HQ sobre a Revolta da Chibata partiu da editora, e nos coube, a partir dessa dica, desenvolver todo o roteiro e os desenhos. Outros temas, inclusive locais, estão sempre em nossas pautas pessoais. Infelizmente, só podemos desenvolver um de cada vez.

S - Seus traços na graphic novel exploram bastante o contraste entre o preto e o branco, sem falar nos detalhes em pontilhismo. Ganham um aspecto sombrio que lembram o clima passado pelos trabalhos de Flavio Colin na antiga Spektro. Por que você escolheu esse caminho grá fico para a graphic novel?
H - Já sabíamos que a HQ seria em preto e branco, pelo que nos disse a editora. Portanto, nada de usar tons de cinza e muito menos cor. A única forma de conseguir variação tonal era aplicando hachuras ou máscaras de retículas. Optei pelas hachuras por que admiramos - eu e o Olinto - o trabalho de vários artistas mestres no laborioso e detalhado trabalho pontilhista, como o Edward Gorey nos quadrinhos e Paul Klee na pintura. Além do mais, o tema da Revolta praticamente pede essa iluminação noir, digamos assim, pois em alguns momentos da HQ a barra vai pesar. Aguardem.

S - Como foi o trabalho de pesquisa para fazer a reconstituição em quadrinhos dos cenários da época? Por exemplo, o painel com a fachada da Confeitaria Colombo, o bonde e uma discreta figura semelhante ao Santos Dumont (é ele mesmo?) estão bem fiéis. Foi fácil encontrar o material necessário?
H - Você viu o Santos Dumont? Colocamos na HQ algumas celebridades da época que fazem aparições aqui e ali. Obrigado pelo elogio. Bom, a pesquisa de imagens foi facilitada pelas poderosas ferramentas de pesquisa na Internet, como o Google. Sem essas facilidades, a pesquisa sobre desenho de navios, vestuário, arquitetura e fisionomias seria extremamente difícil. No entanto, vale ressaltar que essa será uma história de ficção, e tomamos certas liberdades artísticas. Mais ou menos como filmar a Nova York dos anos 30 usando como cenário a Chicago de hoje.

S - Quanto tempo levou para fazer cada página? Todas as páginas feitas entraram na graphic novel ou alguma coisa teve de ficar de fora?
H - O cálculo é complicado. Depois de recebido o roteiro, eu desenhava em média uma página por dia. Mas ainda faltavam colocar os balões com o texto numa etapa posterior pra montar tudo em definitivo. Pra não ficar sem resposta, eu diria que o processo todo - roteiro, desenho e montagem - levaria 3 dias para cada página.Todas as páginas deverão entrar na história, o roteiro foi bem enxuto e preciso nesse sentido. E são mais de 200 delas.

S - O que e mais prazeroso para o artista: fazer uma graphic novel com um motivo histórico ou jornalístico, ou uma graphic novel de super-herói de alto nível? Por que?
H - O mais gratificante para o desenhista de quadrinhos é ver o trabalho publicado. Se além disso - como é nosso caso - a HQ contiver uma visão pessoal e artística do tema escolhido, melhor ainda. Acho que esse comprometimento é a pedra fundamental do trabalho. Os temas estão por toda parte, o que importa é criar uma boa história que calhe com a índole, os valores e o talento de cada um.


Saiba mais sobre os artistas de "A Revolta da Chibata"

Olinto Neto é professor e especialista na área de tecnologia da informação. Como escritor de livros técnicos de auto-aprendizagem, teve oito títulos publicados. Dedica-se há muitos anos à produção de textos técnicos, traduções e material (texto e design) para campanhas publicitárias, trabalhando juntamente com Hemeterio em sua propria agência.
Paralelamente, escreve e apresenta o programa de rádio Frequência Beatles, ao vivo, todos os sábados, às 18hs, na Rádio Universitária FM. Mais sobre o trabalho de Olinto Neto pode ser conferido no site www.ollie.com.br.

Hemeterio é arquiteto formado pela UFC desde 1999, mas trabalho no dia-a-dia com ilustrações para publicidade. Ao mesmo tempo desenvolve uma carreira nas artes plásticas com trabalhos em desenhos e pinturas expostos no MASP, na Unifor Plástica, no Palácio Abolição, na Casa de Cultura Raimundo Cela, na Galeria Antônio Bandeira e no antigo espaço da Teleceará.
O artista conta também com dois livros de desenhos publicados e um blog de humor e quadrinhos (www.oiretemeh.blogspot.com).

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