Conteúdo Extra
Vida & Arte
Confira, na íntegra, entrevista com jornalista Sérgio Augusto
20 Jun 2009 - 21h34min
O POVO - Se essa fosse uma entrevista para O Pasquim, como ela começaria e que rumo seguiria?
Sérgio Augusto - Ah, não sei (risos). Porque eram várias pessoas entrevistando, então os rumos podiam ser muitos. Eu era, muitas vezes, uma delas. Dependia muito do personagem, do que ele fizesse e representasse, da figura que fosse. Algumas entrevistas começavam, inclusive, como um bate papo ali na redação. Os caras iam falando uma bobagem que não tinha nada a ver com o entrevistado e engrenavam a conversa. O curioso do Pasquim é que as pessoas que faziam as perguntas eram, às vezes, mais conhecidas que o próprio entrevistado. Você o entrevistava porque sabia do valor daquele pesquisador ou personagem. Veja o caso da antropóloga americana Angela Gilliam, uma ativista negra que passou uma temporada na Bahia. Fizemos uma entrevista sobre o Brasil e ela dizia que o país tinha racismo e até esculhambava o Pelé porque ele só casava com branca para "melhorar a raça" entre aspas. Essa entrevista o censor deixou passar por uma bobeada dele e os militares tinham horror a mais leve insinuação de que existia racismo no Brasil. Isso deu um bolo danado. Foi quando nós deixamos de ser censurados no Rio e fomos censurados no Centro de Informações do Exército, direto de Brasília. Então, essa antropóloga era absolutamente desconhecida no Brasil. Isso vale também para muitos brasileiros que foram entrevistados. É como se hoje o Millôr Fernandes fosse entrevistar um pintor iniciante, do qual tivesse algumas obras, e ficasse muito impressionado. Para promovê-lo, revelá-lo ao Brasil. A equipe era formada de jornalistas já conhecidos. Até eu mesmo quando comecei no jornal, no número seis colaborando, no final de 1969, eu já tinha nove anos de jornalismo.
OP - E se O Pasquim tivesse atravessado a barreira dos anos 2000, você tem ideia de que bandeiras ele levantaria hoje?
Sérgio - Eu não tenho a menor ideia. O Pasquim estava muito ruim quando acabou. O Jaguar foi que segurou aquilo... Já estava todo mundo em outra, ganhando dinheiro em outro lugar. E as próprias bandeiras do Pasquim, tudo que ele inovou chegou à grande mídia depois que a ditadura acabou, os jornais ficaram mais saidinhos, digamos assim. Na própria linguagem, hoje em dia, você abre o jornal e encontra o palavrão, antigamente não tinha nada disso. As ousadias do Pasquim, essas brincadeiras e a linguagem, a grande impressa começou a copiar. Virou comum. Eu fico lendo os outros jornais e tem certas brincadeiras de colunistas que eu digo: "ah, isso aí O Pasquim fez 40 anos atrás". Não tem novidade nenhuma. Eu não sei que nicho sobraria hoje para O Pasquim já que os jornais já falam mal do governo, dos políticos, criticam, fazem analise comportamental, defende a minorias sexuais e raciais, não sei o que poderia sobrar de novidade. Talvez ficar no calcanhar da TV Globo, coisas que outros veículos ainda têm certo receio de fazer - até para não criar atritos. Então, não consigo estimar.
OP - Durante a ditadura, foram criados mais de 150 jornais alternativos. A opressão seria essencial para surgir periódico como O Pasquim? Você acredita que é o tipo de publicação que só surgiria com a ditadura?
Sérgio - É bom caracterizarmos o Pasquim. Ele parte do mote das pessoas que o lançaram. E ninguém acreditava nele. As experiências que tinham acontecido antes, como a do Ziraldo no jornal Discórdia, no qual lançou o Henfil, duraram pouco tempo, porque eles começaram a esculhambar o governo. Depois veio a experiência do Millôr no Pif Paf. Tudo isso foi fracassando porque a mídia, embora não fosse tão pesado na época do Pif Paf, foi censurada mesmo. Era muita pressão e o Millôr encheu o saco - ele não tem muita paciência - e acabou o Pif Paf. Até que criaram um jornal que o Sergio Porto editava, A Carapuça - editava não, ele dava o nome dele, porque não tinha tempo, trabalhava pra burro. Então, o Alberto Eça imitava o estilo dele. Acontece que o Sérgio Porto morreu. E não dava mais para fingir que o jornal era dele, claro. Os donos da gráfica resolveram chamar o Tarso de Castro par editar a Carapuça. E ele entrou em contato com o Jaguar e disse: "olha, vamos fazer um jornal humorístico vamos continuar A Carapuça. O Jaguar disse que não deviam que continuar, e sim fazer uma coisa nova. Então chamaram o Sérgio Cabral, o Carlos Prósperi e fizeram um jornal de humor. Era uma nova Carapuça, sem muitas pretensões, mas que ganhou o nome de O Pasquim. Depois, do nada, o "O" sairia a partir de uma das edições. O Jaguar queria tirar só 10 mil no primeiro número. Fizeram o dobro e vendeu logo de cara.
OP - Os próprios jornalistas não acreditavam, então?
Sérgio - Não, nada! No começo, eu era um mero colaborador. Mas em seis semanas, o jornal pulou para 200 mil e foi uma loucura. Setenta por cento dos leitores tinham de 18 a 30 anos, uma faixa maravilhosa para a publicidade. Um segmento, importantíssimo em termo de venda. E porque fracassou? Ah, porque roubaram muita a gente. Não só a censura nos obrigou a fechar o jornal como o que sobrava dos cortes, mas o jornal tinha péssimos administradores. As pessoas que cuidavam da contabilidade, que administravam o jornal, nos roubavam mesmo, então o jornal ficou atolado em dívidas. Porque o pessoal da redação queria só criar, sem se preocupar com isso e a achava que tudo estava correndo bem.
OP - E as próprias mudanças ao longo do tempo no material do jornal também influenciaram...
Sérgio - Ah, sim. Eu não posso falar por depois da década de 80, porque eu saí de lá em novembro de 1979, não via mais o jornal.
OP - Nem acompanhava?
Sérgio - Não, não, achei que estava muito ruim. Não sei como o Jaguar conseguiu segurar aquilo durante 22 anos, 1072 números! Fechando a sua pergunta, o jornal tinha uma equipe formidável. Isso era fora do comum. Tinha Chico Buarque correspondente em Londres, tinha Vinícius de Moraes, para não falar dos da casa e os que foram revelados lá. Henfil e os caras já conhecidos pelo humor, como o Millôr, Jaguar, Ziraldo... Era realmente um escrete. A Danuza Leão me chamou atenção para um fator. Quando saiu o primeiro volume da Antologia do Pasquim, ela falou: "Sérgio, sabe qual é o problema? É que vocês não teriam quem entrevistar como vocês tinham naquela época". Tudo bem, o jornal tinha muito cobra escrevendo e hoje eu me pergunto: onde está o novo Paulo Autran? O Ivan Lessa ainda tá vivo, mas hoje você não tem um seguidor à altura, com o brilho do Ivan Lessa. A redação já era uma seleção. Hoje em dia você pode até fazer um jornal, mas você não teria com aquela qualidade, aquele nível. E se a gente for ver o elenco das entrevistas, muita gente já morreu. Di Cavalcanti, vários artistas de rádios... Tem um detalhe, se tiver essas pessoas equivalentes da nova geração, elas já teriam dito tudo aos jornais, porque todos fazem entrevistas. Todo mundo vira celebridade e ninguém tem mais nada a esconder ou a revelar de novidade. Esse é um ponto fundamental. Cadê a Leila de diz de hoje? As atrizes não têm segredo, não há como se revelar através de um veículo. Essa superexposição é muito difícil de contornar. Um cara da Playboy me mandou umas perguntas e ele mesmo disse que hoje é difícil encontrar alguém que tenha alguma coisa para dizer que já não tenha falado em outra entrevista.
OP - O desafio não seria justamente encontrar novas pessoas ou encontrar novas revelações das mesmas pessoas?
Sérgio - O desafio é ter pessoas interessantes que teria alguma novidade para dizer que ainda não tenha saído em outro lugar. Isso diz respeito à entrevista, um dos fortes do jornal. Quanto ao resto, é encontrar pessoas com talento, que soubesse escrever, desenhar, fazer humor com o mesmo brilho do pessoal do Pasquim.
OP - O que você aponta como as principais contribuições provocadas pelo O Pasquim na imprensa brasileira? Talvez um jornalismo menos engessado?
Sérgio - Tinha a (revista) Realidade, mas era séria, de grandes reportagens. O Pasquim era muito diferente. Era um jornal anárquico, que você podia escrever tudo. Uma vez, o Tarso não entregou a página dele e o Haroldo, chefe-secretário da redação, virou pro Jaguar: "Oh, Jaguar, o Tarso tá aberto, o que a gente põe no lugar?". O Jaguar falou: "Rapaz, seguinte, escreve blá blá blá blá blá" e saiu! Os leitores adoraram, acharam o máximo, inventivo. Tudo que você fazia no jornal, era muito engraçado, tinha credibilidade. Logo nos primeiros números, havia censura, mas era relativamente branda. A dona Marina, que era a censora, gostava de beber, e o Jaguar a enchia de uísque e ela deixava passar muita coisas. Depois que dona Marina foi embora, veio o Juarez Paz Pinto, pai da Helô, a musa de Garota de Ipanema. Ele ficava na praia, a gente deixava no escritório, ele lia, aprovava. O Ivan Lessa e o Jaguar negociavam os cortes. "Ah, isso não quer dizer nada disso". Porque os censores eram muito paranóicos, eles sempre acham que tem uma sacanagem por trás. Tinha esse jogo. Mas depois que saiu a entrevista com a antropóloga, fomos para Brasília (censurados pelo Centro de Informação do Exército), aí era no buraco negro, não conseguíamos mais negociar nada.
OP - Em sua opinião, qual a principal herança d'O Pasquim para o jornalismo brasileiro?
Sérgio - A linguagem inteiramente descontraída e despojada, a falta de medo de escrever, os coloquialismos, o escrever como a gente fala. E as gírias também. Curtir, por exemplo, é muito melhor que usufruir, gozar. Porque curtir é algo mais amplo. O Pasquim realmente tirou o paletó e gravata do jornalismo brasileiro.
OP - Além do Jaguar, algum outro colaborador lhe ajudou para separar o material da coletânea d'O Pasquim?
Sérgio - Eu cuido do texto e o Jaguar da parte de cartum. Nem sei quais ilustrações e tiras vão sair, fico sabendo quando reviso o livro. Faço a revisão final porque já tinha muito erro na época. Eu cheguei a perguntar a opinião do Ziraldo, porque ele não tinha gostado da seleção que a gente tinha feito para o número dois, aí eu falei o seguinte: "olha, pessoas de fácil acesso tudo bem, a gente pergunta. Mas quem se interessasse devia fazer a escolha". Pedi isso a alguns colaboradores eventuais. O Millôr, por exemplo, não se mete, até porque é difícil deixar de fora coisas dele. O (Paulo) Francis morreu, então você coloca o que achar melhor.
OP - O projeto era ameaçado de ter uma história breve. O que você considera fundamental para o Pasquim ter durado tanto tempo - 22 anos - burlando a censura?
Sérgio - O humor desconcerta muito. O problema da censura é que sua linguagem vai ficando tortuosa, tem certas coisas que leio hoje e considero absolutamente não exotéricas. Será que na época as pessoas entendiam? Falava-se muito cifrado para driblar o censor. Acaba beirando o ininteligível. A gente conseguia driblar muita coisa porque os caras eram muito burros e, ao mesmo tempo, paranóicos. A soma da burrice com a paranóia é uma coisa terrível! Os caras começavam a querer cortar coisas absolutamente inocentes, achava que ali tinha um recado. Chegaram uma vez, no jornal Opinião que eu fazia parte, a censurar uma coluna de xadrez, porque falava que o rei ia ser derrubado. Uma coluna de xadrez! Mas a gente chegava para o sensor, explicava, e cara até constrangido, liberava, porque ficava provado que o cara era burro. Mas em Brasília, no Centro de Informação do Exército, não tinha jeito. A gente entregava um bolão, equivalente a três volumes, dois dias depois os caras devolviam com todos os cortes. No final, às vezes dava para um número. Foi uma loucura, viu? Eu sei porque eu penei, e digo isso sem a menor glória. Eu era o jornalista mais censurado do Brasil, porque eu era censurada nos três veículos para os quais eu trabalhava: no Opinião, no Pasquim e na Veja.
OP - O Pasquim tinha reuniões de pautas famosas, descritas como sempre regadas a uísque. Como elas funcionavam realmente?
Sérgio - O jornal era uma hora do recreio permanente. Chegava de tarde, batia papo e tinha uma ideia. Cada um tinha uma contribuição, ali era uma bagunça. "Cadê a página do fulano", "Ah, ainda não chegou". Naquela época, vinha por malote da Varig, não tinha fax. A gente chegava à redação, propunha uma entrevista, ia quem podia. Cada um fazia suas coisas sem precisar dar muita satisfação. Total liberdade, era uma coisa maravilhosa.
OP - E regada a uísque sempre?
Sérgio - Olha, nas entrevistas sim. Tinham pessoas na redação que bebiam bem. Jaguar é o maior fígado da história. Os outros nem tanto assim. O Millôr nunca foi de beber muito, já o Francis bebia bem. Há muito folclore em torno dessa história de bebida. Alguns bebiam, outros não. A gente bebia mais depois que o jornal fechava, nas boates, restaurantes, não deixava de ser trabalho porque o assunto era o Pasquim. Mas na hora de trabalhar, era normal. O Jaguar saía para tomar as cachacinhas dele, mas ele é inderrubável, então ele pode.
OP - Ao mesmo tempo em que o Pasquim lutava a favor das minorias, era um jornal politicamente incorreto...
Sérgio - O jornal liberou essa coisa de falar de sexo, usar a palavras como bicha, mas ao mesmo tempo era um jornal que vivia gozando os homossexuais, a gente estava pouco se lixando. A gente brincava muito. O Tarso usou uma coluna inteira para dizer fulano de tal é bicha, fulano não é bicha. Uma coluna inteira! As pessoas que ele gostava, dizia que era bicha, coisas idiossincráticas. Essa liberdade que o jornal tinha não era preconceito. O jornal gozava porque todo mundo gozava mesmo, nem tinha essa coisa do politicamente correto. Essa história mais recente, do que pode ou não pode dizer e que eu acho insuportável, não sei como o jornal se comportaria.
OP - Na verdade, eu gostaria de questionar sobre o papel mulher no Pasquim.
Sérgio - Olha, eu briguei muito. O Ivan Lessa brigou comigo uma época, eu briguei com o Ziraldo. Eu era considerado o feminista da redação. Por volta de 1975, quando inclusive as mulheres começaram a ser mais atuantes no movimento feminista, teve um caso chato, foi até quando eu saí do jornal pela primeira vez. Me demiti e depois voltei. Um cara que era diretor do Jornal do Brasil colocou as mãos nos peitos de uma recepcionista do jornal. A menina foi demitida por reclamar. E as feministas do Rio de Janeiro fizeram uma passeata em frente ao jornal e me mandaram o texto sobre isso. Como a página três era minha, eu publiquei a carta na íntegra, protestando. Aí o Ziraldo mandou tirar o nome do Izaac Pilcher, o acusado, sem falar comigo. Pediu para apagar o nome, mas ao invés de apagar, marcaram com uma caneta piloto preta, como os censores faziam. Na hora de montar a página, recortar e entrelinhar, os caras se esqueceram de entrelinhar. Então o jornal saiu com a minha coluna cheia de listras pretas. Eu fiquei uma fera. Se o cara tivesse feito o trabalho certo, seria pior, porque somente eu e as moças ficaríamos sabendo do corte e eu até levaria a culpa. Foi um escândalo danado e saí do jornal. E o Jaguar pediu para eu voltar, mas também eu disse: "agora me dê um aumento" (risos). Acho que foi um vacilo do jornal. Mas foi um evento de curta duração, o jornal sempre foi muito libertário, em todos os sentidos - de linguagem, em não obedecer a regras. O jornal era aberto à diversidade de opiniões. O Agamenon Pedreira, personagem do Hubert e Marcelo Madureira do Casseta & Planeta que e assina uma coluna no O Globo hoje é politicamente incorretíssimo e a graça está nisso.
OP - A prisão de alguns dos membros do Pasquim (Jaguar, Ziraldo, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, Paulo Garcez e Tarso de Castro), em 1970, por conta de uma charge que usava a famosa pintura de Pedro Américo, com a frase: Eu quero mocotó!, no lugar de Independência ou Morte modificou de alguma forma o estilo do jornal? Vocês ficaram mais cautelosos?
Sérgio - O jornal tinha períodos de cautela, ficava mais cuidadoso dois ou três números. É como fugir da vigilância paterna: ah, não vou fugir da vigilância do meu pai, mas daqui a pouco você esquece e sai correndo. O jornal tomava cuidado e depois começava a afrouxar de novo. Uma experiência curiosa é que, quando todos foram presos, eu me liguei mais ao jornal. Porque eu tinha colaborado desde o número nove e tinha parado. Quando o pessoal foi preso, transformou-se num mutirão. Todo mundo aqui do Rio, jornalistas principalmente, mandava textos para o jornal sair. O Millôr e a Marta Alencar não foram presos e nem o Henfil. Eles ficavam na retaguarda fechando o jornal e eu apareci. Quando o pessoal foi solto, o Francis pediu para eu continuar escrevendo. No começo de 1971 ou 1972 eu comecei a editar o jornal a pedido do Jaguar e ficava o tempo todo na redação. Aí virou vício, não teve mais jeito.
Sérgio Augusto - Ah, não sei (risos). Porque eram várias pessoas entrevistando, então os rumos podiam ser muitos. Eu era, muitas vezes, uma delas. Dependia muito do personagem, do que ele fizesse e representasse, da figura que fosse. Algumas entrevistas começavam, inclusive, como um bate papo ali na redação. Os caras iam falando uma bobagem que não tinha nada a ver com o entrevistado e engrenavam a conversa. O curioso do Pasquim é que as pessoas que faziam as perguntas eram, às vezes, mais conhecidas que o próprio entrevistado. Você o entrevistava porque sabia do valor daquele pesquisador ou personagem. Veja o caso da antropóloga americana Angela Gilliam, uma ativista negra que passou uma temporada na Bahia. Fizemos uma entrevista sobre o Brasil e ela dizia que o país tinha racismo e até esculhambava o Pelé porque ele só casava com branca para "melhorar a raça" entre aspas. Essa entrevista o censor deixou passar por uma bobeada dele e os militares tinham horror a mais leve insinuação de que existia racismo no Brasil. Isso deu um bolo danado. Foi quando nós deixamos de ser censurados no Rio e fomos censurados no Centro de Informações do Exército, direto de Brasília. Então, essa antropóloga era absolutamente desconhecida no Brasil. Isso vale também para muitos brasileiros que foram entrevistados. É como se hoje o Millôr Fernandes fosse entrevistar um pintor iniciante, do qual tivesse algumas obras, e ficasse muito impressionado. Para promovê-lo, revelá-lo ao Brasil. A equipe era formada de jornalistas já conhecidos. Até eu mesmo quando comecei no jornal, no número seis colaborando, no final de 1969, eu já tinha nove anos de jornalismo.
OP - E se O Pasquim tivesse atravessado a barreira dos anos 2000, você tem ideia de que bandeiras ele levantaria hoje?
Sérgio - Eu não tenho a menor ideia. O Pasquim estava muito ruim quando acabou. O Jaguar foi que segurou aquilo... Já estava todo mundo em outra, ganhando dinheiro em outro lugar. E as próprias bandeiras do Pasquim, tudo que ele inovou chegou à grande mídia depois que a ditadura acabou, os jornais ficaram mais saidinhos, digamos assim. Na própria linguagem, hoje em dia, você abre o jornal e encontra o palavrão, antigamente não tinha nada disso. As ousadias do Pasquim, essas brincadeiras e a linguagem, a grande impressa começou a copiar. Virou comum. Eu fico lendo os outros jornais e tem certas brincadeiras de colunistas que eu digo: "ah, isso aí O Pasquim fez 40 anos atrás". Não tem novidade nenhuma. Eu não sei que nicho sobraria hoje para O Pasquim já que os jornais já falam mal do governo, dos políticos, criticam, fazem analise comportamental, defende a minorias sexuais e raciais, não sei o que poderia sobrar de novidade. Talvez ficar no calcanhar da TV Globo, coisas que outros veículos ainda têm certo receio de fazer - até para não criar atritos. Então, não consigo estimar.
OP - Durante a ditadura, foram criados mais de 150 jornais alternativos. A opressão seria essencial para surgir periódico como O Pasquim? Você acredita que é o tipo de publicação que só surgiria com a ditadura?
Sérgio - É bom caracterizarmos o Pasquim. Ele parte do mote das pessoas que o lançaram. E ninguém acreditava nele. As experiências que tinham acontecido antes, como a do Ziraldo no jornal Discórdia, no qual lançou o Henfil, duraram pouco tempo, porque eles começaram a esculhambar o governo. Depois veio a experiência do Millôr no Pif Paf. Tudo isso foi fracassando porque a mídia, embora não fosse tão pesado na época do Pif Paf, foi censurada mesmo. Era muita pressão e o Millôr encheu o saco - ele não tem muita paciência - e acabou o Pif Paf. Até que criaram um jornal que o Sergio Porto editava, A Carapuça - editava não, ele dava o nome dele, porque não tinha tempo, trabalhava pra burro. Então, o Alberto Eça imitava o estilo dele. Acontece que o Sérgio Porto morreu. E não dava mais para fingir que o jornal era dele, claro. Os donos da gráfica resolveram chamar o Tarso de Castro par editar a Carapuça. E ele entrou em contato com o Jaguar e disse: "olha, vamos fazer um jornal humorístico vamos continuar A Carapuça. O Jaguar disse que não deviam que continuar, e sim fazer uma coisa nova. Então chamaram o Sérgio Cabral, o Carlos Prósperi e fizeram um jornal de humor. Era uma nova Carapuça, sem muitas pretensões, mas que ganhou o nome de O Pasquim. Depois, do nada, o "O" sairia a partir de uma das edições. O Jaguar queria tirar só 10 mil no primeiro número. Fizeram o dobro e vendeu logo de cara.
OP - Os próprios jornalistas não acreditavam, então?
Sérgio - Não, nada! No começo, eu era um mero colaborador. Mas em seis semanas, o jornal pulou para 200 mil e foi uma loucura. Setenta por cento dos leitores tinham de 18 a 30 anos, uma faixa maravilhosa para a publicidade. Um segmento, importantíssimo em termo de venda. E porque fracassou? Ah, porque roubaram muita a gente. Não só a censura nos obrigou a fechar o jornal como o que sobrava dos cortes, mas o jornal tinha péssimos administradores. As pessoas que cuidavam da contabilidade, que administravam o jornal, nos roubavam mesmo, então o jornal ficou atolado em dívidas. Porque o pessoal da redação queria só criar, sem se preocupar com isso e a achava que tudo estava correndo bem.
OP - E as próprias mudanças ao longo do tempo no material do jornal também influenciaram...
Sérgio - Ah, sim. Eu não posso falar por depois da década de 80, porque eu saí de lá em novembro de 1979, não via mais o jornal.
OP - Nem acompanhava?
Sérgio - Não, não, achei que estava muito ruim. Não sei como o Jaguar conseguiu segurar aquilo durante 22 anos, 1072 números! Fechando a sua pergunta, o jornal tinha uma equipe formidável. Isso era fora do comum. Tinha Chico Buarque correspondente em Londres, tinha Vinícius de Moraes, para não falar dos da casa e os que foram revelados lá. Henfil e os caras já conhecidos pelo humor, como o Millôr, Jaguar, Ziraldo... Era realmente um escrete. A Danuza Leão me chamou atenção para um fator. Quando saiu o primeiro volume da Antologia do Pasquim, ela falou: "Sérgio, sabe qual é o problema? É que vocês não teriam quem entrevistar como vocês tinham naquela época". Tudo bem, o jornal tinha muito cobra escrevendo e hoje eu me pergunto: onde está o novo Paulo Autran? O Ivan Lessa ainda tá vivo, mas hoje você não tem um seguidor à altura, com o brilho do Ivan Lessa. A redação já era uma seleção. Hoje em dia você pode até fazer um jornal, mas você não teria com aquela qualidade, aquele nível. E se a gente for ver o elenco das entrevistas, muita gente já morreu. Di Cavalcanti, vários artistas de rádios... Tem um detalhe, se tiver essas pessoas equivalentes da nova geração, elas já teriam dito tudo aos jornais, porque todos fazem entrevistas. Todo mundo vira celebridade e ninguém tem mais nada a esconder ou a revelar de novidade. Esse é um ponto fundamental. Cadê a Leila de diz de hoje? As atrizes não têm segredo, não há como se revelar através de um veículo. Essa superexposição é muito difícil de contornar. Um cara da Playboy me mandou umas perguntas e ele mesmo disse que hoje é difícil encontrar alguém que tenha alguma coisa para dizer que já não tenha falado em outra entrevista.
OP - O desafio não seria justamente encontrar novas pessoas ou encontrar novas revelações das mesmas pessoas?
Sérgio - O desafio é ter pessoas interessantes que teria alguma novidade para dizer que ainda não tenha saído em outro lugar. Isso diz respeito à entrevista, um dos fortes do jornal. Quanto ao resto, é encontrar pessoas com talento, que soubesse escrever, desenhar, fazer humor com o mesmo brilho do pessoal do Pasquim.
OP - O que você aponta como as principais contribuições provocadas pelo O Pasquim na imprensa brasileira? Talvez um jornalismo menos engessado?
Sérgio - Tinha a (revista) Realidade, mas era séria, de grandes reportagens. O Pasquim era muito diferente. Era um jornal anárquico, que você podia escrever tudo. Uma vez, o Tarso não entregou a página dele e o Haroldo, chefe-secretário da redação, virou pro Jaguar: "Oh, Jaguar, o Tarso tá aberto, o que a gente põe no lugar?". O Jaguar falou: "Rapaz, seguinte, escreve blá blá blá blá blá" e saiu! Os leitores adoraram, acharam o máximo, inventivo. Tudo que você fazia no jornal, era muito engraçado, tinha credibilidade. Logo nos primeiros números, havia censura, mas era relativamente branda. A dona Marina, que era a censora, gostava de beber, e o Jaguar a enchia de uísque e ela deixava passar muita coisas. Depois que dona Marina foi embora, veio o Juarez Paz Pinto, pai da Helô, a musa de Garota de Ipanema. Ele ficava na praia, a gente deixava no escritório, ele lia, aprovava. O Ivan Lessa e o Jaguar negociavam os cortes. "Ah, isso não quer dizer nada disso". Porque os censores eram muito paranóicos, eles sempre acham que tem uma sacanagem por trás. Tinha esse jogo. Mas depois que saiu a entrevista com a antropóloga, fomos para Brasília (censurados pelo Centro de Informação do Exército), aí era no buraco negro, não conseguíamos mais negociar nada.
OP - Em sua opinião, qual a principal herança d'O Pasquim para o jornalismo brasileiro?
Sérgio - A linguagem inteiramente descontraída e despojada, a falta de medo de escrever, os coloquialismos, o escrever como a gente fala. E as gírias também. Curtir, por exemplo, é muito melhor que usufruir, gozar. Porque curtir é algo mais amplo. O Pasquim realmente tirou o paletó e gravata do jornalismo brasileiro.
OP - Além do Jaguar, algum outro colaborador lhe ajudou para separar o material da coletânea d'O Pasquim?
Sérgio - Eu cuido do texto e o Jaguar da parte de cartum. Nem sei quais ilustrações e tiras vão sair, fico sabendo quando reviso o livro. Faço a revisão final porque já tinha muito erro na época. Eu cheguei a perguntar a opinião do Ziraldo, porque ele não tinha gostado da seleção que a gente tinha feito para o número dois, aí eu falei o seguinte: "olha, pessoas de fácil acesso tudo bem, a gente pergunta. Mas quem se interessasse devia fazer a escolha". Pedi isso a alguns colaboradores eventuais. O Millôr, por exemplo, não se mete, até porque é difícil deixar de fora coisas dele. O (Paulo) Francis morreu, então você coloca o que achar melhor.
OP - O projeto era ameaçado de ter uma história breve. O que você considera fundamental para o Pasquim ter durado tanto tempo - 22 anos - burlando a censura?
Sérgio - O humor desconcerta muito. O problema da censura é que sua linguagem vai ficando tortuosa, tem certas coisas que leio hoje e considero absolutamente não exotéricas. Será que na época as pessoas entendiam? Falava-se muito cifrado para driblar o censor. Acaba beirando o ininteligível. A gente conseguia driblar muita coisa porque os caras eram muito burros e, ao mesmo tempo, paranóicos. A soma da burrice com a paranóia é uma coisa terrível! Os caras começavam a querer cortar coisas absolutamente inocentes, achava que ali tinha um recado. Chegaram uma vez, no jornal Opinião que eu fazia parte, a censurar uma coluna de xadrez, porque falava que o rei ia ser derrubado. Uma coluna de xadrez! Mas a gente chegava para o sensor, explicava, e cara até constrangido, liberava, porque ficava provado que o cara era burro. Mas em Brasília, no Centro de Informação do Exército, não tinha jeito. A gente entregava um bolão, equivalente a três volumes, dois dias depois os caras devolviam com todos os cortes. No final, às vezes dava para um número. Foi uma loucura, viu? Eu sei porque eu penei, e digo isso sem a menor glória. Eu era o jornalista mais censurado do Brasil, porque eu era censurada nos três veículos para os quais eu trabalhava: no Opinião, no Pasquim e na Veja.
OP - O Pasquim tinha reuniões de pautas famosas, descritas como sempre regadas a uísque. Como elas funcionavam realmente?
Sérgio - O jornal era uma hora do recreio permanente. Chegava de tarde, batia papo e tinha uma ideia. Cada um tinha uma contribuição, ali era uma bagunça. "Cadê a página do fulano", "Ah, ainda não chegou". Naquela época, vinha por malote da Varig, não tinha fax. A gente chegava à redação, propunha uma entrevista, ia quem podia. Cada um fazia suas coisas sem precisar dar muita satisfação. Total liberdade, era uma coisa maravilhosa.
OP - E regada a uísque sempre?
Sérgio - Olha, nas entrevistas sim. Tinham pessoas na redação que bebiam bem. Jaguar é o maior fígado da história. Os outros nem tanto assim. O Millôr nunca foi de beber muito, já o Francis bebia bem. Há muito folclore em torno dessa história de bebida. Alguns bebiam, outros não. A gente bebia mais depois que o jornal fechava, nas boates, restaurantes, não deixava de ser trabalho porque o assunto era o Pasquim. Mas na hora de trabalhar, era normal. O Jaguar saía para tomar as cachacinhas dele, mas ele é inderrubável, então ele pode.
OP - Ao mesmo tempo em que o Pasquim lutava a favor das minorias, era um jornal politicamente incorreto...
Sérgio - O jornal liberou essa coisa de falar de sexo, usar a palavras como bicha, mas ao mesmo tempo era um jornal que vivia gozando os homossexuais, a gente estava pouco se lixando. A gente brincava muito. O Tarso usou uma coluna inteira para dizer fulano de tal é bicha, fulano não é bicha. Uma coluna inteira! As pessoas que ele gostava, dizia que era bicha, coisas idiossincráticas. Essa liberdade que o jornal tinha não era preconceito. O jornal gozava porque todo mundo gozava mesmo, nem tinha essa coisa do politicamente correto. Essa história mais recente, do que pode ou não pode dizer e que eu acho insuportável, não sei como o jornal se comportaria.
OP - Na verdade, eu gostaria de questionar sobre o papel mulher no Pasquim.
Sérgio - Olha, eu briguei muito. O Ivan Lessa brigou comigo uma época, eu briguei com o Ziraldo. Eu era considerado o feminista da redação. Por volta de 1975, quando inclusive as mulheres começaram a ser mais atuantes no movimento feminista, teve um caso chato, foi até quando eu saí do jornal pela primeira vez. Me demiti e depois voltei. Um cara que era diretor do Jornal do Brasil colocou as mãos nos peitos de uma recepcionista do jornal. A menina foi demitida por reclamar. E as feministas do Rio de Janeiro fizeram uma passeata em frente ao jornal e me mandaram o texto sobre isso. Como a página três era minha, eu publiquei a carta na íntegra, protestando. Aí o Ziraldo mandou tirar o nome do Izaac Pilcher, o acusado, sem falar comigo. Pediu para apagar o nome, mas ao invés de apagar, marcaram com uma caneta piloto preta, como os censores faziam. Na hora de montar a página, recortar e entrelinhar, os caras se esqueceram de entrelinhar. Então o jornal saiu com a minha coluna cheia de listras pretas. Eu fiquei uma fera. Se o cara tivesse feito o trabalho certo, seria pior, porque somente eu e as moças ficaríamos sabendo do corte e eu até levaria a culpa. Foi um escândalo danado e saí do jornal. E o Jaguar pediu para eu voltar, mas também eu disse: "agora me dê um aumento" (risos). Acho que foi um vacilo do jornal. Mas foi um evento de curta duração, o jornal sempre foi muito libertário, em todos os sentidos - de linguagem, em não obedecer a regras. O jornal era aberto à diversidade de opiniões. O Agamenon Pedreira, personagem do Hubert e Marcelo Madureira do Casseta & Planeta que e assina uma coluna no O Globo hoje é politicamente incorretíssimo e a graça está nisso.
OP - A prisão de alguns dos membros do Pasquim (Jaguar, Ziraldo, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, Paulo Garcez e Tarso de Castro), em 1970, por conta de uma charge que usava a famosa pintura de Pedro Américo, com a frase: Eu quero mocotó!, no lugar de Independência ou Morte modificou de alguma forma o estilo do jornal? Vocês ficaram mais cautelosos?
Sérgio - O jornal tinha períodos de cautela, ficava mais cuidadoso dois ou três números. É como fugir da vigilância paterna: ah, não vou fugir da vigilância do meu pai, mas daqui a pouco você esquece e sai correndo. O jornal tomava cuidado e depois começava a afrouxar de novo. Uma experiência curiosa é que, quando todos foram presos, eu me liguei mais ao jornal. Porque eu tinha colaborado desde o número nove e tinha parado. Quando o pessoal foi preso, transformou-se num mutirão. Todo mundo aqui do Rio, jornalistas principalmente, mandava textos para o jornal sair. O Millôr e a Marta Alencar não foram presos e nem o Henfil. Eles ficavam na retaguarda fechando o jornal e eu apareci. Quando o pessoal foi solto, o Francis pediu para eu continuar escrevendo. No começo de 1971 ou 1972 eu comecei a editar o jornal a pedido do Jaguar e ficava o tempo todo na redação. Aí virou vício, não teve mais jeito.
Dê sua nota clicando nas estrelas
Comentar essa notícia
Importante: Os comentários publicados são de exclusiva responsabilidade de seus autores e as conseqüências derivadas deles podem ser passíveis de sanções legais. O usuário que incluir em suas mensagens algum comentário que viole o regulamento será eliminado e inabilitado para voltar a comentar.
Mais Notícias
Últimas
- 19:17 Marta Suplicy defende candidatura de Ciro ao governo de São Paulo
- 18:55 Morre, aos 47 anos, pastor Alisson Silva
- 18:50 Michelle Obama lança campanha nacional contra obesidade infantil
- 18:46 Camex reduz a zero imposto de importação de vacinas contra gripe suína
- 18:45 Prius, o híbrido emblemático da Toyota
Últimas
- 03:05Documentos falsos vendidos por R$ 30
- 01:49Quem grita mais... ganha
- 12:19Viatura do Ronda perde o controle e invade restaurante em São Gonçalo do Amarante
- 17:50'Dilma não é líder, é reflexo de um líder', diz Fernando Henrique
- 03:06Revelações de sex symbol
- 10:07Corpo de homem é encontrado amarrado e amordaçado
- 01:49 Quem grita mais... ganha
- 17:50 'Dilma não é líder, é reflexo de um líder', diz Fernando Henrique
- 12:19 Viatura do Ronda perde o controle e invade restaurante em São Gonçalo do Amarante
- 02:04 Já vai embora?
- 03:04 35 mil famílias cearenses fora do Bolsa Família
- 08:54 Investimentos em educação vão transformar Brasil em potência econômica, diz Lula
Indique essa notícia















