Ao Pé da Letra
AO PÉ DA LETRA
O risco de perder a vida
Pasquale Cipro Neto
14 Set 2002 - 17h59min
O sujeito entra na estação, compra o bilhete e desce as escadas, orientando-se pelas placas em que se lê ''embarque''. Segue-as e chega à plataforma em que toma o... O barco, é claro, se valerem a definição literal de ''embarque'' (''ato de embarcar'') e a origem do verbo ''embarcar'' (''em'' + ''barco'' + ''ar'').
Acalme-se, caro leitor. Não leve esta conversa ao pé da letra. Foi só uma brincadeira para fazer você penetrar no centro de nossa conversa: algumas das transformações por que passam as palavras e as expressões da língua. Essas alterações se dão na forma, na pronúncia, no sentido, no emprego etc. No caso de ''embarcar'', não é difícil entender que a idéia de entrar num barco se estende aos outros meios de transporte (avião, ônibus, metrô, trem etc.).
Com o tempo e o uso, é comum perdermos a noção da origem e do sentido literal das palavras, o que muitas vezes nos deixa surpresos diante da (re)descoberta de seu sentido original. Quem é que se lembra de que o ingênuo e doce ''cueiro'', com que as mamães vestem carinhosamente seus pirralhos, vem de... Não vou dizer, caro leitor; não me parece necessário. Mas, se você pensou em..., acertou. É isso mesmo. Se não acreditar, consulte um dicionário. Diante do cueiro, o caso de ''embarcar'' é bem menos chocante. Embarcamos, sem nenhum constrangimento, no trem, no ônibus, no avião, no navio, no metrô, no carro e até no próprio barco.
Posto isso, quero tocar num ponto delicado: o risco de vida. Ou será de morte? Foram tantas as coincidências a respeito dessa questão, que não tive como não abordá-la no texto de hoje. Primeiro, foi um querido amigo (o doutor Júlio, cirurgião vascular) que me perguntou a respeito da expressão. Dias depois, o professor Sírio Possenti, da Unicamp, abordou a questão em sua coluna no site www.primapagina.com.br. Por fim, na última segunda-feira, o pessoal do ''Jornal da Globo'' me telefonou. O motivo do telefonema era justamente o bendito ''risco''. O profissional encarregado de fazer a externa (matéria de rua) de determinada reportagem já gravara sua participação, na qual tratou do ''risco de vida'' que corre quem vive nas grandes cidades brasileiras...
Ao pé da letra, se o risco é sempre de coisa ruim (''risco de infecção'', ''risco de contaminação'', ''risco de não se classificar para a fase final do campeonato'', ''risco de ficar desempregado'', ''risco de adoecer'' etc.), parece cabível que se dêem como legítimas as construções ''risco de morte'' e ''risco de morrer'' (''Fulano ainda corre risco de morte''; ''Fulano corre risco de morrer''). Mas não se pode esquecer o começo de nossa conversa (''as transformações etc.''). Há pelo menos duas explicações para o emprego de ''risco de vida'' no lugar de ''risco de morte''. A primeira delas se baseia no inegável horror que a palavra ''morte'' causa, o que talvez nos faça fugir dela como o diabo foge da cruz. A segunda explicação (talvez mais plausível) se assenta na idéia do cruzamento de construções (''Sua vida corre risco'' com ''Ele corre risco de vida'', por exemplo) ou ainda na pura e simples omissão (''Correr o risco de [perder a] vida''). O nome técnico dessa omissão (de termo que se subentende) é ''silepse''.
O fato é que, nesses casos, não parece sensato remar contra a maré. O uso mais do que difundido da expressão ''risco de vida'' é motivo mais do que suficiente para que a aceitemos pacificamente. É bom que se diga que não lhe faltam registros nos dicionários. O Dicionário Houaiss dá três exemplos do emprego de ''risco'' com o sentido de ''probabilidade de perigo'' (''risco de vida'', ''risco de infecção'', ''risco de contaminação''). Publicado em 2001, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, dá ''risco de vida'' e ''perigo iminente de morte'' como expressões equivalentes, exemplificadas com esta frase: ''O doente encontra-se em risco de vida''.
Em tempo: sugeri ao pessoal do Jornal da Globo que não derrubasse a matéria por causa do ''risco de vida''. A reportagem foi ao ar. Com o risco de vida, é claro. Em tempo (2): ''derrubar a matéria'' é expressão do jargão jornalístico.
Até domingo. Um forte abraço.
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