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Política

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Tin renuncia às funções. Não ao salário

Erivaldo Carvalho
07 Jan 2009 - 00h05min

Você, dileto leitor, pagaria um gordo salário para alguém que, quatro dias depois de assumir o posto, diz na sua cara que não vai dedicar tempo algum à função para o qual foi selecionado? Que no ato da assinatura do contrato de trabalho afirma que prefere se dedicar à vida pessoal e aos próprios projetos? Sem tirar nem pôr, é o que pretende o vice-prefeito de Fortaleza, Tin Gomes (PHS). Para mantê-lo no cargo - a exemplo do que acontece com todos os que fazem parte do poder público -, é o nosso suado dinheiro que paga a conta - através do recolhimento de impostos. A única diferença é a forma indireta com que bancamos o contra-cheque deles. Além da religiosa remuneração mensal para não fazer absolutamente nada - pelo que o próprio disse no ato de posse -, Tin ainda terá à disposição um contingente de 21 assessores e uma verba anual de R$ 2,828 milhões. Só esta última despesa significa algo em torno de R$ 7,8 mil/dia. Até agora, esse é o prejuízo com que o fortalezense terá de arcar para sustentar um vice que não quer ser vice. Como se já não bastasse o fato de ele ter assumido e, imediatamente, ter entrado de férias.

O alegado motivo para Tin Gomes dar de ombros com as atribuições que oficialmente ocupa é o isolamento que ele pressente que sofrerá por parte da prefeita Luizianne Lins (PT) - com quem está à beira do rompimento. Tudo por conta da barulhenta briga entre os dois, em torno do controle da Câmara Municipal, na qual a petista saiu derrotada. Pressentindo que sofreria a rebordosa, Tin antecipou-se e anunciou o auto-exílio. A hombridade recomenda, entretanto, que ao se demitir de suas funções, o vice-prefeito também renuncie às suas prerrogativas - salariais, principalmente.

PINHEIRO, O EXEMPLO
O vácuo jurídico é apontado como o principal responsável pela quase inexistência das funções dos vices, no poder público, nos três níveis de governo. A omissão legal faz com que, tecnicamente, a única função deles seja substituir o titular, nos casos previstos em lei. Fora isso, oficialmente, não movem uma palha. No Brasil, foram criados para funcionar como “rainhas da Inglaterra”. Mas isso não impede - quando há clima político-administrativo para isso - que o bom senso e o espírito público falem mais alto. O caso mais atual e visível chama-se Francisco Pinheiro. Vice-governador indicado por Luizianne na chapa do então candidato Cid Gomes, em 2006, o petista tem hoje funções definidas e relevantes dentro do Governo do Estado. Anualmente, Pinheiro coordena seminários sobre o orçamento público estadual, discutindo prioridades e ajudando a definir demandas para aplicação de recursos. É o vice-governador também que, geralmente, fica à frente de questões ligadas à Educação Superior, entre outras funções que desempenha. Esculpido para o cargo, Pinheiro é conhecido pelo perfil discreto e reconhecido pela lealdade política. A propósito disso, com as férias de Cid, ele está governador do Estado.

FOLLOW THE MONEY
Exploração política à parte, há algo de concreto no pedido de abertura de investigação entregue pelo PSDB ao Ministério Público Estadual, ontem. O tucanato em Fortaleza quer que Luizianne venha a público explicar as declarações que deu à imprensa acerca das supostas chantagens e tentativas de compra de voto para a eleição da Mesa Diretora da Câmara. Ao falar sobre as possíveis pressões em torno da disputa - que envolveriam espaços na Prefeitura, no Governo do Estado e dinheiro vivo -, Luizianne procura adotar um tom de mera especulação e destaca tratar-se de boatos. Ressalvas feitas, a Coluna reproduz um trecho da entrevista que a petista concedeu ao O POVO, publicada na edição do último domingo, 4. Pergunta: “De dinheiro, de compra de votos, a senhora tomou conhecimento de algo?”. Resposta da prefeita: “Ouvi, mas é o tipo de coisa no âmbito de uma boataria. Não posso dizer que houve porque não vi”. Agora, atente para o trecho a seguir: “Um vereador, cujo nome não vou revelar, disse pra mim que iria atender ao pedido, mas, com isso, abriria mão de 30 mil reais ao grupo”. Ou seja, pelo que Luizianne declara, um vereador/eleitor diz para ela, claramente, que tentaram comprar o voto dele.

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