Fortaleza
ESTILO DE MORADIA
Muro baixo e cadeira na calçada
A cidade e suas modernidades, arranha-céus, câmeras, cerca elétrica. A cidade e seus velhos hábitos, a conversa na calçada, os murinhos baixos
Mariana Toniatti
da Redação
22 Mai 2007 - 02h06min
A cidade cresceu, a violência também e o medo às vezes beira a paranóia. Sintomas da metrópole feita de contrastes, mercado lucrativo para a indústria da segurança. Tecnologia e arquitetura estão a serviço da proteção e modificam a paisagem urbana. Haja muro alto, cerca elétrica e alarme. Não que os tempos não exijam cautela, mas se enclausurar em fortalezas digitais nem sempre é a melhor solução. Movimento na rua, vai-e-vem de pedestres e gente na calçada ajudam a espantar possíveis ladrões. Grades vazadas e muros baixinhos atrapalham a ação dos bandidos. Quem passa na rua pode flagrar a invasão. Sem falar na nostalgia do murinho baixo, que revela a fachada da casa, e do pessoal à toa na calçada.
Se o olhar presta atenção, Fortaleza ainda mostra lugares onde resiste à pós-modernidade do virtual e da obsessão por vigilância. Em avenidas movimentadas ou em ruas mais escondidas, casarões antigos teimam em manter a murada original, baixinha, e dão belos jardins de presente para a cidade. Azar de quem passa apressado e deixa de percebê-los. Na avenida Barão de Studart, até o mais desligado já deve ter admirado o jardim do casarão branco perto da rua Costa Barros. A casa ocupa metade do enorme terreno, o resto é grama, coqueiro, mangueira, palmeira e flor. A proprietária, de 87 anos, se mudou logo depois do casamento. Hoje, viúva, cuida com o mesmo zelo das plantas.
Na semana passada, andava indisposta e não quis conversar. O motorista conta que nunca houve assaltos à residência. "Se alguém entrar, todo mundo aí fora vê". Numa única vez pularam o gradil branco. "Era uma mulher drogada. Nem sabia o que estava fazendo", lembra. Em outra avenida agitada, a Antônio Sales, mora o casal Oman e Iduina Vasconcelos juntos "há uma eternidade", 57 anos. Ele tem 82, ela, 80. A casa é recuada, fica a uns 30 metros da calçada. O endereço é deles desde a década de 50. Oman escuta as palmas e vem abrir o portão. O muro bate no seu peito. Da varanda, avista-se o gramado extenso e o cajueiro. Quase dá para esquecer o trânsito lá fora, sempre intenso.
EXTENSÃO
"Aqui nunca fomos vítimas de assalto. Como tem uma loja de carro do lado e uma de lancha na frente, a vizinhança é bem vigiada". A filha do casal vez ou outra pede para os pais subirem o muro. "A gente sempre deixa para depois da chuva porque dá uma preguiça...", sorri Iduina. Do lado de fora dos muros, baixos ou altos, um outro costume de antigamente permanece, a "palestra" na calçada. Na rua Dona Leopoldina, principalmente nos quarteirões entre a avenida Santos Dumont e a rua Tenente Benévolo, quando o sol esfria as cadeiras começam a aparecer. Dona Lindalva, 59, repete o ritual há 24 anos, desde que chegou ali. As conversas na sua calçada reúnem seis mulheres.
Vão chegando e pegando uma cadeira na sala. "É o mesmo que ser de casa. É vizinho, mas é o mesmo que ser família", diz. Elas não se preocupam em tirar relógio, esconder corrente ou deixar os anéis em casa. Nunca foram assaltadas. "Graças a Deus! Com um susto desse ia perder a graça sentar na calçada". E quem quer abrir mão dessa hora? "Ah, é bom demais!", ri uma das amigas-vizinhas de Lindalva, Olga Costa, 56 anos, 48 vividos na Dona Leopoldina. Quatro casas pra baixo, está sentada Maria do Carmo, 82. Ela sai lá pelas 16 horas e fica até o jantar. As filhas se revezam para fazer companhia e "sempre passa alguém que se demora uns minutinhos". "Não saio pra canto nenhum, meu divertimento é esse", diz Maria. Desde 1960.
RESUMO DA SÉRIE
A primeira matéria da série, publicada na segunda-feira, divulga pesquisa publicada há um mês no Paraná sobre a Prevenção do Crime Através da Arquitetura Ambiental. Algumas conclusões do trabalho vão de encontro ao senso comum. Descobriu-se, por exemplo, que 71% dos criminosos preferem assaltar residências com muros, contra 29%, com grades. O estudo mostrou ainda como os ambientes podem influenciar os índices de criminalidade. No segundo semestre, a pesquisa deve virar o segundo livro sobre o assunto publicado no Brasil.
Se o olhar presta atenção, Fortaleza ainda mostra lugares onde resiste à pós-modernidade do virtual e da obsessão por vigilância. Em avenidas movimentadas ou em ruas mais escondidas, casarões antigos teimam em manter a murada original, baixinha, e dão belos jardins de presente para a cidade. Azar de quem passa apressado e deixa de percebê-los. Na avenida Barão de Studart, até o mais desligado já deve ter admirado o jardim do casarão branco perto da rua Costa Barros. A casa ocupa metade do enorme terreno, o resto é grama, coqueiro, mangueira, palmeira e flor. A proprietária, de 87 anos, se mudou logo depois do casamento. Hoje, viúva, cuida com o mesmo zelo das plantas.
Na semana passada, andava indisposta e não quis conversar. O motorista conta que nunca houve assaltos à residência. "Se alguém entrar, todo mundo aí fora vê". Numa única vez pularam o gradil branco. "Era uma mulher drogada. Nem sabia o que estava fazendo", lembra. Em outra avenida agitada, a Antônio Sales, mora o casal Oman e Iduina Vasconcelos juntos "há uma eternidade", 57 anos. Ele tem 82, ela, 80. A casa é recuada, fica a uns 30 metros da calçada. O endereço é deles desde a década de 50. Oman escuta as palmas e vem abrir o portão. O muro bate no seu peito. Da varanda, avista-se o gramado extenso e o cajueiro. Quase dá para esquecer o trânsito lá fora, sempre intenso.
EXTENSÃO
"Aqui nunca fomos vítimas de assalto. Como tem uma loja de carro do lado e uma de lancha na frente, a vizinhança é bem vigiada". A filha do casal vez ou outra pede para os pais subirem o muro. "A gente sempre deixa para depois da chuva porque dá uma preguiça...", sorri Iduina. Do lado de fora dos muros, baixos ou altos, um outro costume de antigamente permanece, a "palestra" na calçada. Na rua Dona Leopoldina, principalmente nos quarteirões entre a avenida Santos Dumont e a rua Tenente Benévolo, quando o sol esfria as cadeiras começam a aparecer. Dona Lindalva, 59, repete o ritual há 24 anos, desde que chegou ali. As conversas na sua calçada reúnem seis mulheres.
Vão chegando e pegando uma cadeira na sala. "É o mesmo que ser de casa. É vizinho, mas é o mesmo que ser família", diz. Elas não se preocupam em tirar relógio, esconder corrente ou deixar os anéis em casa. Nunca foram assaltadas. "Graças a Deus! Com um susto desse ia perder a graça sentar na calçada". E quem quer abrir mão dessa hora? "Ah, é bom demais!", ri uma das amigas-vizinhas de Lindalva, Olga Costa, 56 anos, 48 vividos na Dona Leopoldina. Quatro casas pra baixo, está sentada Maria do Carmo, 82. Ela sai lá pelas 16 horas e fica até o jantar. As filhas se revezam para fazer companhia e "sempre passa alguém que se demora uns minutinhos". "Não saio pra canto nenhum, meu divertimento é esse", diz Maria. Desde 1960.
RESUMO DA SÉRIE
A primeira matéria da série, publicada na segunda-feira, divulga pesquisa publicada há um mês no Paraná sobre a Prevenção do Crime Através da Arquitetura Ambiental. Algumas conclusões do trabalho vão de encontro ao senso comum. Descobriu-se, por exemplo, que 71% dos criminosos preferem assaltar residências com muros, contra 29%, com grades. O estudo mostrou ainda como os ambientes podem influenciar os índices de criminalidade. No segundo semestre, a pesquisa deve virar o segundo livro sobre o assunto publicado no Brasil.
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