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Fortaleza

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FENÔMENO ATMOSFÉRICO

Raios e trovões assustam população em Fortaleza

A grande quantidade de raios na madrugada de ontem assustou muita gente. Este ano, ocorreram 50% mais raios no Nordeste do que a média histórica

Yanna Guimarães
da Redação

07 Jun 2008 - 00h33min

Pos causa dos raios, 42 semáforos ficaram com problemas na manhã de ontem e agentes precisaram organizar o trânsito (Foto: Talita Rocha)
Os comentários estavam por toda a cidade. Foi assunto de fila de banco, escritórios, salas de aula. Quem não acordou com a série de raios e trovões que atingiu Fortaleza, na madrugada de ontem, ouviu falar de uma situação nunca vista antes, pelo menos, não aqui. Um fenômeno semelhante, mas não tão intenso, ocorreu em janeiro. Só que nenhum dos dois foram casos isolados. Este ano, conforme o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ocorreram 50% mais raios no Nordeste do que a média histórica. A região também registrou o maior número de mortes por raio e praticamente empatou com o Sudeste, que detém maior índice do País. Foram 20 mortes, sendo cinco no Ceará.

"A gente ficou surpreso. Nunca tínhamos visto tantas mortes, não nos últimos 20 anos. O Nordeste pode, inclusive, ter entrado na frente, pois ainda não incluímos os dados de abril e maio. Não oficialmente, sabemos que nesse período houve uma morte no Sudeste e duas ou três no Nordeste", afirma Osmar Pinto Júnior, coordenador do Elat. Para se ter uma idéia, o número de mortes este ano somente no Ceará é o equivalente à média histórica anual de todo o Nordeste.

Mesmo sem ter conhecimento dessas estatísticas, muita gente ontem achou que ia morrer. Mas nenhuma ocorrência de acidente foi registrada na madrugada por causa dos raios. "Foi a coisa mais horrível que eu escutei na minha vida. Parecia que o prédio ia cair, todo mundo na rua acordou", relata Sílvia Sabóia, 83, que mora na Aldeota.

Fenômeno
Ainda não se sabe quantas descargas elétricas foram registradas na madrugada de ontem. O Sistema de Monitoramento de Descargas Atmosféricas da Universidade Estadual do Ceará (Uece) deve divulgar o número hoje. Mas o motivo de tantos raios é explicado pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme): o fenômeno atmosférico chamado Zona de Convergência Intertropical. Desta vez, ele se aproximou demais do litoral de Fortaleza e causou o aparecimento de nuvens do tipo cumulus nimbus, responsáveis pela ocorrência de raios. "A instabilidade do tempo, que estava muito grande na madrugada de ontem, também contribuiu para a grande quantidade de descargas", explica a meteorologista Cláudia Barbieri.

Ela afirma que a quantidade de nuvens que se formou ontem foi bem maior que no fenômeno ocorrido em janeiro. Conforme o coordenador do Elat, essa instabilidade foi causada pelo fenômeno climático La NiÀa, que afetou o País este ano. "A diminuição da temperatura no oceano Pacífico provoca uma mudança na circulação da atmosfera e isso está causando um aumento de raios no Nordeste". Ele explica que, quando você vê o raio e em um curto espaço de tempo escuta o trovão, como ocorreu nesta madrugada, significa que a tempestade está muito perto da região. "Por isso impressionou tanto". A chuva registrada, no entanto, não foi forte. Foram 55 milímetros das 7 horas da manhã de quinta-feira às 7 horas da manhã de ontem.

O que muita gente quer saber é se o fenômeno pode se repetir. Há possibilidade, sim, mas não há como prever. "Pode ocorrer enquanto o La NiÀa estiver afetando o País. Ainda não sabemos se ele poderá continuar para o próximo ano. Só teremos certeza em agosto ou setembro", destaca Osmar. As chuvas, no entanto, devem continuar durante o mês de junho, pois o Ceará está no período pós-estação chuvosa, que corresponde à estação chuvosa da Zona da Mata, uma área que vai da Bahia até a cidade de Natal (RN).


COMO PROTEGER OS ANIMAIS

Ao ouvir o barulho forte dos trovões, os cachorros ficaram muito assustados na madrugada de ontem. A veterinária Denise Raymundo explica que isso não ocorre pelo fato de os cães terem uma sensibilidade maior ao som. "O animal não está habituado ao barulho. Quando ele escuta algo forte e diferente, associa ao medo, pois é uma coisa nova pra ele".

Em situações como esta, conforme a veterinária, o ideal é tirar a atenção do animal para que ele não perceba o barulho. "Você pode brincar com ele, jogar bola, dar um petisco. Entretê-lo de alguma forma para que ele esqueça os trovões", aconselha Denise.

Quando é possível prever o barulho, como no caso dos fogos de artifício, o ideal é fazer um tratamento com medicações para deixar o animal tranqüilo. "Ele vai estar mais relaxado e não vai se importar com o barulho", completa a veterinária.


E-Mais

O Brasil é o campeão mundial de raios. São cerca de 50 milhões de raios por ano. Em seguida, aparecem na lista a República do Congo e depois os Estados Unidos. A região de menor incidência é o Nordeste. Mesmo dentro dela, existem algumas regiões onde acontecem mais descargas, como o Maranhão, o norte Piauí, a Bahia e oeste do Ceará.

As incidências no Brasil variam de um raio por quilômetro quadrado por ano até 20 raios por quilômetro quadrado por ano, como no oeste do Rio Grande do Sul e o sul do Mato Grosso do Sul, além de alguns pontos isolados na Amazônia. Em Fortaleza a incidência é menor, é um evento raro.

A rede brasileira ligada ao Inpe que monitora os raios no País ainda não cobre o Nordeste, por isso não há estatísticas muito precisas. Mesmo assim, é possível observar que houve o aumento da incidência na região este ano. A partir de 2009, conforme Oscar Júnior, a cobertura será possível.

O Sistema de Monitoramento de Descargas Atmosféricas da Uece consegue monitorar a quantidade de raios que acontece no Estado, mas precisa mandar os dados para uma estação em São Paulo, onde os dados são processados. Conforme Francisco Sales Ávila, coordenador do Sistema, por causa de uma falha na conexão da Internet, as informações só foram enviadas na manhã de ontem, o que atrasou o resultado para hoje.

Na Assembléia Legislativa do Estado, os raios e trovoadas percebidos ao longo da madrugada, prejudicaram uma manhã inteira de trabalho. De acordo com a coordenadora de Comunicação da Casa, Sílvia Góis, houve diversos problemas tanto nos serviços de informática quanto nos de comunicação. O jornal Assembléia Notícias, que se inicia às 8h20min, não foi ao ar ontem. No plenário, também houve problemas de transmissão na rádio e na TV. A Internet só começou a se normalizar à tarde.

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