Fortaleza
Crianças e adolescentes
54,9% dos exploradores moram próximo aos pontos de prostituição
De cada 100 pessoas que exploram sexualmente meninos e meninas, 55 trabalham ou residem próximo aos pontos de prostituição
Marcos Cavalcante
da Redação
09 Dez 2008 - 00h19min
Quando se fala em exploração sexual comercial de crianças e adolescentes, uma das primeiras imagens que se tem é a de turistas estrangeiros com garotas cearenses. Mas a realidade é bem diferente. Os moradores locais, como trabalhadores e pessoas que residem próximos aos pontos de prostituição, constituem 54,9%¨dos exploradores. Já os estrangeiros respondem por 24,4% dos habituais exploradores de crianças e adolescentes. Os dados são da pesquisa "Os sete sentimentos capitais", da Fundação da Criança e da Família Cidadã (Funci), divulgados ontem.
De acordo com a presidente da Funci, Glória Diógenes, foram realizados 328 questionários com as crianças e adolescentes explorados nas ruas da Capital - número que, segundo Glória, é bem próximo ao total de explorados em Fortaleza. A pesquisa mostra que os pontos existem em áreas periféricas de Fortaleza - como o Siqueira e a Barra do Ceará - mas, também, em áreas nobres, como a Praia de Iracema e a avenida Beira Mar. "Utilizamos educadores sociais que passaram mais de três meses conhecendo e conversando com meninos e meninas do local", diz.
Das entrevistas, histórias de estupros por parte de familiares e amigos, espancamentos e extorsões de policiais, além das ameaças de morte de alguns exploradores. Tudo em vidas que não passaram dos 18 anos. Em muito dos casos, pais e irmãos são os responsáveis pelos primeiros abusos. "Mesmo assim, 96% dos meninos e meninas disseram que possuem família, embora mais de metade tenha problemas na família", destaca Glória Diógenes. Um dos muitos relatos descritos no livro surgido da pesquisa ilustra a problemática.
"A minha infância foi muito difícil... Com o tempo, a minha mãe abandonou a gente, e eu fiquei com o meu pai, eu e minhas outras irmãs. E minha mãe foi embora porque o meu pai só sabia beber, bater nela e na gente também. Eu tinha cinco anos... E sempre essa coisa de nós quatro com ele. Aí ele passou a abusar da minha irmã mais velha... Eu via toda a cena... Teve um tempo que ela não agüentou mais e foi para o Interior. Aí o meu pai passou a me usar, com sete anos ele me tocou e com oito ele abusou de mim sexualmente... Depois ele começou a me dar dinheiro para que eu não falasse... E eu me tornei dependente com o dinheiro". Trechos do depoimento de uma adolescente de 18 anos que se prostitui no terminal da Lagoa e na Praia de Iracema.
Políticas públicas
Carmem Oliveira, da Sub-Secretaria da Criança e do Adolescente do Ministério da Justiça, diz que o fato de a pesquisa ter revelado que a maior parte dos exploradores sexuais são moradores locais e não turistas mostra novos caminhos que as políticas públicas devem trabalhar. "Existe um mercado local forte e desregulado. O trabalho possibilita pensar estratégias diferenciadas", destaca Carmem, lembrando que 40% dos meninos e meninas entrevistados desconheciam os conselhos tutelares. "Isso põe em xeque a própria implementação do estatuto (da Criança e do Adolescente) em seus 18 anos", completa.
A presidente da Funci, Glória Diógenes, lembra que o problema da exploração sexual de crianças e adolescentes não se resolverá apenas com ações governamentais mas, também, com uma maior conscientização de comerciantes e da população. Os questionários foram realizados no ano passado. "Neste período conseguimos cursos, como o estilo solidário (escola de estilismo e moda) e o programa Rede Aquarela, que trabalha a parte da sensibilização e mobilização comunitária", diz Glória, destacando as ações realizadas para combater o problema.
E-Mais
O título "Os sete sentimentos capitais" teve origem em algumas palavras que mais chamaram a atenção nos depoimentos. Prazer, nojo, culpa, preconceito, liberdade e autonomia, vaidade e medo foram os sentimentos mais lembrados.
Os relatos mostram que os contatos com os exploradores acontecem em vários locais. São churrascarias e bares (avenida Osório de Paiva), no meio da rua (BR-116), e boates e casas de shows (Praia de Iracema).
Em dezembro de 2006, O POVO publicou o Documento BR, série de matérias sobre a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes nas rodovias cearenses. A reportagem foi premiada na 3ª edição do prêmio da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) de 2006.
A prefeita Luizianne Lins, quando era vereadora, conduziu os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Turismo Sexual de Fortaleza, em 2001. Já em 2005 a senadora Patrícia Saboya realizou a CPI da Exploraçao Sexual, de abrangência nacional.
Pontos de exploração sexual comercial de crianças e adolescentes em Fortaleza
Barra do Ceará
Antônio Bezerra
Siqueira
Centro
Praia de Iracema
Meireles
Praia do Futuro I
Praia do Futuro II
Parangaba
Castelão
BR-116
Avenida Osório de Paiva
Av. dos Expedicionários/ São Cristóvão
Fonte: Funci
CRIANÇAS E ADOLESCENTES EXPLORADOS SEXUALMENTE
Sexo Absoluto Percentual
Masculino 104 31,7%
Feminino 224 68,3%
Total 328 100%
Idade em que começou a fazer programa* Absoluto Percentual
Até 12 anos 30 9,1%
De 13 a 15 anos 172 52,4%
De 16 a 18 anos 118 36,0%
Outros 8 2,4%
Total 328 100%
Com quem fez o primeiro programa Absoluto Percentual
Clientes locais* 124 37,8%
Turistas estrangeiros 98 29,9%
Turistas brasileiros 34 10,4%
Amigos 21 6,4%
Vizinhos 13 4,0%
Não sabe 13 4,0%
Caminhoneiro 7 2,1%
Desconhecido 6 1,8%
Outros 4 1,2%
Primos 3 0,9%
Policiais 3 0,9%
Conhecido 2 0,6%
Total 328 100%
Pessoas que moram ou trabalham próximos aos locais de prostituição. Em terminais de ônibus, por exemplo, são comerciantes, motoristas e cobradores
Fonte: Funci
De acordo com a presidente da Funci, Glória Diógenes, foram realizados 328 questionários com as crianças e adolescentes explorados nas ruas da Capital - número que, segundo Glória, é bem próximo ao total de explorados em Fortaleza. A pesquisa mostra que os pontos existem em áreas periféricas de Fortaleza - como o Siqueira e a Barra do Ceará - mas, também, em áreas nobres, como a Praia de Iracema e a avenida Beira Mar. "Utilizamos educadores sociais que passaram mais de três meses conhecendo e conversando com meninos e meninas do local", diz.
Das entrevistas, histórias de estupros por parte de familiares e amigos, espancamentos e extorsões de policiais, além das ameaças de morte de alguns exploradores. Tudo em vidas que não passaram dos 18 anos. Em muito dos casos, pais e irmãos são os responsáveis pelos primeiros abusos. "Mesmo assim, 96% dos meninos e meninas disseram que possuem família, embora mais de metade tenha problemas na família", destaca Glória Diógenes. Um dos muitos relatos descritos no livro surgido da pesquisa ilustra a problemática.
"A minha infância foi muito difícil... Com o tempo, a minha mãe abandonou a gente, e eu fiquei com o meu pai, eu e minhas outras irmãs. E minha mãe foi embora porque o meu pai só sabia beber, bater nela e na gente também. Eu tinha cinco anos... E sempre essa coisa de nós quatro com ele. Aí ele passou a abusar da minha irmã mais velha... Eu via toda a cena... Teve um tempo que ela não agüentou mais e foi para o Interior. Aí o meu pai passou a me usar, com sete anos ele me tocou e com oito ele abusou de mim sexualmente... Depois ele começou a me dar dinheiro para que eu não falasse... E eu me tornei dependente com o dinheiro". Trechos do depoimento de uma adolescente de 18 anos que se prostitui no terminal da Lagoa e na Praia de Iracema.
Políticas públicas
Carmem Oliveira, da Sub-Secretaria da Criança e do Adolescente do Ministério da Justiça, diz que o fato de a pesquisa ter revelado que a maior parte dos exploradores sexuais são moradores locais e não turistas mostra novos caminhos que as políticas públicas devem trabalhar. "Existe um mercado local forte e desregulado. O trabalho possibilita pensar estratégias diferenciadas", destaca Carmem, lembrando que 40% dos meninos e meninas entrevistados desconheciam os conselhos tutelares. "Isso põe em xeque a própria implementação do estatuto (da Criança e do Adolescente) em seus 18 anos", completa.
A presidente da Funci, Glória Diógenes, lembra que o problema da exploração sexual de crianças e adolescentes não se resolverá apenas com ações governamentais mas, também, com uma maior conscientização de comerciantes e da população. Os questionários foram realizados no ano passado. "Neste período conseguimos cursos, como o estilo solidário (escola de estilismo e moda) e o programa Rede Aquarela, que trabalha a parte da sensibilização e mobilização comunitária", diz Glória, destacando as ações realizadas para combater o problema.
E-Mais
O título "Os sete sentimentos capitais" teve origem em algumas palavras que mais chamaram a atenção nos depoimentos. Prazer, nojo, culpa, preconceito, liberdade e autonomia, vaidade e medo foram os sentimentos mais lembrados.
Os relatos mostram que os contatos com os exploradores acontecem em vários locais. São churrascarias e bares (avenida Osório de Paiva), no meio da rua (BR-116), e boates e casas de shows (Praia de Iracema).
Em dezembro de 2006, O POVO publicou o Documento BR, série de matérias sobre a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes nas rodovias cearenses. A reportagem foi premiada na 3ª edição do prêmio da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) de 2006.
A prefeita Luizianne Lins, quando era vereadora, conduziu os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Turismo Sexual de Fortaleza, em 2001. Já em 2005 a senadora Patrícia Saboya realizou a CPI da Exploraçao Sexual, de abrangência nacional.
Pontos de exploração sexual comercial de crianças e adolescentes em Fortaleza
Barra do Ceará
Antônio Bezerra
Siqueira
Centro
Praia de Iracema
Meireles
Praia do Futuro I
Praia do Futuro II
Parangaba
Castelão
BR-116
Avenida Osório de Paiva
Av. dos Expedicionários/ São Cristóvão
Fonte: Funci
CRIANÇAS E ADOLESCENTES EXPLORADOS SEXUALMENTE
Sexo Absoluto Percentual
Masculino 104 31,7%
Feminino 224 68,3%
Total 328 100%
Idade em que começou a fazer programa* Absoluto Percentual
Até 12 anos 30 9,1%
De 13 a 15 anos 172 52,4%
De 16 a 18 anos 118 36,0%
Outros 8 2,4%
Total 328 100%
Com quem fez o primeiro programa Absoluto Percentual
Clientes locais* 124 37,8%
Turistas estrangeiros 98 29,9%
Turistas brasileiros 34 10,4%
Amigos 21 6,4%
Vizinhos 13 4,0%
Não sabe 13 4,0%
Caminhoneiro 7 2,1%
Desconhecido 6 1,8%
Outros 4 1,2%
Primos 3 0,9%
Policiais 3 0,9%
Conhecido 2 0,6%
Total 328 100%
Pessoas que moram ou trabalham próximos aos locais de prostituição. Em terminais de ônibus, por exemplo, são comerciantes, motoristas e cobradores
Fonte: Funci
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