Fortaleza
Perigos
Tempo de soltar arraias
O aumento dos ventos combinado com o período de férias escolares torna mais frequente as brincadeiras com arraia nos céus de Fortaleza. Mas a proximidade com as redes elétricas e avenidas de tráfego intenso trazem riscos às crianças e, principalmente, aos motoqueiros
Larissa Lima
da Redação
03 Jul 2009 - 00h45min
As crianças, donas das arraias que se enfrentam no céu do Lagamar, ainda lembram o que aconteceu com o Ernanzildo Rocha, de 41 anos, em fevereiro último. O motoqueiro morreu de forma quase instantânea, atingido no pescoço por uma linha com cerol, a cola com vidro que assegura o corte e a sobrevivência das pipas, que disputam umas contra as outras. A brincadeira continua quase embaixo da rodovia Santos Dumont (continuação da BR-116), local do acidente.
As arraias ficam mais frequentes no céu de Fortaleza a partir de junho, com o aumento da velocidade dos ventos e as férias escolares. “Quando aconteceu o acidente, eu parei de brincar. Mas cheguei agora do trabalho e deu vontade”, diz o empacotador Rafael Santiago, 18, prova de que o gosto pelas arraias ultrapassa a infância. Ele tem agora pelo menos a preocupação com o comprimento da linha, encurtada para não chegar até onde passam os carros. Não é assim com outras crianças e adolescentes, com linhas bem próximas do viaduto.
Para o mototaxista Nonato Ferreira, 49, a brincadeira deveria acabar de vez na cidade. “Estamos expostos ao perigo, não só de acidente, mas até de morte”, reclama. O capitão do Corpo de Bombeiros Warner Campos ressalta, além do risco sofrido pelos motoqueiros, que o contato da linha da arraia com os cabos da rede elétrica pode conduzir descargas elétricas, “podendo causar queimaduras nos membros ou até parada cardíaca”.
O coordenador da área técnica da Companhia Energética do Ceará (Coelce) em Fortaleza e Região Metropolitana, Jairo Kennedy, explica que mesmo a linha utilizada nas pipas sendo um material normalmente isolante (algodão, por exemplo), a depender das condições de umidade ela pode dividir a tensão que existe nos cabos condutores de energia e atingir quem estiver empinando com até 7.800 volts. Isso se o acidente acontecer nas redes de alta tensão, de 13.800 volts.
Kennedy lembra também os prejuízos para o fornecimento de energia. Em 2008, a ele foi interrompido 107 vezes em ocorrências ligadas ao uso das pipas em Fortaleza, o que pode significar um bairro inteiro sem energia elétrica por um certo período e eletroeletrônicos danificados.
Local ideal
Para o capitão Warner Campos, da assessoria de Comunicação do Corpo de Bombeiros, um dos problemas é que as crianças às vezes não têm por perto locais ideais para brincar de arraia, como campos, parques e terrenos vazios. A praia também seria uma ótima opção. Mas, próximo às ruas, elas ficam expostas a outros riscos, como de atropelamento. “A pipa cai e os outros meninos vão correndo para buscar essa pipa. Depois de cortada, ela pode ir para qualquer canto, e eles (os meninos) saem correndo e olhando para cima. Tem que ter alguém responsável pelas crianças”, alerta.
E-MAIS
> O meteorologista José Maria Brabo, da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), explica que o aumento da velocidade dos ventos de junho a novembro é um fenômeno climático. “De janeiro a maio, os ventos são mais fracos, o que geralmente coincide com a quadra chuvosa, com ventos em torno de 12, 13 quilômetros por hora”, afirma. Já a partir de junho, essa média passa a ser de 18 a 20 quilômetros por hora. “E também tem rajadas de vento, com velocidades mais altas em curtos intervalos de tempo, podendo até ser superiores a 50 quilômetros por hora”.
> Essas mudanças nos ventos têm relação com um sistema de alta pressão que fica sobre o Oceano Atlântico, próximo à costa do Brasil. Nessa época do ano, ele fica mais próximo à costa, em lugar de ficar no centro do oceano.
> Mesmo o aumento dos ventos geralmente coincidir com o fim do período chuvoso, é bom lembrar o perigo de empinar arraia com o céu carregado de nuvens. Se a arraia for atingida por um raio, você também pode receber uma descarga elétrica.
> No ano passado, das 107 ocorrências de interrupção do fornecimento de energia por causa de pipas, 49 foram registradas pela Coelce em julho. O palito e as fitas do rabo da arraia que ficam presas à rede elétrica são os principais causadores desse tipo de desligamento.
> O custo mensal de manutenção da Coelce com essas ocorrências ficou numa média de R$ 32.000 em 2008. “Toda manutenção extra é de qualquer maneira repassada ao cliente. Pode parecer pouco, mas juntando vários pouquinhos, acaba entrando na conta também”, afirma Jairo Kennedy, da Coelce.
> Nas lojas de acessórios para motos, a antena que protege contra as linhas de arraia custa em torno de R$10. Já o arco protetor pode ser encontrado até por R$15.
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