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"Mulas"

Mulheres na rota do tráfico

Para resolver um problema financeiro, de saúde ou melhorar de vida, muitas mulheres aceitam o serviço de "mula"

Yanna Guimarães
yanna@opovo.com.br

22 Set 2009 - 00h51min

Número de mulheres estrangeiras que se submetem a trazer drogas para o Brasil vem aumentando (Foto: EVILÁZIO BEZERRA)
Quando saiu da Romênia rumo ao Brasil, Joana, 39, só pensava na filha de 5 anos que precisava de um transplante de coração. Aceitou o serviço de buscar em São Paulo dois quilos de cocaína para levar de volta à Europa. ``Tive muito medo, mas não tinha outro jeito``, conta. A droga veio de São Paulo no forro de sua mala. Mas Joana não conseguiu passar do Aeroporto Internacional Pinto Martins. Foi barrada e presa em flagrante pela Polícia Federal (PF) há um ano e dez meses. ``Todo dia eu choro. Minha filha está bem, está com as irmãs mais velhas, mas ainda precisa fazer o transplante.``

Joana, que trabalhava em um bar, iria ganhar cinco mil euros se completasse o trajeto. Chegou no Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa (IPF) sem entender uma palavra em português. Hoje, já consegue se comunicar muito bem e trabalha como copeira da diretoria do presídio. Para cada três dias de serviço, um é abatido na pena. Mas ainda falta um ano para Joana poder voltar para casa e reencontrar a filha, hoje com 7 anos. De acordo com a chefe de segurança e disciplina do IPF, Analupe Araújo, são dificuldades financeiras como a que Joana enfrentou que movem a maioria das mulheres a aceitar esse tipo de serviço.

A quantidade de mulheres estrangeiras que se submetem a trazer drogas para o Brasil só vem aumentando. Em 2005, segundo Analupe, estavam presas quatro estrangeiras. Hoje, estão 38. O número representa 12% do total de internas do IPF, 305. ``Quando elas chegam não entendem uma palavra em português. Mas, normalmente, são disciplinadas. Por isso, muitas são encaixadas nos serviços do presídio``. Como aconteceu com Maria, 22, que está um ano e dois meses presa e trabalha em uma das fábricas do IPF. Em nove meses, quando puder ir embora, vai comprar presentes para mãe com parte do dinheiro do seu trabalho.

Maria aceitou o trabalho de ``mula`` também para melhorar a vida da família. De Cabo Verde, na África, foi para São Paulo - onde pegou oito quilos de cocaína - e foi barrada aqui, antes de conseguir levar a droga de volta para a África. ``Queria recomeçar minha vida, montar meu negócio. Lá em Cabo Verde não tem emprego, só exploração``. Maria ia ganhar 16 mil euros pelo serviço. ``Lá, não falta nunca esse tipo de oferta``.

Uma das histórias mais impressionantes é a de Vivian, 23. Ela conta que ficou grávida do namorado, mas sua mãe não aceitou. ``Ela disse que eu não deveria ter o bebê. Como eu não aceitei, ela me colocou na rua``. Sem ter onde morar, a proposta de receber 20 mil euros para buscar dois quilos de cocaína no Brasil pareceu tentadora. Ela e o namorado aceitaram. ``Tava com cinco meses quando viajei``.

O bebê de Vivian nasceu no presídio e ficou com ela por seis meses, quando sua mãe veio buscar o menino. ``Minha mãe já veio me visitar com ele quatro vezes. Ela está cuidando de tudo pra eu sair``. O namorado de Vivian está preso no Instituto Penal Professor Olavo Oliveira II (IPPOO II). As visitas são a cada 15 dias. O POVO usou nomes fictícios a pedido das entrevistadas.


E-Mais

>Internas estrangeiras do Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa: oito do Cabo Verde, cinco da Espanha, quatro de Guiné Bissau, quatro da Bolívia, duas da Guiana Francesa, duas da Alemanha, uma da Polônia, uma da África do Sul, uma da Hungria, uma da Bulgária, uma das Filipinas, uma das Ilhas Cayman, uma de Moçambique, uma da Romênia, uma de Portugal, uma da Suíça, uma da Holanda, uma da Itália e uma da Colômbia.

RESUMO DA SÉRIE
O POVO mostrou ontem que o Aeroporto Internacional Pinto Martins é o segundo do País com maior quantidade de cocaína apreendida em 2009. De janeiro a junho deste ano, 145 quilos da droga ficaram retidos. Fortaleza só fica atrás de Guarulhos. Mas, apesar do segundo lugar, a situação é mais grave aqui, já que no Pinto Martins o fluxo de passageiros é 9,5 menor que o de Guarulhos.

DEPOIMENTO

>Diferente da maioria das mulheres que se submete ao trabalho de ``mula``, Luana não foi movida pelo dinheiro. Moça bonita, de 20 anos, está presa há nove meses. Aprendeu a falar português e foi eleita a rainha do presídio. Da Holanda, onde nasceu e morava, foi a Manaus buscar a droga e veio a Fortaleza. Tentou sair daqui com a droga sob o corpo, por debaixo da roupa. ``Não sei porque fiz. Minha melhor amiga aceitou a proposta de uns conhecidos e me convidou. Eu topei pela aventura``. A amiga de Luana escapou, mas ela foi condenada há quase três anos de pena. Por dois quilos de cocaína, iria ganhar sete mil euros. ``Consegui me adaptar à vida no presídio. Mas me arrependo muito. Tudo que eu quero é terminar minha faculdade e voltar a viver a minha vida``.

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23/09/2009
07:47

Espero que essas pessoas que foram pegas como "MULAS", possam ter uma nova oportunidade na vida. Se essa mensagem chegar até elas... Gostaria de desejar muita paz de espirito, que Deus ilumine a vida de voces e não se enganem, dinheiro fácil só ganhando na loteria. As drogas só servem para destruir as vidas das pessoas, percebam que não é só as mulas que são punidadas, suas filhas, mães, amigos, enfim todos em sua volta sofrem também. Pensem e reflita. Acredite em Deus que com certeza ele vai te mostrar o caminho correto.

Daniel Barbosa

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22/09/2009
14:48

É preciso que a população fique ciente que esta droga não se destinava ao consumo no nosso país. Portando seria melhor se a Polícia Fedral procurasse acompanhar as mulas até os paises destinatários (entrega controlada) e lá, juntamente com as autoridade daqueles Estados, prendesse os verdadeiros traficante, evitando que o Brasil ficasse no prejuízo, tendo que manter vários estrangeiros no nosso já combalido sistema prisional. Paulo

Paulo

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22/09/2009
11:39

fica a lição para quém quer aceitar este tipo de coisa,ao passar pela nossa terrinha e pego.muito obrigado a policia federal continue este bom trabalho.e muita luz p/ estas mulheres que vive longe de suas famílias.

silva

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