Opinião
EDITORIAL
Sinfonia excepcional
Na verdade, é observando esses dois seres extraordinários (Hawking e Aleijadinho), que a sociedade e o indivíduo em particular recebem a mais cabal demonstração da capacidade insofreável do homem para contornar obstáculos e vencer desafios, por mais aparentemente intransponíveis que estes se apresentem
21 Set 2006 - 02h55min
Dá para negar que a humanidade seria bem menos sábia, sem as intuições geniais do físico inglês Stephen Hawking, ocupante da cadeira de Isaac Newton como professor de Matemática na Universidade de Cambridge, responsável por contribuições fundamentais ao estudo dos buracos negros, as relações de cumplicidade entre as teorias da relatividade e a mecânica quântica, ou o avanço na simbiose entre o orgânico e a máquina? Ou que o mundo seria bem menos belo, sem o exuberante barroco das igrejas, pinturas e esculturas de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho? Pois bem: é neles, sobretudo, que se deve pensar neste Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência. Categoria que ambos integram.
Ambos exemplos falam por si sós da falácia de se considerar que a deficiência física seja uma sentença condenatória para a criatividade, a engenhosidade, a competência e a dignidade de qualquer ser humano por ela afetado. Sim, seria equívoco desmedido pensar o contrário. Na verdade, é observando esses dois seres extraordinários (Hawking e Aleijadinho) que a sociedade e o indivíduo em particular recebem a mais cabal demonstração da capacidade insofreável do homem para contornar obstáculos e vencer desafios, por mais aparentemente intransponíveis que estes se apresentem.
Foi por perceberem essa realidade que compartilhantes do mesmo infortúnio deram a volta por cima e hoje mobilizam companheiros a se lançarem à luta pelo esclarecimento da sociedade a esse respeito. Ao fazê-lo, não apenas dão uma demonstração do próprio valor, mas prestam um serviço inestimável à humanização do mundo, pois transmitem um sentido mais agudo do humano. Com isso, contaminam beneficamente quem - mesmo não sofrendo nenhuma deficiência física - por vezes, a traz interiormente na alma, deixando-se manietar pelo preconceito e pela falta de abertura ao outro. Nesse caso, bem poderiam mirar-se no exemplo de pessoas luminosas que se entregaram à tarefa de tornar menos árdua a vida dos portadores de deficiência. Uma delas não está mais presente, aqui, este ano, como sempre o havia feito neste dia de comemorações: Eunice Barroso Damasceno (falecida há pouco), pioneira e fundadora do Instituto Pestalozi e da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais. Sua voz, no entanto, ecoará na consciência de todos aqueles aos quais ela concitava ao amor e à solidariedade.
Ser fiel à sua memória, é continuar a luta pela comunidade inclusiva - aquela que adapta suas estruturas e procedimentos para facilitar a integração das pessoas com deficiência, em lugar de esperar que sejam estas a se adequarem ao mundo ''normal´´. Isso significa reforçar seu direito de receberem um tratamento que lhes permita o exercício igualitário da cidadania. Ou seja: a remoção de todo tipo de barreiras que lhes sirvam de empecilho à própria realização como pessoas, a começar pelas físicas, possibilitando-lhes a oportunidade de por em prática suas aptidões em todos os campos da atividade humana - no conhecimento, nas artes, no trabalho. Para começar, acesso aos edifícios e transporte coletivo e livre locomoção pelas calçadas, o que quer dizer rampas e ônibus adaptados.
Mais do que isso: os deficientes devem tomar assento nos órgãos de deliberação sobre os espaços públicos para darem sempre sua palavra sobre a forma de dispô-los. Do mesmo modo, devem ser ouvidos nas políticas públicas destinadas à comunidade, pois os problemas sociais que recaem sobre essa camada (somam 1,2 milhão somente no Ceará) são duplicados, seja por ter a maior incidência de pobreza, seja por registrar as maiores taxas de desemprego. Por isso, reivindicações como o Passe Livre não podem ser esquecidas pelas autoridades públicas, pois o ir e vir é a condição mínima para alcançarem o resto. Enfim, é preciso ouvir as reivindicações dos deficientes, pois eles sabem onde aperta o sapato.
Ao fazer isso, com toda certeza, o governo do Estado e as prefeituras municipais darão uma demonstração inequívoca de sintonia com as aspirações mais nobres da nossa sociedade, ao mesmo tempo em que se adeqüam às Metas do Milênio, cujos objetivos guardam alguma relação com os deficientes, sendo que três concernem especialmente às pessoas com deficiência e suas famílias: erradicar a pobreza extrema e a fome; obter o ensino fundamental universal; promover a igualdade entre os gêneros e a autonomia da mulher. Quem lhes pode negar isso?
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