Opinião
ARTIGO
Economia Solidária
Lidar com o imediato, para fazer face às situações particulares, é o que lhes importa. Que seja! Mas, assim procedendo, não se dão conta de que estão trabalhando para fortalecer a moral burguesa
Francisco Teixeira
30 Jun 2007 - 02h12min
A economia solidária tem história. Vem de longe, desde os tempos em que os socialistas utópicos acreditavam que poderiam construir uma comunidade de produtores associados em oficinas e fábricas, cooperando como consumidores e administradores de suas próprias atividades. Julgavam que assim poderiam combater a sociedade capitalista, construindo dentro dela uma forma diferente de sociabilidade. Não foram muito longe. Sem tomar o poder político, será inexeqüível construir uma sociedade dentro da sociedade, como assim argumentava Marx, em 1864.
A classe trabalhadora não tomou o poder político. Mesmo assim, com a construção do estado social, conseguiu importantes vitórias: seguro-desemprego, previdência social, férias remuneradas, educação e saúde públicas, entre outros direitos sociais e trabalhistas.
Infelizmente, todas essas conquistas estão indo por água abaixo. Com o advento da globalização, o estado nacional entra em concorrência com o mundo inteiro; não pode, por isso, cobrar mais impostos do que seus concorrentes. Como não é possível desterritorializar sua base fiscal, é forçado a cortar seus gastos, submetendo-se, assim, aos imperativos da lógica do mercado.
É quando, então, os militantes de esquerda, decepcionados com a política, decretam a sua morte, ao fazer da urgência o principio motor de suas ações. Abraçam a militância do humanitarismo, pois nela reencontram o sentimento de pertencimento, de comunidade, uma vez que o Estado é uma instituição muito distante da vida imediata das pessoas. Seus dirigentes burocratas não têm coração. Por isso, os ex-militantes políticos criaram suas Organizações Não-Governamentais, Redes Solidárias, Institutos, Fundações e outras instituições do gênero; todas penduradas "nas tetas" do Estado, pois só assim conseguem pagar os seus funcionários. Uma verdadeira legião de cidadãos de boa vontade, que sabem como convencer os pobres de que eles podem se organizar em mutirões para construir suas casas. Afinal, o Estado precisa economizar para pagar seus pobres credores. Ah, se não tem comida na mesa, não há porque passar fome. A cidade está cheia de terrenos baldios. É mais fácil e de resultado mais imediato do que a reforma agrária. Se muitos querem se tornar empreendedores, os bancos dispõem de créditos populares, financiados a taxas insignificantes de 2% ao mês. Um negócio da China! Para os tomadores de empréstimos, ou para os bancos? Basta fazer as contas: 2% ao mês rendem ao ano 26,80%. Um lucro e tanto, considerando-se uma inflação anual menor do que 6%.
Quando secam os oásis utópicos, o pragmatismo fala mais alto. Melhor do que censurar, é salvar uma vida humana, diriam os militantes humanitaristas. Lidar com o imediato, para fazer face às situações particulares, é o que lhes importa. Que seja! Mas, assim procedendo, não se dão conta de que estão trabalhando para fortalecer a moral burguesa, que faz do egoísmo o caminho do sucesso.
Francisco Teixeira é Professor de Economia Política da Uece e da Unifor
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