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Opinião

ARTIGO

Não se cobre do Ronda

Paulo de Tarso Riccordi
16 Jul 2008 - 00h35min

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Não surpreendem os dados de aumento de roubos, furtos, lesões corporais simultaneamente ao aumento de prisões e de apreensões de armas, no balanço dos seis meses da Ronda do Quarteirão (O Povo, 25/6/08, p. 9). É que na discussão sobre segurança pública freqüentemente juntam causas e efeitos que não têm correlação entre si, como é o caso aqui. São poucos os exemplos em que o aumento da força policial resultou em redução sustentável da violência e da criminalidade. É possível fazê-lo por algum tempo, mas não indeterminadamente somente com o emprego de polícia.

Portanto, não é justo para com a polícia cobrar dela responsabilidades que não são suas, soluções que não estão ao seu alcance. O central dessa discussão é que o modelo exclusivamente policial não dá conta da violência. Aliás, violência não é caso só para a polícia. Violência é para o conjunto das políticas governamentais e ação da sociedade e da família.

Violência não tem a ver apenas com "bandido", com assalto. A maior parte da violência e do crime é produzida fora dessa esfera. São os meninos "de boa família" que espanca outro na balada, é o pai/padrastro que abusa sexualmente da filha/enteada, é o médico que consome cocaína, o "jovem legal" que compra relógios de marca na mão de interceptadores de roubos, o "bom homem" que compra armas com número de série raspado para sua defesa pessoal, o "gente boa" que briga e fere o vizinho numa conversa sobre futebol, o "homem de bem" que bebe e dirige seu carro produzindo morte nas ruas. Os principais autores de violência e morte não são os bandidos. São, ao contrário, as "pessoas de bem". Bandido mata pouco, mata menos que as "pessoas normais". O absurdo é que as cobranças da sociedade e o grosso dos investimentos sejam dirigidos principalmente à atenção ao bandido.

Dos fatores que predispõem e desencadeiam a violência, a maioria está fora da governabilidade policial. Polícia trata de crime. Sem corrigirmos os fatores geradores, não adianta aumentar indefinidamente nem a quantidade nem a qualidade dos policiais. O problema não está na força policial, mas sim na produção irrefreável das condições sociais, familiares, econômicas, culturais que criam e desenvolvem agressão e morte em casa e "na rua".

Desagregação e violência familiar, falta de projeto de vida, quebra de vínculos sociais, são fatores de vulnerabilidade comuns aos jovens infratores de qualquer classe social. Junte-se a isso as pequenas e grandes violências familiares e sociais incorporadas e aceitas nesta comunidade, temos aí o caldo de cultura da violência inalcançável pela ação policial. Sem operar sobre a violência familiar e social, os novos veículos e os bons policiais continuarão a fazer uma diferença muito pequena, pois estão limitados aos crimes "oficiais" e aos bandidos "tradicionais", sem poder agir na matriz da violência e do crime.

Paulo de Tarso Riccordi - Cientista político, consultor em Segurança Pública
ptriccordi@uol.com.br

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