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Opinião

Artigo

Olho por olho e o mundo

Mara Carneiro
28 Fev 2009 - 01h31min

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Nos últimos anos, assistimos a três assassinatos de adolescentes que estavam sobre a custódia do Estado: o primeiro, em 2006, quando um adolescente de 16 anos foi morto com vários tiros no Centro de Triagem por homens encapuzados. No segundo caso, uma adolescente de 15 anos foi morta no mesmo Centro. Por último, o assassinato de um adolescente de 16 anos, depois de receber um tiro no abdômen de policiais no Centro Educacional São Francisco. Ao analisarmos esses casos, algumas perguntas permeiam nossos pensamentos: como homens encapuzados entram armados dentro de um Centro de Triagem sem serem contidos? Como duas adolescentes matam outra dentro do mesmo Centro e nenhum funcionário aparece para ver o que está acontecendo? Por que os Centros Educacionais, que deveriam ser um espaço de sociabilidade e educação, estão superlotados, com instalações físicas precárias e com insuficiência de profissionais? Como é possível socioeducar alguém em espaços onde reinam a discriminação, os maus-tratos, a tortura e a violência? Por que a Polícia atira no abdômen das pessoas para conter uma briga? Não existem outros procedimento policiais para situações como essa?

Esses casos nos mostram claramente a ineficácia do Estado na garantia de direitos de crianças e adolescentes e o descumprimento dos marcos legais brasileiros e internacionais. Vivemos em um período no qual valores como solidariedade e companheirismo são substituídos pelo consumismo e individualismo. Projetos e políticas estruturais, capazes de incidir nas raízes do problema, são desconsiderados. Tem se tentado resolver com mais violência o que não se tem investido em educação, saúde, cultura e esporte. O resultado dessa combinação perversa é o aumento do número crimes, sejam eles praticados ou não por adolescentes. Somando-se a isso, a falta de pessoal especializado e de procedimentos técnicos adequados contribuem para que ocorram casos desastrosos como esses.

No último dia 17, aconteceu um ato público em protesto contra o assassinato de adolescentes, conforme notícia do O POVO (18/2). Manifestações como esta são importantes para chamar o Poder Público ao cumprimento do seu papel e também para dizer que a sociedade não está de acordo com essa política de extermínio da juventude que tem se implementado no Ceará.

Dessa forma, é preciso pensarmos que projeto de sociedade queremos. Queremos lutar por uma sociedade mais justa, que não gere práticas violentas, ou enfrentar a violência sofrida com mais violência? Se escolhermos a segunda opção, estamos declarando a incapacidade de resolver os problemas que nós mesmos criamos, nos entregando ao imediatismo e resolvendo “à bala” o que já não conseguimos resolver racionalmente. Como diria Gandhi, se continuarmos no “olho por olho”, o mundo terminará cego.

MARA CARNEIRO
Assessora comunitária do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará (Cedeca)

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