Política
MOEDA DE TROCA
Câmara vira balcão de venda de votos
Com a proximidade das eleições municipais, instala-se um grande movimento de pessoas dispostas a vender o voto em troca de dinheiro ou benefícios na Câmara de Fortaleza. Os vereadores afirmam que a iniciativa é comum, mas dizem ser contra esse tipo de cultura política
Ítalo Coriolano
Especial para O POVO
20 Ago 2008 - 00h59min
Próximo à entrada que dá acesso a um dos corredores onde se concentram os gabinetes dos vereadores, a desempregada Maria Elda esperava pelo vereador Alri Nogueira (PSDB). Ela aparentava nervosismo, mas não escondeu o motivo que a levou até lá: uma conta atrasada de energia elétrica no valor de R$ 28. Preocupada em ter o fornecimento de energia cortado, Elda queria pedir ao vereador tucano que pagasse a conta. "Ele é sempre muito bom", afirmou. Questionada se venderia seu voto em troca do favor, a mulher não titubeou. "Quem me ajudar eu voto. E ainda arrumo o voto de um monte de gente", garantiu.
Em outro ponto da Câmara, a costureira Maria da Conceição procurava o vereador Carlos Mesquita (PMDB). Iria pedir um emprego para o filho, além de um advogado que a orientasse no caso de uma adoção. Conceição afirma que o vereador costuma ajudar bastante seus conhecidos, mas que nunca pediu nada em troca. "Ele não pede pra votar, é muito discreto. Mas, se ele pedir, é garantido o meu voto", declarou a costureira, que se considera cabo-eleitoral de Carlos Mesquita desde a época em que ele se lançou na carreira política.
Apoio político
Num corredor, o jornalista Jaime Caribé procurava pelo gabinete de Rogério Pinheiro (PSB). Iria tentar negociar o apoio do grupo político esquerdista que integra em troca de uma cota para o jornal Inverta, que ajuda a escrever. "Não temos estimativa de quantos votos conseguiríamos, mas temos um bom quadro para trabalhar na campanha", garantiu. Jaime também condicionou o apoio ao comprometimento de Rogério com a plataforma política do grupo.
Perto do plenário também ficam aqueles que esperam a saída dos vereadores para fazer seus pedidos. Foi o caso do mestre de obras Jarbas Norberto, que foi pela segunda vez à Câmara na esperança de conseguir um emprego. Assim que José Maria Pontes (PT) deixou o plenário, Norberto foi abordá-lo. Na volta, a decepção: "Ele negou, disse que era crime eleitoral", lamentou. Jarbas prometeu para si mesmo que nunca mais se deslocará até a Câmara em busca de vantagens. "Agora eu tenho é que arranjar dinheiro pra voltar pra casa", disse o mestre de obras, aborrecido.
Entre as pessoas que foram ontem ao legislativo municipal na tentativa de vender votos havia até artista. A cantora Luíza Marilaque estava em busca de algum vereador que patrocinasse o lançamento do seu CD. Como recompensa, não apenas o seu voto, mas parte dos votos de 1.300 famílias que ocupam uma comunidade no Vicente Pinzón, onde é presidente da associação de moradores Menino Jesus de Praga. "É gente que dá no meio da perna. Os votos são garantidos. São todos meus fãs", disse Luíza, sorridente.
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