Vida & Arte
LIVRO
O tempo não pára
Dez autoras da nova geração costuram fragmentos de vida, de ficção, poemas, contos e diários virtuais na coletânea Semana, organizada por uma delas, Natércia Pontes (do ótimo Az Mulerez.). O livro, bem moderno, fina estampa de Renan Costa Lima, será lançado hoje, no chique Ideal Clube, tão acadêmico. Tudo deliciosamente paradoxal... Feito estas meninas
Eleuda de Carvalho
da Redação
12 Fev 2007 - 23h28min
Tão moderno, o livro todo, e a singeleza delicada em contraponto da diagramação do Renan Costa Lima. As autoras, a maior parte, já nasceu nos anos 80, e trazem todas umas inquietudes pós-feministas tão presentes nesta era nova. Elas são a um só tempo suaves e raivosas; menininhas e madonas decadentes; imaginosas e bobas - é ainda o resquício de uma inocência que todo mundo tem, até uns 30 anos. Depois, descasca. A apresentação, pode-se dizer, é também um conto - ao modo daqueles que o leitor lerá, em seguida - e escrito por alguém quase da mesma geração das demais, mas mais tarimbada (lançou-se, com sucesso, no mar literário, em pandas velas, lá pela década de 90), Tércia Montenegro.
O bordado dela, parte desta Semana, com certeza: Qualquer dia desses. Escreve: "Eu estava ouvindo sapos e cigarras, à luz de um laptop". Porque é isto, o que a coletânea traz - um quê de cotidiano, da cidade periférica, tecendo uma trama que escapole ao banal, ao local, ao regional, que destoa a rima, o limite. Os textos, diz Tércia, adiante, são "labirintos e linguagens" pulsando na veia tensa destas outras dez jovens mulheres. Natércia, a organizadora, deve ter-lhes dado um fio de Ariadne, para que o labirinto se revelasse em espiral. Tinha que ver com o tempo, com a singularidade de cada uma, em forma livre - tanto que há contos, embriões deles, poemas, pedaços de diário, mais ou menos a mistura que se vê nos blogs. Acho que todas elas têm um. Aqui, ali, uma fragilidade. Um experimento fracassado. Como direi, adiante.
Semana vem por ordem alfabética de autoras e começa, portanto, com a ótima surpresa que nos traz Ana Carolina Bedê (1980). O título "Será que algum dia vira canção?", anuncia o clima lírico, quase, desta espécie de diário inusitado, onde as datas confundem. O que significarão? Que momentos, em anos, ou mês, estes minutos congelados - um relógio que se partiu, ampulheta de cristais de quartzo. Memória, mar, sonho. "Mergulhados nas lembranças, até o sol sair dos lençóis". Diana Melo (1982) assina "Na esquina lá da rua", este um conto bem acabado, sem dúvida, com certo sabor de infância na carreira desenfreada dos meninos, ladeira abaixo, engolindo o ar, até cairem exaustos, aquela horrível dor desviada.
O conto Cores da semana, de Elisângela Teixeira (1976), nos traz a alegria de um domingo azul e o drama de saber que "o preço do amadurecimento é a resignação". Na segunda, negra, ela nos oferece um jogo. Ou um outro poema, quase. Intransferível, pessoal: "Tudo o que tenho é/ tudo o que me falta.// Meu coração é pequeno". E, transmutando a folha do papel numa página virtual, mais abaixo, em letrinhas miúdas: "Já faz 461 emails que estou sem você". E vai, assim, a semana de Elizângela, com a oferenda de outro poema de tom pós-parnasiano, o da fivela vermelha, e mais um pensamento pesado. Na quarta incolor, o relógio quebrado, "cacos aumentativos" e a desilusão: "Quando era criança, pensei que iria entrar num mundo funcionando". Na sexta cinza, "um ano sem ti". "Detesto perder homens e canetas".
Sim, chegou a vez do trinco, do ruído, do cisco, nesta Semana tão redonda. A quebra está em Triz, de Luana Cavalcanti (1981), mas apenas em dois momentos, em que ela não se garante - a história de Maria do Carmo e a do menino sertanejo "não-tépido" no parque de diversões. Mas, aí, a frase que surpreende, e pega o leitor, outra vez, pelos cabelos. Porque "os dentes sorriam sonetos de alegria". E ainda há, em forma de enigmática cartinha, um pedaço de Caio Fernando Abreu, num envelope azul. O próximo, de entontecer, é A dor e o relato - a busca pela casa: cinco anos, de Mariana Marques (1982). "É dor, mas passa", feito o gosto estranho na boca, sabendo a seiva e a prego cravado. E há a paisagem de São Paulo, ao pôr do sol, e uma terra estrangeira, onde tem uma casinha para dois e na soleira da porta uma tulipa roubada.
Mirella Adriano também atende por outro nome, Carla Façanha, e nasceu em 1981 e é devota de São Jorge. Em Aurora, a minúcia de detalhes feito a alça da bolsa sobreposta e acima do ossinho do ombro, para não escorregar. Intertextualidades, memórias, na terceira margem entre o passado e o futuro. "Hoje sou ilha". E um diálogo em quatro linhas. Para fazer pensar. "-Tu vai?/ - Não./ - Eu te conheci outra./ - Eu me conheci várias". Bem, Amor em dois é o conto de Natércia Pontes (1980), e esta garota sempre surpreende. O domínio que ela tem, com a palavra. O cru, de suas palavras. A dor escancarada. Dilacerando-se, com seus dentes de vampiro escovados com tanta delicadeza e graça. E o sol, entrando pela janela, todo dia, na mesma hora, "com a mesma pontualidade de um funcionário condecorado do mês, dependurado na parede engordurada do McDonald´s". Às vésperas do aniversário de 25 anos. "Eu queria, só por hoje, Deus todo poderoso, criador do céu e da terra, minha mãe para mim, em carne e osso".
Outro texto interessantíssimo, este Bom ar, de Syrlanney, que nasceu em Morada Nova, no ano de 1984. Kafka, baratas e o namorado da vizinha emprestado. O ex, um pato, chegando no carro de pobre. Com seu convite de casamento e o despeito, dela. "O que sinto dentro de mim é um romance inteiro". A solidão no mundo e ódio aos gatos. Em seguida, Casa aberta, de Thaís Aragão (1977). Escreve bem demais, como já deu a ver, pelo jornal. Nas letras de música. No blog. Nas conversas informais. Uma cabecinha que não pára de bulir. "Com uma mínima chance, sacrilégio não viver", pondera. Imagens surreais. O senhor de óculos, as lentes feito duas gotas de mel e bolhas de sabão. Brasília, e o prédio dos ministérios peças de dominó ou gavetas de processos carimbados. "Paranóia é criatividade defensiva".
O derradeiro, Papel de rascunho. De Virna Teixeira, nascida em Fortaleza, em 1971. Poeta e neurologista, mora em São Paulo. Tem três livros publicados. Em algum lugar, em trânsito. Dromedários na janela e elefantes no acostamento. Textos telegráficos e o poema traduzido, de Alejandra Pizarnik. Tanta gente boa de quem nunca se ouviu falar, não é verdade? As duas Fridas na parede, sangrando, e Kaváfis na estante, Pound na cabeceira. Faz frio de gripe. Concluo voltando a Tércia Montenegro, arrematando tudo: "Semana ilude o desatento ao propor uma junção com base no feminino e na herança virtual. Na verdade, o grande mérito deste livro é a multiplicidade - reflexo da própria natureza, que nunca repete um dia nem escorre a mesma água".
SERVIÇO
SEMANA - coletânea de contos reunindo dez novas autoras. Organização: Natércia Pontes. Projeto gráfico de Renan Costa Lima. Lançamento nesta terça, às 19h, no Ideal Clube (av. Monsenhor Tabosa, 1381 - Meireles).
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