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Vida & Arte

LANÇAMENTOS

De dentro do caos

A Edição do Caos estréia com três livros, o de crônicas Fortaleza Voadora, escrito por Pedro Salgueiro; Eu vou esquecer você em Paris, contos de Carmélia Aragão, e os aforismos de Fragma, do poeta Cândido Rolim. A partir das 19h, na Biblioteca de Artes Visuais Leonilson, do Dragão do Mar. Os três volumes estarão com preços promocionais, só hoje

Eleuda de Carvalho
da Redação

09 Mar 2007 - 01h23min

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PEDRO SALGUEIRO, Carmélia Aragão e Cândido Rolim: escritores/ FOTO BRUNO MACEDO
Para o seu bico, leitor, finos biscoitos. Três livros magrinhos por fora, vitaminados no conteúdo e que deixam por fim um gosto de quero mais. No cardápio inaugural da Edição do Caos, tem as crônicas de Fortaleza Voadora, do contista Pedro Salgueiro; o volume de contos Eu vou esquecer você em Paris, estréia solo de Carmélia Aragão; e os aforismos de Fragma, do poeta Cândido Rolim. Os três lançamentos foram premiados, ano passado, pelos editais de incentivo às artes, da Secult e Funcet. A ousadia editorial, à frente Pedro Salgueiro e Jorge Pieiro, veio a propósito dos dez anos de lançamento do Almanaque de Contos Cearenses, origem da revista literária Caos Portátil. Em 1997, lembra Salgueiro, a coletânea reuniu contistas de várias gerações, inclusive os então estreantes Tércia Montenegreo, Dimas Carvalho, Napoleão Souza Jr., Astolfo Lima Sandy, os editores, Salgueiro e Pieiro, mais a nata do conto da terrinha: Moreira Campos, Nilto Maciel, Caio Porfírio Carneiro, Natércia Campos, Alano Freitas, Audifax Rios. Dois mil exemplares "esgotadíssimos", lembra Pedro Salgueiro.

O novo selo editorial apronta mais três lançamentos até o meio do ano. No prelo, livros de Jorge Pieiro, Joan Edison e do poeta Luciano Bonfim. Já a revista Caos Portátil - um almanaque de contos vai para o quarto número, a ser lançado em abril. Além dos mil exemplares na forma convencional, os editores pensam para logo numa versão on line. De uma maneira ou de outra, a idéia subjacente estava lá naquela primeira edição: agregar, a palavra de ordem. Ou, segundo Salgueiro, uma preocupação com o coletivo. "O Ceará tem uma tradição de trabalhos em grupo, desde a Padaria Espiritual, o grupo Clã, a revista O Saco, o pessoal do Siriará... É um trabalho de garimpagem, um vai apresentando outro, a gente lê blogs, vai a lançamentos".

Os três livros têm projeto gráfico de Geraldo Jesuíno. O de Pedro, traz a "orelha" por Tércia Montenegro e apresentação de Ana Miranda, que bem capturou a dubiedade do título, Fortaleza Voadora - o bombardeiro americano do tempo da Segunda Guerra (sobrevoando a Praça do Ferreira, no postal que ilustra a capa) e o sentido de voador, tão nosso: avoado, meio bobo, otário. As crônicas, espirituosas odes de ódio e amor à cidade. O livro de Carmélia Aragão tem na capa borboletas sobre um mapa urbano, assinada pelo também poeta Raymundo Netto, "orelha" de Pedro Salgueiro e prefácio por Dimas Carvalho. Os contos de Eu vou esquecer você em Paris são de uma escritora prontinha da silva, aos 20 e poucos anos. Os temas de suas histórias são sugeridos pela vida, prosaica, ela diz. Escreve "à moda antiga", a mão, e para "transformar o cotidiano". E ouvindo música, sempre. "Pra não ouvir as pessoas me chamarem".

Cândido Rolim, poeta viajante - nasceu em Várzea Alegre, viveu em Minas, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul - diz, ele mesmo, sobre Fragma: "É filosofia barata, no sentido de indisciplina escolástica e vôo anti-paradigmático, e também por não pretender pôr um tijolo a mais na construção dos conceitos". Publicou Exemplos Alados, há dez anos, e Pedra Habitada, em 2002. Ao contrário dos outros dois volumes, Fragma dispensou as "orelhas" e traz somente um estudo introdutório assinado por Ronald Augusto. Aforismos, diz o autor, do que escreveu. Podem ser lidos como poemas em estado bruto. Seixos no meio do caminho, nada de letras maiúsculas. "desconfiar das escolhas do olho", recomenda um aforismo. Outro, lírico e duro: "impermeável. e a gota não chega completamente ao chão". Poema-piada: "entes velozes. mal entram no caixão e estão à direita de deus". Um rumo: "a cada passo, inauguro". É isso.


ENTREVISTA CRUZADA

Carmélia Aragão - Pedro, como contista na lista do vestibular da UFC (Dos valores dos inimigos), você viu seus contos sendo analisados por estudantes e professores. O que você soube sobre seus contos que não sabia, pois muitas coisas escapam aos olhos do escritor e não se sabe como chegam aos leitores?

Pedro Salgueiro - Sempre tem interpretações que nunca cheguei a imaginar, principalmente tratando-se de leitores tão jovens. Algumas, bem pertinentes, coisas que nunca tinha imaginado e depois vi que tinham tudo a ver. Já outras, verdadeiras viagens... Mas em geral foi bem proveitoso este diálogo, especialmente com estudantes secundaristas, através de palestras, e-mails e blogs.

Carmélia Aragão - Cândido, você é poeta. Como surgiu a idéia de publicar um livro de aforismos? Existe alguma proximidade entre os dois gêneros?

Cândido Rolim - Do ponto de vista da síntese verbal, sim. Até porque a poesia é uma linguagem altamente condensada. Por uma redução forçada, digamos, o aforismo está para a idéia assim como a poesia está para a literatura.

Pedro Salgueiro - Carmélia, como se sente estreando um gênero em que quase todo mundo que escreve é homem? Pra você, é mais difícil, desafiador ou...

Carmélia Aragão - Para a literatura não interessa se o autor é mulher ou homem e, com certeza, isso não garante a continuidade e resistência dessa produção. Acredito que o que vale realmente é a determinação do autor, a sua disciplina e, acima de tudo, a qualidade artística e estilística de seu texto. Em Fortaleza, tenho acompanhado de perto o trabalho de autoras como Tércia Montenegro, Vânia Vasconcelos, Maria Thereza Leite, Cleudene Aragão e outras, mas, mesmo assim, ainda acho pequena a presença de escritoras considerando o pequeno número delas em antologias de contos e poesia. No Eu Vou Esquecer Você em Paris, a maioria das personagens são mulheres, mas as situações pelas quais essas mulheres passam, como as de medo, angústia ou a solidão, não são características apenas femininas. Procuro dar esse tom universal, ao mesmo tempo em que o olhar feminino também é universal. Mas o certo é que escrever, seja em qual for a área, é sempre um desafio. Enfim, quando nós, leitores, lemos um bom livro, o sexo de seu autor é o que menos conta.

Pedro Salgueiro - Cândido, depois de vinte anos longe, o que você notou de diferente no debate literário em Fortaleza?

Cândido Rolim - Percebi, primeiro, cabeças novas, notadamente veiculando idéias novas e sem o complexo xenófobo que vislumbrei em certas épocas no Ceará. Os escritores novos mantêm um franco diálogo com o mundo, não apenas pela tecnologia mas por uma disposição própria deles, de não se sentir melhor nem pior do que ninguém. Gostei.

Cândido Rolim - Há um fundo memorioso no seu livro de crônicas. O que há de ficção nestas quase memórias de Fortaleza?

Pedro Salgueiro - Minha Fortaleza sempre foi muito cruel. A cidade, para mim, vindo do interior, nunca foi mãe, foi madrasta. Talvez por isso a veja de maneira tão crítica e amarga. Esta visão amarga às vezes faz parecer ficção. Na verdade, é um olhar visto de baixo. Sempre se quer ver a cidade bela e amada exaltada. O que parece ficção é apenas a realidade por baixo do tapete.

Cândido Rolim - Sempre se pergunta, aos autores estreantes, qual é a sua influência. Mas quero saber como é que você lida ou utiliza alguma ferramenta de ruptura com as linguagens precedentes? Tem algum ânimo de desafiar, voltando as costas à tradição?

Carmélia Aragão - Quebrar linguagens, radicalmente, só o Mozart! Mas sempre procurei a minha voz. Escrevia um texto e lia em voz alta, pra sentir o meu ritmo: sou eu. Procuro dizer 'estou aqui'. Eu me desenhei.


SERVIÇO
Lançamento triplo das Edições do Caos - Fortaleza Voadora (Pedro Salgueiro), Eu vou esquecer você em Paris (Carmélia Aragão) e Fragma (Cândido Rolim). Nesta sexta-feira, às 19 horas, na Biblioteca de Artes Visuais Leonilson, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (entrada pelo Museu de Arte Contemporânea - MAC). Inf.: 3488.8600 ou www.dragaodomar.org.br

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