Vida & Arte
REEDIÇÃO
Sem perder a graça
A editora Desiderata tira do baú um dos mais instigantes jornais alternativos brasileiros, o famoso O Pasquim. Sérgio Cabral, Millôr, Jaguar, Henfil e muitos outros bambas botaram pimenta malagueta no olho dos generais de plantão, na década de 70
Eleuda de Carvalho
da Redação
06 Jun 2007 - 01h43min
Um dos responsáveis pela "criatura", Sérgio Cabral (pai do atual governador do Rio, Sérgio Cabral Filho), falou, por telefone, sobre esta aventura feita de inteligência mordaz e irreverente graça. Nascido no subúrbio de Cascadura, o carioca Sérgio Cabral começou a vida nas redações há meio século, como repórter policial do Diário da Noite. Escreveu, entre outros, os livros As Escolas de Samba - o que, quem, onde, como, quando e porque (1974), Pixinguinha, Vida e Obra (1977), uma biografia de seu amigo Tom Jobim, publicada em 1997, além de outras sobre Nara Leão, Elisete Cardoso e Waldir Azevedo. Escreveu ainda sobre a escola de samba Mangueira, o time do Vasco da Gama e diversos volumes sobre MPB. Recentemente, doou seu acervo sobre música ao Museu da Imagem e do Som, do Rio.
"Quando O Pasquim começou a fazer sucesso, a gente era muito procurado por jornalistas de revistas de São Paulo - aquela mentalidade empresarial paulista... E eles nos perguntavam sobre o planejamento do jornal. Que planejamento? Era tudo por acaso", recorda, com fartura de riso. Sérgio Cabral revela o "segredo do sucesso" do Pasquim: "Um jornal feito por amigos e sem patrão. Todos pensavam diferente, mas éramos de oposição, e isso unia todo mundo. Outra coisa que nos unia era a cultura. Eu era do samba, execrado pela maioria. E, tirando a mim, tinha o talento das pessoas. E a liberdade total. Só havia censura externa".
O jornal nem tinha completado um ano e os fardados assanhados, vendo comunista em todo canto, botaram a mira na turma do Pasquim. "Passamos dois meses na cadeia, não recomendo a ninguém", diz Sérgio Cabral, sem perder o humor que fez a fama do jornal que teve a audácia de entrevistar a linda e desbocada Leila Diniz - em cada asterisco da entrevista da musa, escondia-se um cabeludo palavrão. Recordando as grades: o primeiro a ser detido, lembra Sérgio, foi o Ziraldo. "A polícia já sabia onde era a casa dele". Sérgio Cabral, que estava em Campos, soube por sua mulher, Magali, que ligou apreensiva. "O exército invadiu O Pasquim", disse ela. Nessa leva, foram detidos ele, Jaguar e o dramaturgo Flávio Rangel. "O Paulo Francis já estava preso. O Jaguar era o subeditor, eu o editor".
Foram presos também, recorda Sérgio, "Carlos Maciel, Fortuna, José Grossi - o rapaz da publicidade, uma injustiça, não tinha nada com isso... Quem mais? Acho que foram nove. Tarso de Castro foi o último. Passamos dois meses no quartel dos paraquedistas. O comandante era um cavalheiro. Disse pra gente, 'olhe, se vierem tirar vocês daqui, vocês berrem. A extrema direita está seqüestrando presos políticos para matar'. Quando teve o seqüestro do embaixador alemão, saiu no jornal que uma das exigências era trocar pela gente. Pensei, vou pra onde? Pra Argélia. Depois vou viver em Paris. De quê? O Ziraldo, o Jaguar, se viram com o desenho. E eu, que só sei escrever em português? Ficamos bolando nosso futuro na França, pensamos em abrir um restaurante, o Le Pasquim"... Pois é, o que dá pra chorar dá pra rir, não é verdade?
O Pasquim, de inesquecíveis entrevistas. Sérgio Cabral relembra uma das mais marcantes: com o mítico Madame Satã. "Ninguém sabia por onde ele andava, se vivo ou morto. Foi um personagem da minha infância. Todos os meninos tinham medo dele... No final, perguntei a ele, mas, afinal, você é mesmo homossexual? - Com muita honra, ele respondeu". Outra foi com o escritor e filólogo Antonio Houaiss, com um dos entrevistadores entupido de uísque: o poetinha Vinicius de Morais. "O Houaiss falando de explosão demográfica e o Vinicius dizendo, 'eu como minha empregada'. As entrevistas eram feitas no Pasquim, no Antonio´s... A da Leila Diniz foi no apê do Tarso de Castro. O porre era geral em qualquer lugar", diverte-se.
Mas, diz Sérgio Cabral, a redação era como "outra qualquer". Com reunião de pauta, o telecoteco das máquinas de escrever, o tempo curto. Tarso de Castro foi o primeiro editor, "uma figura muito engraçada, um caudilho gaúcho. Uma vez, fomos decidir uma pauta por votação. Éramos oito, ele perdeu por sete a um. Disse, 'então, empatou'...". A redação, eclética, tinha gente do Brasil todo, os mineirinhos, os paulistas. Até cabeça-chata andou por lá. Sérgio Cabral recorda: "O Mino! Dá um grande abraço nele, a última vez que o vi foi no Maranhão, faz bem 30 anos". Pergunto a ele sobre a "segunda dentição" do Pasquim, já nos anos 80. "Foi um jornal criado para enfrentar a ditadura. Quando ela acabou, a gente ficou meio sem saber o que fazer. O Jaguar manteve até o início dos anos 90, só Deus sabe como. Era por amor. Analisando friamente, foi um ciclo. Quando mostro a coleção para jovens estudantes, eles ficam impressionados. Nada envelheceu. Talvez, um pouco de um certo humor".
SERVIÇO
O PASQUIM - antologia em dois volumes (de 1969 a 1971, e de 1972 a 1973). Editora Desiderata. Volume 1: R$ 69,00; volume 2: R$ 74,90. Informações: www.editoradesiderata.com.br
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