Vida & Arte
BATE PAPO
Para entender Maysa
Em um bate-papo no Centro Cultural Banco do Nordeste, o jornalista e escritor cearense Lira Neto remonta a trajetória da cantora Maysa, personagem de seu mais novo livro
Amanda Queirós
da Redação
19 Jun 2007 - 01h33min
Lá para o meio de 2004, o jornalista e escritor cearense Lira Neto foi surpreendido por um telefonema do diretor de novelas Jayme Monjardim. "Você pode me pegar no aeroporto? Tenho algo para você", disse o artista. Das mãos dele, Lira recebeu um verdadeiro baú de tesouros. Em uma caixa estavam documentos coletados pela mãe de Monjardim, a cantora Maysa (1936-1977), imortalizada por interpretar como ninguém a fossa amorosa em canções como Meu Mundo Caiu. Eram 30 quilos de recortes de jornal e revista, anotações, letras de músicas e o principal: os diários íntimos mantidos pela artista dos 15 anos até a morte. Bem que se diga, o sonho de qualquer biógrafo.
Com isso, Lira Neto ganhou os ingredientes para um bolo saborosíssimo. Coube a ele sacar a receita e ir atrás dos temperos que faltavam. Dois anos, 100 mil documentos e 200 entrevistas depois, o escritor tirou do forno a sua mais recente criação: Maysa - Só numa multidão de amores (R$ 32, Ed. Globo) foi lançado em abril e já ocupa a lista dos dez livros mais vendidos do País.
O jornalista, que já foi ombudsman do O POVO e hoje mora em São Paulo, retorna hoje a Fortaleza para um bate-papo sobre a obra dentro do programa Literato, do Centro Cultural Banco do Nordeste. Às 19h, sob a mediação do também jornalista Roberto Maciel e com a participação do professor doutor Dilmar Miranda, do Curso de Filosofia da UFC, ele reconstitui o processo de montagem do quebra-cabeça da vida de Maysa.
O autor foi seduzido pela personagem enquanto ainda finalizava O inimigo do rei - Uma biografia de José de Alencar, lançado em 2006. Para ele, a história de altos e baixos de um dos ícones da música popular brasileira, encerrada tragicamente há 30 anos em um acidente de automóvel, pedia para ser contada. Foi em uma conversa informal com Fernando Morais (autor das biografias Chatô e Na Toca dos Leões) que ele revelou o desejo de transformar a cantora em livro. A rede de contatos do consagrado escritor o levou a Monjardim, responsável pela adaptação de Olga, uma das principais obras do biógrafo, para o cinema. A mediação acabou permitindo a Lira total acesso às confidências mais íntimas da cantora.
Maysa sempre foi muito falada. Esteve na mídia o tempo inteiro e constantemente na boca de quem fazia questão de apontar os desatinos da moça moderninha que casou aos 17 com André Matarazzo, 18 anos mais velho e com uma fortuna nas costas, e, dois anos depois, saiu de casa para conquistar o sucesso e o País em meio a uma vida que misturou assédio, glamour, tentativas de suicídio, alcoolismo, problemas amorosos e depressão.
O grande trunfo da obra de Lira Neto está exatamente em cruzar as diferentes versões dessa mesma história para estruturar um retrato sincero da personagem. Segundo o autor, o fato da biografia ter sido autorizada não o cerceou de colocar ali também os episódios menos gloriosos da artista. "Eu sabia que isso ia aflorar determinadas feridas, mas sabia também que um livro sobre ela tinha que ser escrito com a mesma transparência, o mesmo amor à liberdade com que ela viveu a vida inteira. Um livro fiel à ela nunca poderia ser uma coisa mais amena. Maysa não era isso", pontua o escritor.
E onde está o limite ético para o uso de confidências íntimas em um trabalho biográfico? "Acho que o limite é a verdade. Maysa tinha consciência do seu papel histórico dentro da MPB. Qualquer dilema ou pudor que eu porventura tivesse caiu por terra quando ouvi uma das últimas grandes entrevistas na qual ela cita os diários e diz: 'Um dia eu ainda queria ver tudo isso publicado. Queria que as pessoas conhecessem essa história'. A existência de um personagem público é construída dentro do ambiente público. Isso faz parte da História e o povo que ajudou a construir essa história tem o direito de saber disso", conta.
Com esse princípio, o jornalista desenvolve uma narrativa deliciosa, recheada de detalhes, mas que não se presta a fazer julgamentos. Ao delinear a trajetória da cantora, a obra também pincela um retrato de Brasil, revelando não só costumes dos anos vividos pela cantora, mas, principalmente, o porquê do fascínio provocado por aquele par de olhos verdes. Afinal, não era qualquer mulher que, àquela época, tinha coragem de cantar "só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo que creio". Maysa tinha. O público adorava. A contar pela lista de livros mais vendidos, ele continua adorando.
SERVIÇO
O programa Literato recebe o escritor e jornalista Lira Neto - Hoje, às 19h, no cineteatro do Centro Cultural Banco do Nordeste (R. Floriano Peixoto, 941 - 2º andar - Centro). Grátis. Informações: 3464.3108.
LEIA A ENTREVISTA COMPLETA COM LIRA NETO E TRECHOS DO LIVRO NO PORTAL WWW.OPOVO.COM.BR/CONTEUDOEXTRA
Com isso, Lira Neto ganhou os ingredientes para um bolo saborosíssimo. Coube a ele sacar a receita e ir atrás dos temperos que faltavam. Dois anos, 100 mil documentos e 200 entrevistas depois, o escritor tirou do forno a sua mais recente criação: Maysa - Só numa multidão de amores (R$ 32, Ed. Globo) foi lançado em abril e já ocupa a lista dos dez livros mais vendidos do País.
O jornalista, que já foi ombudsman do O POVO e hoje mora em São Paulo, retorna hoje a Fortaleza para um bate-papo sobre a obra dentro do programa Literato, do Centro Cultural Banco do Nordeste. Às 19h, sob a mediação do também jornalista Roberto Maciel e com a participação do professor doutor Dilmar Miranda, do Curso de Filosofia da UFC, ele reconstitui o processo de montagem do quebra-cabeça da vida de Maysa.
O autor foi seduzido pela personagem enquanto ainda finalizava O inimigo do rei - Uma biografia de José de Alencar, lançado em 2006. Para ele, a história de altos e baixos de um dos ícones da música popular brasileira, encerrada tragicamente há 30 anos em um acidente de automóvel, pedia para ser contada. Foi em uma conversa informal com Fernando Morais (autor das biografias Chatô e Na Toca dos Leões) que ele revelou o desejo de transformar a cantora em livro. A rede de contatos do consagrado escritor o levou a Monjardim, responsável pela adaptação de Olga, uma das principais obras do biógrafo, para o cinema. A mediação acabou permitindo a Lira total acesso às confidências mais íntimas da cantora.
Maysa sempre foi muito falada. Esteve na mídia o tempo inteiro e constantemente na boca de quem fazia questão de apontar os desatinos da moça moderninha que casou aos 17 com André Matarazzo, 18 anos mais velho e com uma fortuna nas costas, e, dois anos depois, saiu de casa para conquistar o sucesso e o País em meio a uma vida que misturou assédio, glamour, tentativas de suicídio, alcoolismo, problemas amorosos e depressão.
O grande trunfo da obra de Lira Neto está exatamente em cruzar as diferentes versões dessa mesma história para estruturar um retrato sincero da personagem. Segundo o autor, o fato da biografia ter sido autorizada não o cerceou de colocar ali também os episódios menos gloriosos da artista. "Eu sabia que isso ia aflorar determinadas feridas, mas sabia também que um livro sobre ela tinha que ser escrito com a mesma transparência, o mesmo amor à liberdade com que ela viveu a vida inteira. Um livro fiel à ela nunca poderia ser uma coisa mais amena. Maysa não era isso", pontua o escritor.
E onde está o limite ético para o uso de confidências íntimas em um trabalho biográfico? "Acho que o limite é a verdade. Maysa tinha consciência do seu papel histórico dentro da MPB. Qualquer dilema ou pudor que eu porventura tivesse caiu por terra quando ouvi uma das últimas grandes entrevistas na qual ela cita os diários e diz: 'Um dia eu ainda queria ver tudo isso publicado. Queria que as pessoas conhecessem essa história'. A existência de um personagem público é construída dentro do ambiente público. Isso faz parte da História e o povo que ajudou a construir essa história tem o direito de saber disso", conta.
Com esse princípio, o jornalista desenvolve uma narrativa deliciosa, recheada de detalhes, mas que não se presta a fazer julgamentos. Ao delinear a trajetória da cantora, a obra também pincela um retrato de Brasil, revelando não só costumes dos anos vividos pela cantora, mas, principalmente, o porquê do fascínio provocado por aquele par de olhos verdes. Afinal, não era qualquer mulher que, àquela época, tinha coragem de cantar "só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo que creio". Maysa tinha. O público adorava. A contar pela lista de livros mais vendidos, ele continua adorando.
SERVIÇO
O programa Literato recebe o escritor e jornalista Lira Neto - Hoje, às 19h, no cineteatro do Centro Cultural Banco do Nordeste (R. Floriano Peixoto, 941 - 2º andar - Centro). Grátis. Informações: 3464.3108.
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