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Vida & Arte

ENTREVISTA

O preço do sucesso

Em 1989, o médico Lair Ribeiro decidiu tratar de gente por meio de palavras. Com quase 30 livros publicados, ele consolidou seu nome como um dos gurus da auto-ajuda no Brasil

Amanda Queirós
da Redação

30 Jun 2007 - 16h18min

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Lair Ribeiro, médico, já escreveu cerca de 30 livros de auto-ajuda (Foto: Eduardo Almeida 23/8/2004)
O nome dele virou figura fácil na lista de livros mais vendidos durante a década de 90. Volta e meia, é possível vê-lo novamente no ranking com um novo lançamento. Versátil, ele já aconselhou desde quem desejou passar no vestibular àqueles que pretendiam emagrecer comendo, além de casais em crise e pessoas em busca do sucesso profissional e do enriquecimento financeiro. Em 1989, o médico mineiro Lair Ribeiro deixou os consultórios para cuidar de gente de uma outra maneira. Da carreira de cardiologista, ele guarda apenas o título de doutor. Com palestras, cursos e livros, ele iniciou uma das mais bem-sucedidas trajetórias entre os chamados gurus da auto-ajuda brasileira, tornando-se referência na área.

A primeira obra dele foi O Sucesso Não Ocorre por Acaso, lançada em 1992. No texto, ele aponta que as pessoas devem se voltar para si mesmas para conquistarem o que realmente desejam e, assim, serem mais felizes. O título congelou em primeiro lugar de vendas durante 55 semanas e passou ainda três anos e meio oscilando entre as outras nove posições da lista. Segundo a Editora Leitura, responsável pela publicação da obra, já foram vendidos 1,700 milhão de exemplares dela no Brasil e nos outros 35 países para os quais foi traduzida. Sem dúvida, um fenômeno editorial. Com isso, Lair ganhou munição para publicar ainda mais livros, alcançando leitores nos mais diversos segmentos.

Hoje, ele tem quase 30 obras publicadas, entre livros infantis e os chamados livros-presente. Extrapolando a palavra escrita, ele se tornou multimídia e já lançou dez CDs, entre cursos a serem seguidos no computador e reflexões para serem ouvidas, além de seis VCDs e DVDs expondo suas idéias. Por R$ 12 mil, ele também ministra cursos e palestras ao gosto do freguês. Tem pra todo mundo: workshops de treinamento, corporativos e de "interesse geral", como aponta o site. Mesmo passado o momento de explosão de seu nome, Lair Ribeiro conseguiu se consolidar e manter a agenda sempre repleta de compromissos. Entre uma viagem e outra, ele respondeu as perguntas do Vida & Arte Cultura por e-mail. Na entrevista a seguir, ele expõe seu próprio entendimento do termo "auto-ajuda" e apresenta uma reflexão sobre o seu trabalho e seus leitores.


O POVO - Quando o senhor percebeu que poderia ajudar pessoas por meio de livros?
Lair Ribeiro - Quando, em 1989, após participar como palestrante no Congresso Sul-americano de Cardiologia no Rio de Janeiro, montei meu primeiro curso sobre o tema e, dada a enorme repercussão positiva, inspirei-me a escrever O Sucesso Não Ocorre por Acaso.

OP - Por que o senhor rechaça o termo "auto-ajuda"? Que tipo de literatura esse termo caracteriza para o senhor?
Ribeiro - Eu não rechaço esse termo. Se você consegue realizar alguma coisa boa para você a partir da orientação prestada em um livro, você está se auto-ajudando e, conseqüentemente, o livro que serviu a essa finalidade é um livro de auto-ajuda. Então, se você compra um livro de artesanato que ensina a fazer bonecos de pano, segue as orientações e começa a fazer isso profissionalmente e a ganhar dinheiro com sua produção de bonecos de pano, o livro de artesanato foi mais que isso na sua vida, não é verdade? A questão é que os livros classificados como "auto-ajuda" são, na verdade, livros de desenvolvimento pessoal, que podem ou não ajudar uma pessoa a ajudar-se a si mesma. Na verdade, o leitor é quem decide se um livro será ou não de auto-ajuda. Mas a classificação existe e, apesar de nem todos a enxergarem com bons olhos, não me importo com ela. O leitor não tem de se preocupar se o livro é ou não é de auto-ajuda. Ele tem de saber quem é o autor, quem é o profissional por traz do trabalho dito de auto-ajuda. Quando o profissional tem formação adequada e está imbuído do propósito de transmitir seriamente seus conhecimentos, ele pratica o jogo do ganha-ganha com o leitor, em que os benefícios são bilaterais.

OP - O senhor afirma que os seus livros são obras de autoconhecimento. Quem são os seus leitores?
Ribeiro - Sim, todo o meu trabalho tem por objetivo conduzir pessoas ao autoconhecimento, pois só assim elas poderão viver melhor consigo mesmas e com as outras pessoas. Meus leitores são as mesmas pessoas que participam de minhas palestras e workshops. Posso lhe assegurar que, entre cidadãos comuns, como profissionais liberais, estudantes, pais e mães de família, há também muita gente do governo e dos meios político, empresarial e esportivo, assim como do mundo pop. Muitas pessoas desenvolveram trabalhos comigo e utilizam com sucesso muitas das ferramentas adquiridas em meus cursos e livros, mas não me sinto à vontade para revelar nomes. Como médico que se obriga ao sigilo pelo juramento de Hipócrates, sinto-me na obrigação de manter essa mesma postura em relação às pessoas que me procuraram e procuram.

OP - O que significa sucesso para o senhor?
Ribeiro - Ser capaz de transformar as pessoas de uma forma alegre e poderosa, com amor e sabedoria. Para cada um o conceito de sucesso é diferente.

OP - Por que se vendem tantos livros dessa categoria se as idéias contidas neles são tão parecidas e estimulam o indivíduo a encontrar a saída para os problemas em si mesmo?
Ribeiro - As idéias podem ser parecidas, mas não são as mesmas, pois a mesma coisa dita de outra maneira e filtrada pelo conhecimento e experiência de vida de pessoas diferentes pode assumir características distintas. Como eu disse, é preciso avaliar a história pregressa de quem está dizendo o quê para saber se a pessoa tem competência para fazê-lo. Porém, o que você quer saber mesmo é porque tais livros vendem tanto se o que eles ensinam está dentro de cada um de nós, não é mesmo? Então, vou lhe dizer que esses livros vendem tanto pelo mesmo motivo que tanta gente procura terapeutas e psicólogos: para ajudarem-nas a manifestar o melhor delas mesmas, o que, sozinhas, nem sempre conseguem fazer.

OP - Os livros substituem os psicólogos e psicoterapeutas?
Ribeiro - Depende de quem os utiliza. Não é possível afirmar que substitui nem que não substitui. Veja bem: eu não sou terapeuta, mas, entre as pessoas que lêem meus livros e participam de meus cursos, há inúmeros casos de solução de problemas que anos de terapia não estavam conseguindo solucionar. Os limites nessa área de desenvolvimento humano não são tão bem-definidos. O que é possível afirmar é que tanto terapeutas quanto livros e cursos fornecem ferramentas para que a pessoa, utilizando-as, possa modificar-se. Ir ao médico, pegar uma receita e comprar os remédios não cura nenhuma doença. É preciso usar a medicação prescrita.

OP - Ao recorrer a esses livros, o leitor não corre o risco de se isolar em si mesmo em vez de procurar ajuda no diálogo com outras pessoas próximas?
Ribeiro - Isso é muito pouco provável, pois, em geral, o pessoas que buscam ajuda de terapeutas ou outros meios para se auto-ajudarem, como livros, estão abertas a alguma forma de ajuda e tudo o que não querem é ficar voluntariamente isoladas do mundo. Livros, cursos e terapeutas dão, na verdade, o apoio que muita gente precisa para recuperar sua auto-estima e melhorar seu convívio social. Na verdade, o autoconhecimento dá à pessoa a possibilidade de escolha. Se quiser ficar mais consigo mesma, o que há de errado nisso? A vida social intensa é que pode ser um problema, uma fuga do contato consigo mesmo.

OP - O senhor já recebeu reclamações de leitores que seguiram os termos propostos no livros e não obtiveram o resultado esperado?
Ribeiro - Meu trabalho repercute de forma diferente em cada pessoa que trava contato com ele. As pessoas são diferentes, cada uma vê de um jeito, cada uma recebe a informação de uma maneira. De modo geral, a percepção do meu trabalho não é igual para todas as pessoas que travam contato com ele, o que é positivo. Mas, veja bem: não ofereço receita de bolo em meus livros, e mesmo bolos feitos com receitas podem ficar solados. A imensa maioria das pessoas que participa de meus cursos e que lê meus livros não o faz pela primeira vez. São pessoas que já fizeram outros de meus cursos e leram outros de meus livros, que já obtiveram resultados e que sabem que precisam de ainda mais estímulo para colocar em prática todo o seu potencial. Não tenho dúvida de que muita gente não consegue os resultados pretendidos. Eu também já tentei ganhar na megasena seguindo orientações de matemáticos famosos e não ganhei. Vou fazer o quê? Brigar com eles? Eu não ganhei, mas a técnica que eles ensinam é correta. A resposta é uma só: sinto muito!

OP - O que o leitor espera desse tipo de literatura?
Ribeiro - Ferramentas para extrair o melhor de si mesmo.

OP - O senhor tem alguma dica de leitura? Algum ambiente mais adequado para a leitura de seus livros?
Ribeiro - A única recomendação é que os meus livros devem ser lido mais de uma vez e que se não for implementado o que está sendo lido, o leitor está perdendo seu tempo.

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