Vida & Arte
ARTIGO
Véu e vazio: A máscara na obra de frida Kahlo
A psicanalista da universidade federal de Goiás, Renata Wirthmann, observa a personificação de Frida Kahlo em torno de um olhar enigmático, que chama a atenção de quem vê seus quadros
Renata Wirthmann G. Ferreira
Especial para O POVO
07 Jul 2007 - 14h49min
A artista plástica mexicana Frida Kahlo começou a pintar aos 19 anos enquanto se recuperava de um acidente de automóvel, em 17 de setembro de 1925, que a manteve na cama por quase um ano. Em sua cama, foram instalados vários espelhos e ela era, portanto, a imagem que mais conhecia e que mais pintava. Sobre sua escolha por auto-retratos, Frida dizia que "uma vez que meus temas sempre foram minhas sensações, meus estados de espírito e as reações profundas que a vida tem causado dentro de mim, muitas vezes materializei tudo isso em retratos de mim mesma, que eram a coisa mais sincera e real que eu podia fazer para expressar o que sentia a meu respeito e a respeito do que eu tinha dentro de mim".
Quando Frida pinta seu rosto ela o representa, ela se faz personagem. Tanto que, se percorrermos, em sua obra, as várias representações de seu rosto, veremos a construção, pouco a pouco, de uma máscara, a personificação de Frida em torno de algo que acompanha toda sua obra: o olhar. O olhar de Frida é um olhar enigmático, petrificado, que faz com que olhemos o quadro e sejamos olhados por ele, num tal jogo de espelhamento que, de certa forma, estejamos nós mesmos no quadro. A Frida que nos olha, fixamente, olha a ela própria, e nós, ao olharmos para o quadro, posicionamo-nos no lugar de quem se vê no espelho e pinta, no lugar de Frida.
Num auto-retrato, de 1948, Frida aparece somente com a face descoberta e todo o restante do quadro é preenchido por uma renda armada, enquanto lágrimas surgem no seu rosto - o que não altera seu olhar petrificado. A renda armada é uma moldura contornando o rosto de Frida, que parece flutuar na tela. É uma espécie de avesso de máscara em que a parte velada é tudo o que não é rosto. Esse avesso de máscara é tão máscara quanto a própria máscara, a parte que a renda não vela também não mostra. É o rosto de Frida numa rigidez tal que parece estar moldado.
É tão máscara quanto o quadro , uma denúncia de tudo isso. Ao olharmos para máscara imaginamos o que faz Frida por detrás da máscara. Talvez se desmascare. Talvez as lágrimas - saltando por cima da máscara, através do buraco localizado à altura dos olhos - sejam da própria Frida e talvez seus olhos não estejam mais petrificados e, para não correr o risco de tê-los visto, ela se protege com a máscara. Talvez... São possibilidades que existem por causa da máscara.
A máscara, assim como o véu, é algo que se localiza sempre entre o sujeito e o objeto. O véu tem sua importância, pois tende a realizar como imagem aquilo que ele vela. Ao olhar-se para o véu, não é o véu que interessa, e sim aquilo que o véu cobre, sempre parcialmente. Quando se olha nessa direção, o que é visto não é nem o véu nem o objeto por detrás do véu, porém uma outra coisa, coisa imaginada.
O psicanalista francês Jacques Lacan diz que "sobre o véu pinta-se a ausência", desse modo o véu torna-se tela ao pintar-se nele a ausência. Cada uma dessas imagens é vista, por um breve momento, como realidade para o sujeito o que faz com que essa tela, essa máscara, se torne mais preciosa para o homem que a própria realidade.
O véu vela a ausência e pode ser, ele mesmo, o lugar dessa ausência. Ou melhor, lugar do desejo, lugar em que pode estampar essa imagem capturada do desejo que sempre busca reconhecimento sejam pelos sintomas, sonhos ou fantasia, ou seja, formas nas quais o desejo se reveste com a máscara, de tal modo que o desejo fala através dessa máscara, de tal modo que Frida se recria através de sua obra.
Renata Wirthmann G. Ferreira é psicanalista e professora do Departamento de Psicologia, da Universidade Federal de Goiás. É mestre com a dissertação de mestrado Máscara e desintegração em Frida Kahlo: das bordas do sentido ao gozo feminino, na UnB.
Quando Frida pinta seu rosto ela o representa, ela se faz personagem. Tanto que, se percorrermos, em sua obra, as várias representações de seu rosto, veremos a construção, pouco a pouco, de uma máscara, a personificação de Frida em torno de algo que acompanha toda sua obra: o olhar. O olhar de Frida é um olhar enigmático, petrificado, que faz com que olhemos o quadro e sejamos olhados por ele, num tal jogo de espelhamento que, de certa forma, estejamos nós mesmos no quadro. A Frida que nos olha, fixamente, olha a ela própria, e nós, ao olharmos para o quadro, posicionamo-nos no lugar de quem se vê no espelho e pinta, no lugar de Frida.
Num auto-retrato, de 1948, Frida aparece somente com a face descoberta e todo o restante do quadro é preenchido por uma renda armada, enquanto lágrimas surgem no seu rosto - o que não altera seu olhar petrificado. A renda armada é uma moldura contornando o rosto de Frida, que parece flutuar na tela. É uma espécie de avesso de máscara em que a parte velada é tudo o que não é rosto. Esse avesso de máscara é tão máscara quanto a própria máscara, a parte que a renda não vela também não mostra. É o rosto de Frida numa rigidez tal que parece estar moldado.
É tão máscara quanto o quadro , uma denúncia de tudo isso. Ao olharmos para máscara imaginamos o que faz Frida por detrás da máscara. Talvez se desmascare. Talvez as lágrimas - saltando por cima da máscara, através do buraco localizado à altura dos olhos - sejam da própria Frida e talvez seus olhos não estejam mais petrificados e, para não correr o risco de tê-los visto, ela se protege com a máscara. Talvez... São possibilidades que existem por causa da máscara.
A máscara, assim como o véu, é algo que se localiza sempre entre o sujeito e o objeto. O véu tem sua importância, pois tende a realizar como imagem aquilo que ele vela. Ao olhar-se para o véu, não é o véu que interessa, e sim aquilo que o véu cobre, sempre parcialmente. Quando se olha nessa direção, o que é visto não é nem o véu nem o objeto por detrás do véu, porém uma outra coisa, coisa imaginada.
O psicanalista francês Jacques Lacan diz que "sobre o véu pinta-se a ausência", desse modo o véu torna-se tela ao pintar-se nele a ausência. Cada uma dessas imagens é vista, por um breve momento, como realidade para o sujeito o que faz com que essa tela, essa máscara, se torne mais preciosa para o homem que a própria realidade.
O véu vela a ausência e pode ser, ele mesmo, o lugar dessa ausência. Ou melhor, lugar do desejo, lugar em que pode estampar essa imagem capturada do desejo que sempre busca reconhecimento sejam pelos sintomas, sonhos ou fantasia, ou seja, formas nas quais o desejo se reveste com a máscara, de tal modo que o desejo fala através dessa máscara, de tal modo que Frida se recria através de sua obra.
Renata Wirthmann G. Ferreira é psicanalista e professora do Departamento de Psicologia, da Universidade Federal de Goiás. É mestre com a dissertação de mestrado Máscara e desintegração em Frida Kahlo: das bordas do sentido ao gozo feminino, na UnB.
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