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Vida & Arte

PATRIMÔNIO CULTURAL

Pinceladas da memória

Sobrado Dr. José Lourenço reabre hoje como equipamento cultural. Símbolo da ostentação da elite cearense no final do século XIX, o prédio ganha exposição, biblioteca, pinacoteca e se transforma numa referência arquitetônica

Angélica Feitosa
Especial para O POVO

31 Jul 2007 - 01h24min

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Casarão é restaurado e ganha livro coordenado pelo jornalista e pesquisador Gilmar de Carvalho (Foto: Evilázio Bezerra)
A rua Major Facundo no sentido sertão/mar pulsa com mais força até a Praça do Ferreira, com seu movimento de gente que trabalha, perambula, consome. Passada a Praça, o primeiro quarteirão ainda respira vida, mas que vai se esvaindo na medida em que se aproxima do Passeio Público. O vazio mostra justamente o inverso da realidade na segunda metade do século XIX: o caminho de volta, da área do Passeio Público até a Praça do Ferreira, na época o Largo das Trincheiras, era o berço das elites da cidade. Na então Rua da Palma erguia-se talvez a mais imponente edificação da região na época, um sobrado alegremente colorido que se sobressaía dos demais por seus três andares, ao invés dos dois costumeiros. O sobrado Dr. José Lourenço ganha restauração e uma série de ações para dar uma nova vida ao casarão, que ganha nova vida como um equipamento cultural da cidade, ligado à Secretaria da Cultura.

Com a inauguração do sobrado, que acontece hoje (31), o casarão ganha, então, mais uma forma de uso. Foram, aliás, muitas as utilizações desde a sua construção, sem data precisa, mas que está no intervalo entre 1845 e 1854. O casarão chama a atenção de quem passa pela rua por seus ares de majestade e a fascinação aumenta quando descobrimos que, depois de abrigar um homem considerado distinto, ser o sobrado local de trabalho para as prostitutas do início do século XX.

Segundo o historiador diretor do Museu do Ceará Régis Lopes, a casa abrigou o primeiro morador por cerca de duas ou três décadas, para depois ter uma série de outras funcionalidades. “Já foi o tal do Tribunal de Apelação e se forem feitas outras pesquisas vão descobrir outros usos. Uma casa de recurso, o cabaré, existiu lá por pelo menos 20 anos”. Nessa perspectiva, para ele, não existe um sobrado, mais sim “vários sobrados” cuja relação com a cidade vai depender do modo de ocupação. “Descobrimos várias camadas de tinta, que são também camadas de memória. Cada uma representa um momento da casa”. Entre as pinceladas que a casa recebeu, uma merece destaque: a pintura de uma mulher na parede, em poses sensuais para a época e, embora não revele nenhum primor artístico, mostra uma face da casa, do período em que a casa funcionava como um prostíbulo.

O sobrado era símbolo de ostentação da elite de uma Fortaleza que começava a dar seus primeiros passos na exportação do algodão. A fachada principal é coroada com um frontão triangular, com três pilares que sustentavam figuras clássicas em mármore. As paredes exteriores eram amarelas decoradas com azulejos azuis, vindos de Portugal. As cores originais foram as preservadas na restauração. Internamente, um duto dava conta de trazer a luz a gás para a casa, um bem considerado luxo até para as famílias mais abastadas.

O historiador Antônio Luiz Macedo e Silva Filho diz que são três os fatores para que existe um maior número de moradias de elite no alvo das preocupações do poder público. O primeiro é o material empregado na construção dessas edificações, que são mais resistentes à ação corrosiva do tempo. Em segundo lugar, diz respeito à preservação da memória pelo próprio grupo familiar e, por último, da ação ideológica, já que as moradias da população pobre costumam ser mais suscetíveis à intervenção da legislação urbana, que costuma a partir de um determinado período proibir prédio que são feitos a partir de materiais mais degradáveis. Cristina Holanda acredita que a partir do sobrado é possível fazer uma leitura da cidade de Fortaleza, partindo desse símbolo de elite. O casarão representa a ostentação e, a partir dele e de documentos que retratam a rua, o Centro e toda a cidade, é possível fazer um comparativo.


SERVIÇO

O sobrado do Dr. José Lourenço, de Gimar de Carvalho (org.) Fortaleza, 2007, Expressão Gráfica e Editora Ltda. 120 páginas. Preço: R$ 10,00.

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