Vida & Arte
LITERATURA
Sexo, violência e tecnologia
Em Crash, romance do britânico J. G Ballard, centra-se na figura de um produtor londrino de comerciais para televisão
Marcelo Pen
da Folhapress
20 Ago 2007 - 01h27min
Para os ligeiramente mais velhos, Crash antes de ser o drama de Paul Haggis, ganhador de um punhado de Oscars em 2005, é o filme de David Cronenberg que causou polêmica no Festival de Cannes de 1996 por mostrar um grupo de pessoas que mistura gozo com desastres de trânsito.
O Crash de Cronenberg baseia-se neste romance do britânico J.G. Ballard, publicado em 1973. Ballard - que, mais tarde, lançaria o mais bem-comportado e semi-autobiográfico Império do Sol, filmado por Spielberg - também enfrentou seu quinhão de censura.
O romance é cru e repetitivo em seu afã de converter o carro e seus destroços em objeto de fetiche, de descrever as incomuns e por vezes repugnantes aventuras sexuais dos personagens. Em prefácio de 1995, reproduzido nesta nova edição, Ballard orgulha-se em imaginar se este não seria o "primeiro romance pornográfico baseado na tecnologia".
Crash centra-se na figura de um produtor londrino de comerciais para televisão, também chamado Ballard, que narra a história. Após sofrer um acidente automobilístico em que mata um homem, ele passa a sentir-se atraído por imagens de sangue, morte e deformação. E começa a agir conforme a seus desejos. Sua mulher e também a viúva do motorista morto no acidente, com quem o narrador acaba tendo um caso, compartilham a tara.
Uma nova voltagem se estabelece quando o fotógrafo Vaugham entra em cena. Fascinado por carros e colisões, com o corpo coberto de cicatrizes, Vaugham sonha em trombar literalmente de frente com a atriz Elizabeth Taylor -ainda muito popular, na época.
O plano dá errado, conforme nos informa o primeiro parágrafo. O fotógrafo arremete o carro de um elevado, mas, em vez de chocar-se contra a limusine da atriz, cai em cima de um ônibus cheio de turistas.
Discurso refinado
Muito foi dito sobre a confluência entre sexo, violência e tecnologia que há neste livro. Símbolo da égide burguesa no que ela tem de sinistramente maternal e corrosivamente individualista, o automóvel, com suas engrenagens, lataria e fluídos, oferece-se tanto à cópula quanto à chacina.
Essa mixórdia de sexo e violência é relatada por meio de um discurso refinado, próximo do poético. Uma palavra bastante repetida no romance é "estilizar'' e seus derivados. O comportamento dos personagens, os gestos, coitos e mortes são exibidos pelo prisma da estilização, por uma requintada renda verbal que fornece um verniz "dignificador'' para aquilo que, de outro modo, seria moralmente condenável.
Se nada parece ter sentido nessa era tecnológica de reprodutibilidade insana, uma época de contornos fugazes e de cópias para sempre deslocadas de sua matriz, então a última coisa que resta -Ballard parece sugerir- é a estilização, que rege, com a agudeza do aço frio, a lógica, a ética e os afetos humanos.
SERVIÇO
Crash, de J. G. Ballard. Tradução de José Geraldo Couto. Editora: Companhia das Letras. R$ 42 (240 págs.)
O Crash de Cronenberg baseia-se neste romance do britânico J.G. Ballard, publicado em 1973. Ballard - que, mais tarde, lançaria o mais bem-comportado e semi-autobiográfico Império do Sol, filmado por Spielberg - também enfrentou seu quinhão de censura.
O romance é cru e repetitivo em seu afã de converter o carro e seus destroços em objeto de fetiche, de descrever as incomuns e por vezes repugnantes aventuras sexuais dos personagens. Em prefácio de 1995, reproduzido nesta nova edição, Ballard orgulha-se em imaginar se este não seria o "primeiro romance pornográfico baseado na tecnologia".
Crash centra-se na figura de um produtor londrino de comerciais para televisão, também chamado Ballard, que narra a história. Após sofrer um acidente automobilístico em que mata um homem, ele passa a sentir-se atraído por imagens de sangue, morte e deformação. E começa a agir conforme a seus desejos. Sua mulher e também a viúva do motorista morto no acidente, com quem o narrador acaba tendo um caso, compartilham a tara.
Uma nova voltagem se estabelece quando o fotógrafo Vaugham entra em cena. Fascinado por carros e colisões, com o corpo coberto de cicatrizes, Vaugham sonha em trombar literalmente de frente com a atriz Elizabeth Taylor -ainda muito popular, na época.
O plano dá errado, conforme nos informa o primeiro parágrafo. O fotógrafo arremete o carro de um elevado, mas, em vez de chocar-se contra a limusine da atriz, cai em cima de um ônibus cheio de turistas.
Discurso refinado
Muito foi dito sobre a confluência entre sexo, violência e tecnologia que há neste livro. Símbolo da égide burguesa no que ela tem de sinistramente maternal e corrosivamente individualista, o automóvel, com suas engrenagens, lataria e fluídos, oferece-se tanto à cópula quanto à chacina.
Essa mixórdia de sexo e violência é relatada por meio de um discurso refinado, próximo do poético. Uma palavra bastante repetida no romance é "estilizar'' e seus derivados. O comportamento dos personagens, os gestos, coitos e mortes são exibidos pelo prisma da estilização, por uma requintada renda verbal que fornece um verniz "dignificador'' para aquilo que, de outro modo, seria moralmente condenável.
Se nada parece ter sentido nessa era tecnológica de reprodutibilidade insana, uma época de contornos fugazes e de cópias para sempre deslocadas de sua matriz, então a última coisa que resta -Ballard parece sugerir- é a estilização, que rege, com a agudeza do aço frio, a lógica, a ética e os afetos humanos.
SERVIÇO
Crash, de J. G. Ballard. Tradução de José Geraldo Couto. Editora: Companhia das Letras. R$ 42 (240 págs.)
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