Vida & Arte
CINEMA
O Brasil de Ojuara
O Homem que Desafiou o Diabo estréia sexta-feira nos cinemas nacionais. O filme que conta a história de um herói picaresco interpretado por Marcos Palmeira, é dirigido por Moacir Goés e é o 62º filme do produtor Luiz Carlos Barreto
Paula Lima
da Redação
26 Set 2007 - 01h25min
O causo encantou Barretão já nos anos 90, quando ele e a mulher Lucy Barreto, sócia da produtora, leram o romance. "A vontade de adaptar para o cinema foi imediata", conta em entrevista por telefone. De Recife, uma de suas paradas para divulgar o longa, ele pergunta como foi a reação de quem assistiu à cabine (seção fechada para imprensa) do filme. Diz que a crítica não gosta de nada que seja popular e empolga-se ao falar na prosódia sertaneja, grande destaque do longa.
Aos 79 anos, Barretão diz que com esse filme fecha a trilogia formada por Dona Flor e Seus Dois Maridos e Macunaíma. "Ojuara tem um pouco do Vadinho e do herói de Macunaíma, o bom humor nordestino, a sensualidade, um imaginário sem limites, que leva o sujeito a dois metros do chão", diz.
O POVO - Quando surgiu a idéia de adaptar o livro As Pelejas de Ojuara para o cinema?
Luiz Carlos Barreto - A partir de uma conversa que eu tive na época que estava lançando Bella Donna, em Recife, há uns cinco, seis anos. Uma produtora cultural falou muito desse livro e me mandou um exemplar. Eu li com Lucy e achamos o livro extraordinário. Li também uma crônica de Carlos Drummond de Andrade sobre o livro, e já começamos a fazer um trabalho de adaptação. E foi muito longo, fizemos algumas que não nos agradaram, até que chegamos a do Bráulio, que tratamento final do Moacir. A vontade de adaptar foi imediata. Desde a primeira leitura vi que ali tinha uma grande história. Foi a mesma sensação de quando lemos Macunaíma e Dona Flor e Seus Dois Maridos.
OP - As adaptações da literatura para o cinema sempre deixam de lado tramas paralelas. O que de mais importante não ficou de fora?
LC Barreto - O que acontece é que a expressão literária é uma coisa totalmente diferente da linguagem concisa e compacta do filme. Em uma hora e meia temos que fundir um personagem no outro, coisas do tipo. Mas o que tinha de mais importante no livro tem no filme, fizemos um suco suculento. A essência é essa do humor, do pensamento filosófico popular do Ojuara, que é a filosofia popular sertaneja, do homem ligado à terra. Como pensamento e como situação de humor e dramática que está ali e dentro do livro tem a sedução pelas mulheres e pela cachaça, a utopia de Ojuara de ser um saruê, a utopia pela justiça, porque ele é um justiceiro e também é um libertário.
OP - A linguagem é uma das maiores atrações do filme...
LC Barreto - (Interrompe) Você percebeu o que tem o livro e o filme de mais maravilhoso! É essa recuperação da linguagem sertaneja, não gosto de dizer resgate, acho que é recuperação mesmo de palavras da prosódia nordestina. É uma coisa que está meio em extinção nesse tempo de internautas e de televisão. Estava, vamos dizer assim, correndo perigo de se diluir e no filme ressurge com toda força, graças e propriedade. Já disse até que deferia ser feito um dicionário com esse vocabulário.
OP - Já existe projeto para criar um dicionário assim, não é?
LC Barreto - Alguns jornais anunciaram que a Academia Brasileira de Letras estava pensando em publicar um dicionário, mas na verdade eu ainda nem fiz uma proposta, não há nada definido. Vou mostrar o filme ao presidente da ABL, Marcos Vilaça, que é um nordestino arretado, depois que ele assistir que vou sugerir. O livro vai ser agora editado em Portugal, a capa é uma cena do filme, e a tradução foi muito cuidadosa, não foi uma tradução corriqueira. Foi a mesma solução que se encontrou para Guimarães Rosa, que tinha uma prosódia de sertanejo mineiro.
OP - A divulgação do filme o classifica como o último da trilogia de Macunaíma e Dona Flor e Seus dois Maridos. O que tem no longa que faltava ao cinema brasileiro?
LC Barreto - Na verdade, esse filme reúne no Ojuara um pouco do Vadinho, de Dona Flor e um pouco de Macunaíma. O Ojuara é, ao mesmo tempo, um herói macunaíma, mas é bom caráter, sem ser tão certinho, como o Vadinho. Não é politicamente correto, mas é um ser humano que tem uma dimensão muito grande, como o sertão. Então ele fecha essa trilogia do homem picaresco, que tem o bom humor nordestino, a sensualidade, um imaginário sem limites, que leva o sujeito a dois metros do chão.
OP - O que desse herói picaresco é mais presente e real no nordestino?
LC Barreto - Eu acho que o Ojuara está além do regionalismo, porque é aquele negócio, se você quer se comunicar com o mundo, fale do seu quintal. Quanto mais regional é algo, mais universal. O Ojuara tem uma estrutura não só de lenda, mas de mito, fabulação. Ele envolve vários componentes como o diabo, o hedonismo, a vida de prazer. O homem nordestino tem o imaginário rico e sabe fazer disso sua arma de sobrevivência. Se o homem nordestino fosse viver apegado só à sua realidade, apegado à terra, seriam os campeões do mundo em suicídio. A vida do sertão é muito precária e injusta, então ele faz do seu imaginário, uma grande arma de sobrevivência. Essa coisa também está presente na literatura de cordel, no improviso de feira, no cantador. Ainda é viva essa coisa quase mentirosa, a grande mentira do matuto, né? Essa é a grande arma e é universal.
OP - A comédia no cinema brasileiro vem ocupando cada vez mais salas de cinema, mas a crítica continua sem dar muito crédito a essas produções. Você concorda com isso?
LC Barreto - Você é danada, viu? Vou te contar uma coisa, o Brasil só é democrático quando é no plano do voto, na cultura essa democracia desaparece. O que é popular passa a não ser bom. Na nossa vida de produção cultural, sofremos muito com isso. Tudo aquilo que é popular é considerado de menor importância. Jorge Amado sofreu esse preconceito durante muito tempo. A crítica em geral aceita o que só ela pode entender, só considera bom o que ela própria tem capacidade de entender.
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