Vida & Arte
CAPA
Cultura e design
O desenho espanhol ganha espaço no museu de arte contemporânea do Centro Dragão do Mar. Por meio de cadeiras, luminárias e cartazes, a exposição 300% Spanish Design apresenta um panorama das relações entre a história gráfica e industrial daquele país
Amanda Queirós
da Redação
28 Abr 2008 - 00h41min
A mostra foi criada pela Sociedade Estatal para a Ação Cultural Exterior (Seacex) da Espanha para o pavilhão do país na Expo 2005 de Aichi, no Japão. Ela reúne 300 peças que acompanham o desenvolvimento do design espanhol ao longo do século XX a partir de três objetos-chave: cadeiras, luminárias e cartazes. São 100 de cada, incluindo peças com desenhos de artistas espanhóis consagrados do Antonio Gaudí, Salvador Dali, Manolo Prieto e Mariano Fortunny.
"Existe uma linha muito tênue entre o design e as artes plásticas. Essa exposição permite essa reflexão sobre o que é arte em stricto senso e o que é arte utilitária e como ela se insere no cotidiano. Acho que ela vai suscitar discussões interessantes", afirma o diretor do Museu, José Guedes. As negociações para captar a exposição começaram no fim do ano passado. De acordo com o diretor, a abertura de linguagens do MAC favoreceu o pitstop da mostra no espaço. Daqui, a exposição segue para São Paulo após já ter passado por Pequim, Xangai, Atenas e Lisboa.
Entrevista
Juli Capella é um dos arquitetos mais prestigiados da Espanha, fundador de diversas revistas de design e autor de livros sobre o tema. Ele é o curador da mostra 300% Spanish Design. Em entrevista por e-mail, direto de seu escritório em Barcelona, ele fala sobre o envolvimento da arte com o design e o que motivou a escolha das peças em exposição.
O POVO - Por que você escolheu trabalhar com esses temas: cadeiras, luminárias e cartazes?
Juli Capella - Porque são três ícones do design que servem humildemente ao ser humano. A cadeira é a microarquitetura, o desenho básico. Todo grande arquiteto ou desenhista já experimentou esse tipo de móvel. As luminárias representam a magia do ser humano, sua capacidade de modificar a natureza e de esquentar a vida cotidiana. Os cartazes são um grito na parede. Surgiram no fim do século XIX tanto para informar sobre temas comerciais como culturais e políticos. Um cartaz é também a possibilidade de reproduzir infinitamente uma obra de arte. Penso que esses três produtos são muito representativos do melhor da cultura espanhola.
OP - Como é possível compreender um pouco da história espanhola e a evolução de sua arte através desses objetos?
Capella - Todo país se expressa através de sua cultura material. Portanto, podemos fazer uma radiografia histórica apenas analisando e comparando seus produtos industriais e gráficos. É possível considerar certas peças como artísticas e ver a influência da arte em objetos de uso cotidiano. Isso está claríssimo em nossa exposição onde se percebe a influência da Art Nouveau, do modernismo, do expressionismo, do cubismo, da abstração, do surrealismo. Também vejo em muitos objetos a sombra de Velázquez, de nossa arquitetura gótica e do informalismo dos anos 60. Certamente arte e indústria se influenciam mutuamente e a Espanha evidencia muito essas interações.
OP - Que diferenças existem entre olhar para esses trabalhos em museus e em showrooms?
Capella - Duchamp já mostrou isso ao colocar um mictório em uma galeria de arte, o que proporcionou um novo olhar sobre um objeto comum. Existem vários graus de apreciação muito diferentes. Se você vê uma luminária em um showroom de vanguarda, a sua curiosidade e apreço é maior. Essa atenção aumenta quando ela está com um cartãozinho de informações de museu. Ali o design ganha grande relevância e é até possível que você acabe o considerando arte. O processo inverso também acontece, mas somente as obras-primas sustentam esse olhar museístico.
OP - Como você explica a vocação que os artistas espanhóis têm para a produção do design?
Capella - A Espanha tem uma grande tradição artística e acumula grandes mestres desde Velázquez, Zurbarán, Goya, El Greco a Gaudí, Picasso, Miró, Dalí... Por outro lado, o país tem uma enorme tradição artesanal de muitos séculos. Após a chegada tardia da revolução industrial, essa capacidade criativa foi utilizada pela indústria para dar forma a seus produtos. Daí surgiram os rasgos de hispanicidade: formas orgânicas, coloridos atrevidos, materiais nobres, tecnologias, produtos muito inventivos, versáteis, portáteis e um certo grau de ironia e de brincadeira. Assim somos nós, um país muito dinâmico, mediterrâneo e latino, mas também sóbrio e integrado à Europa.
SERVIÇO
300 % Spanish Design - A exposição abre hoje, às 19 horas, no Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema). Fica em cartaz até 22 de junho. A visitação segue de terça a quinta, das 9h às 18h30min, e de sexta a domingo, das 14h às 20h30min. Grátis. Informações: 3488 8624
Dê sua nota clicando nas estrelas
Comentar essa notícia
Importante: Os comentários publicados são de exclusiva responsabilidade de seus autores e as conseqüências derivadas deles podem ser passíveis de sanções legais. O usuário que incluir em suas mensagens algum comentário que viole o regulamento será eliminado e inabilitado para voltar a comentar.
Mais Notícias
Últimas
Últimas
- 03:05Documentos falsos vendidos por R$ 30
- 01:49Quem grita mais... ganha
- 12:19Viatura do Ronda perde o controle e invade restaurante em São Gonçalo do Amarante
- 17:50'Dilma não é líder, é reflexo de um líder', diz Fernando Henrique
- 10:07Corpo de homem é encontrado amarrado e amordaçado
- 03:06Revelações de sex symbol
- 01:49 Quem grita mais... ganha
- 17:50 'Dilma não é líder, é reflexo de um líder', diz Fernando Henrique
- 12:19 Viatura do Ronda perde o controle e invade restaurante em São Gonçalo do Amarante
- 02:04 Já vai embora?
- 03:04 35 mil famílias cearenses fora do Bolsa Família
- 08:54 Investimentos em educação vão transformar Brasil em potência econômica, diz Lula
Indique essa notícia









