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Vida & Arte

TEATRO

Curral de gente

Os campos de concentração do Ceará retratados em cenas que massificam e, ao mesmo tempo, particularizam o indivídio. Curral Grande ganha a primeira montagem através do curso de artes dramáticas da UFC e propõe um diálogo com um passado nem sempre presente nos livros didáticos

Angélica Feitosa
da Redação

09 Out 2008 - 00h35min

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Espetáculo Curral Grande, dirigido por João Andrade Joca, estréia amanhã, na Sala Nadi Papi Sabóia, anexa ao TJA (Foto: Alex Hermes)
Março ia embora, levando com ele a nesga de esperança de um bom inverno em 1932. Levas de pessoas, desconfiguradas pela fome e sede, chegavam aos centros urbanos do Interior e, de lá, partiam para Fortaleza. A imprensa da capital alardeava aos quatro cantos o ocorrido. Às vezes, preocupada com o estado dos migrantes e, outras, temerosa com as conseqüências das chegadas para a cidade. "E os adventícios, em número considerável, realizando penosas jornadas, arrastando velhos e conduzindo crianças, já começam a invadir esta capital. As ruas são percorridas por blocos desses infelizes, maltrapilhos, famintos, imundos, rogando alimentos", noticiava O POVO, do dia 30 daquele mês e ano.

A solução já estava dada e acertada. Vindos em trens de cargas, os flagelados do Ceará ficariam confinados todo num só lugar. Os locais ficaram conhecidos como campos de concentração, antes mesmo da experiência nazista na Alemanha. As tais áreas do Estado, chamados currais do governo, já tinha passado por prova "bem sucedida" 17 anos antes, na afamada seca de 1915. Seria ela novamente a solução. É a partir do universo das pessoas que habitaram esses locais de recolhimento e segregação que o texto do dramaturgo cearense Marcos Barbosa se reverbera. A peça-dissertação Curral Grande recebe a montagem dos alunos de conclusão do Curso de Artes Dramáticas (CAD) da Universidade Federal do Ceará e estréia a temporada nesta sexta, 10, na sala Nadir Papi Sabóia, anexa ao Theatro José de Alencar.

Experimentos
A mão de João Andrade Joca na direção lança tatos de transformação. Um texto a princípio sem grandes experimentações de linguagem recebe uma montagem semelhante a uma coreografia, de migração. Arrancadas as liberdades, restam às pessoas se movimentar em torno de um mesmo lugar. Durante toda a peça, personagens sem nome, qual tipos, giram em histórias sugestivas e não acabadas. "As cenas lançam uma idéia e nunca o fim, sem fechar o ciclo, mas sugerindo. Isso fica ao cargo do público", interpreta a atriz Luzilângela Nunes, na roda formada após o ensaio na sede do CAD para a conversa com O POVO. Cada ator vive vários personagens, o que pede uma agilidade de transformação e adaptação.

O texto é composto por oito cenas curtas que mostram o anúncio dos campos de concentração, as situações de vivência nesses lugares, as resistências e as privações, ao mesmo tempo em que miram na subjetividade existente até mesmo na tentativa de massificação. "Muitas das situações foram colhidas na história, a partir de um livro da pesquisadora Kênia Rios", garante a atriz Nataly Costa, sobre o livro Campos de concentração no Ceará (Edição Outras Histórias / Museu do Ceará, 2000). Numa das situações, uma benzedeira recusa-se a vacinar um rapaz doente, temendo que o estado se agrave. Ao invés disso, ela confia na sua fé e na sua reza como caminhos. Noutra, a mãe negocia a filha em troca de um pouco mais da ração. Numa terceira, o povo do campo celebra, ao som de sanfona, uma noite de festa. Em comum a cada uma delas, além do final em aberto, o uso de uma espécie de coro. Atores fora de cena simbolizam, qual máscaras, as sensações em voga. Riso, tristeza e dor.

História
Livremente espelhada na história, a peça mostra a tentativa de manter a cidade de Fortaleza afastada da miséria. Para tal, Curral Grande pincela as frentes de trabalho, as políticas de emigração - em que os chamados "flagelados da seca" recebiam passagens para outros estados - e, sobretudo, o isolamento de milhares de pessoas em sete campos de concentração, dois deles em Fortaleza. O saldo dessa política pública foi a dizimação de milhares de cearenses, mortos pela fome e por doenças.

Joca explica que o processo de pesquisa para a montagem do texto passou por vários momentos de vivência, em que os atores eram chamados a compartilhar as situações, independentes do texto. A cena era lida e vivida, na tentativa de manter seu objetivo e de se assemelhar a um realismo seletivo, ou seja, próximo ao máximo do real, mas sem esquecer a poética. "O processo facilitou a identificação. Quando aos ensaios, tudo saiu muito mais rápido", conta Joca.

Figurino e iluminação
Os figurinos pretos deixam à mostra somente os pés e mãos dos atores, além do rosto. Isso colocou a todos num mesmo patamar e provocou no elenco - formado de 14 estudantes - a necessidade de maior expressividade facial. A montagem teve a orientação do teatrólogo Ricardo Guilherme, professor do CAD e criador do Teatro Radical, de valorização do teatro do ator como principal elemento. Em cena, além dos corpos, somente uma toalha branca. Versátil, ela é composição chave para cada situação. A luz é outro ponto de valorização o ator.

Numa das cenas, a indiferença e a curiosidade dos moradores de Fortaleza com os pontos de aglomeração. Gente acolhida feito bicho. No mesmo 1932, agora no dia 9 de abril, O POVO registrava essa curiosidade na chegada dos migrantes de trem. "Foi um serviço titânico o da polícia para evitar que a massa popular perturbasse o seu serviço, pois todos avançavam para os vagons e queriam ver de perto o horrível quadro. Era uma cena dolorosa, cruciante. Cerca de três centenas de famintos, homens, mulheres e crianças, amontoados nos dois primeiros vagons, uns por cima dos outros, a quererem descer de uma vez, a gritarem, a pedirem comida e água", registrou.


SERVIÇO

Estréia da temporada do espetáculo Curral Grande, de conclusão do curso do Curso de Arte Dramática da UFC. Texto: Marcos Barbosa. Direção: João Andrade Joca. Na sala Nadi Papi Sabóia, anexa ao Theatro José de Alencar (praça José de Alencar, s/n - Centro). Ingresso: R$ 2 (inteira) e R$ 1 (meia). Informações: 3101 2583.


EMAIS!

- O dramaturgo Marcos Barbosa é professor de Dramaturgia e Teoria do Teatro da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele acompanhou alguns dos ensaios do CAD, contribuindo com a discussão dos alunos. O dramaturgo disse aos alunos que estava feliz, pois o seu desejo era que o texto fosse montado por uma escola.

- Os campos de concentração foram erguidos em lugares estratégicos do estado, para garantir o encurralamento do maior número possível de retirantes no sertão do Ceará. Em Fortaleza, eram dois, do Pirambu e do Matadouro Modelo, no Bairro Otávio Bonfim.

- A peça tem como assistente de direção Kelva Cristina, consultores de direção Ricardo Guilherme e Ghil Brandão, além de figurinos de Valéria Albuquerque e Li Mendes, supervisão musical de Poty Fontenele e iluminação de Neto Brasil.

- O maior campo de concentração do Estado estava instalado em Buriti, distrito do Crato. Estima-se que passaram por lá 65 mil pessoas em 1932.

- O elenco de Curral Grande é formado por Annalies Borges, Débora Frota, Diego Mesquita, Dória Katerina, João Paulo Pinho, José de Ipanema, Juliana Veras, Luiz Otávio Queiroz, Luzilângela Nunes, Marina Brito, Nataly Rocha, Raimundo Nonato, Roberta Bernardo, Thiago Braga.

- O Curso de Arte Dramática da UFC existe há 47 anos. É a primeira escola para formação de atores no Ceará e uma das principais referências em ensino profissional de teatro no estado. Foi criado oficialmente em fevereiro de 1961 pelo reitor fundador Antônio Martins Filho, pelo ator B. de Paiva e pelo cenógrafo J. Figueiredo. A partir daí, o CAD realizou mais de cinqüenta produções dos mais variados autores da dramaturgia local, brasileira e universal.

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