Vida & Arte
Literatura
70 anos de Vidas Secas
O livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos completa 70. Foram 107 edições e inúmeras análises da família sertaneja que deixa atravessa o sertão fugindo da seca
Fernanda Coutinho e Miguel Leocádio
Especial para O POVO
10 Nov 2008 - 00h53min
Um livro completar 70 anos de publicação e contar com 107 edições?! Difícil acreditar que estamos no Brasil, mas, para grande orgulho nosso, é aqui mesmo que estamos.
Que história é essa, então, capaz de aproximar do mundo de suas personagens uma tão expressiva legião de leitores?! Será, sem dúvida, muito imaginativa, inusitada, trepidante, arrebatadora! O autor, como sabemos, é o alagoano Graciliano Ramos (Quebrangulo, 1892 - Rio de Janeiro, 1953).
E, no entanto... trata-se de uma narrativa aparentemente anódina: um casal, com seus dois filhos e uma cachorrinha atravessam o árido sertão. Um papagaio inicia a dura viagem sucumbindo, porém, no trajeto, onde a água só existe praticamente como miragem. Por algum tempo, as coisas melhoram, o céu deixa cair a chuva benfazeja e a família se aloja numa fazenda largada ao léu. De novo, porém, as aves que vivem da morte anunciam outra temporada de seca e os caminhantes - agora sem a cachorrinha - prosseguem seu périplo. Rumo a que lugar? O livro deixa uma interrogação, um rastro de dúvida, como a sombra que reflete os passos dos caminhantes. Cabe a nós, leitores, entrever possibilidades de direcionamento para essas pessoas, e pensar a que distância estamos hoje dessas condições aí descritas.
E não apenas, nós, aqui do Brasil, também os leitores de Portugal, França, Alemanha, Holanda, Argentina e até mesmo da Turquia, dentre outros lugares, têm a oportunidade de conhecer algo sobre essas vidas/secas. E como é interessante observar as variadas composições das capas das edições estrangeiras, oferecendo-nos indícios de nossa presença de nordestinos no imaginário de povos de longínquas fronteiras.
Em 2008, pelo Brasil inteiro e, mesmo no estrangeiro, houve e está havendo discussões em torno desta obra-prima. Agora em novembro o Centro Cultural Banco do Nordeste oferece ao público uma vasta programação em torno da obra considerada como representativa da cultura brasileira pela Fundação William Faulkner.
O Seminário Avançado de Arte, por exemplo, propõe uma reflexão, através da indagação: Vidas, para sempre secas? Para tanto, professores da UFC, e de outras universidades brasileiras - UFBA, UNB, USP - serão colocados diante da pergunta e, para ela, buscarão respostas, quer através dos estudos clássicos sobre o livro, quer por meio de novas interpretações, que, embora atentas ao local de nascimento da obra, o "romance de 30", apresentam novos enfoques de leitura, que situam cada vez mais nossos viajantes como atores de outras cenas - não apenas as ligadas à carência de água. Há carências de outros matizes a serem consideradas, sem falar no que pulsa de vida nessa narrativa singular.
Será possível ainda tomar contato com modos diversos de viver essa narrativa, começando pela leitura mesma do texto, especialmente dirigida a professores da rede pública de ensino; a adaptação do livro para o cinema - Nelson Pereira dos Santos, e ainda a exposição "Caras murchas das vidas secas", que tenta mesclar material bibliográfico, inclusive cópias dos manuscritos do livro, cedidos pelo Instituto de Estudos Brasileiros - IEB - a uma ambientação sugestiva do clima da obra. A exposição terá um espaço especialmente dedicado às crianças - aí ela vira "Carinhas murchas das vidas secas" - pensando exatamente na formação de leitores das séries iniciais.
Para fechar a programação, a presença de um leitor preferencial de Graciliano: o professor Wander Melo Miranda (UFMG), que organizou a reedição da obra completa do escritor, recém-saída pela Editora Record.
O velho Graça ficaria contente com a presença de todos nós!
Fernanda Coutinha é doutora em Literatura e professora da UFC. Miguel Leocádio é mestre em Literatura
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