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Vida & Arte

Perfis Urbanos

Entre o Ceará e o mundo

A série Perfis Urbanos traz hoje o retrato do fotógrafo cearense Gentil Barreira. Atuando em diversos segmentos da fotografia, Gentil assina ensaio fotográfico especial da revista People Luxo, que será lançada pelo O POVO

Pedro Rocha
da Redação

11 Dez 2008 - 00h20min

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Gentil, ao lado da mulher e um amigo, capturou seu reflexo na escultura de Amish Kapoor, Cloud Gate, em parque de Chicago (Foto: Gentil Barreira)
Quem entra na recepção do estúdio de Gentil Barreira, na Aldeota, pode imaginar que seu trabalho é uma dádiva: viver de fotografar mulheres lindas em locais deslumbrantes. “Às vezes, a gente só vê isso aí, mas por trás existe muita tensão”, diz diante de fotografias de uma modelo no Mucuripe. Um dos maiores fotógrafos cearenses, Gentil Barreira já fez fotos com até 25 pessoas na produção. Sem falar nos problemas que aparecem, como semana passada, quando, em viagem a Buenos Aires, ele quase teve a programação inviabilizada por conta da modelo que disse ter um outro trabalho no mesmo dia.

Já de volta a Fortaleza, ele seguiu nesta semana a rotina entre catálogos de moda, a publicidade de um 4x4 nas areias do Porto das Dunas e fotos técnicas de acompanhamento da obra de uma construtora. A velocidade dos dias atuais alcançou sua vida através do celular e da fotografia digital, da qual ele foi pioneiro na cidade.

Três décadas atrás, ele mesmo, após cursar por dois anos uma faculdade de Arquitetura e Urbanismo em São Paulo, decidiu voltar, em 1973, à cidade natal, não só pelo horizonte do curso que se tornaria cada vez mais sobre arquitetura, mas também por não se adaptar à nova realidade.

“São Paulo me incomodou. A época que eu saí daqui, na adolescência, foi muito boa, eu viajava muito pro interior, pro sertão. Eu sempre gostei do Ceará. Meu avô tinha fazendas e gostava muito do interior e passava isso pra gente. Todas as férias, a gente ia. Essa vida no sertão de tomar leite de vaca no curral com meu avô, de tá no açude, andar a cavalo. Calor, chuva. Eu sempre gostei muito, desde menino. Uma vez, por exemplo, eu saí com os amigos de Fortaleza pra Majorlândia a pé pela praia, com 14, 15 anos. Uma barraca nas costas. Lá, em São Paulo, eu queria ver a praia, peguei um ônibus pra ir pra Santos e não podia ir, porque não tinha autorização, era menor. Aqui, eu pegava um trem e ia passar um Carnaval no Crato”, relembra.

Hoje, de barba e cabelos grisalhos, ele fala calmo sobre seu ofício, que começou a desvendar ainda na infância, com 11 anos, quando o pai lhe emprestou uma câmera fotográfica para ele levar à escola. Lá, trocou algumas idéias com um colega que já fotografava. Perguntou: “Como você revela suas fotos?” E se admirou com a resposta de que as fotografias poderiam ser reveladas na própria casa, com um laboratório caseiro. Correu atrás de informação em enciclopédias e foi em lojas da cidade, numa época em que químicos eram mais fáceis de achar do que hoje, em que o digital dominou completamente o cenário.

Cenário que ele mesmo ajudou a construir, primeiro como discípulo de Chico Albuquerque, fotógrafo cearense que na década de 1970 era um dos maiores do Brasil. Depois, atuando profissionalmente como fotógrafo em diversos setores comerciais como publicidade e arquitetura, seja com seu trabalho autoral que lhe rendeu prêmios no Salão de Abril, como o de 2000, quando ganhou o Prêmio Geral do mais tradicional salão de artes plásticas do estado. Um estado que ele tanto fotografou em seus aspectos diversos, como a culinária, a cultura popular e, especialmente, as praias.

“Já ouvi críticas como: ‘É um Ceará bonito que você fotografa?. Eu acho sim, porque o Ceará é bonito também. E eu acho que a gente tem que trabalhar pra levantar a nossa auto-estima. Existe uma sina de que o Ceará é um lugar pobre, triste. Eu acho que a gente teria que reverter essa situação. Existe um Ceará bonito e a gente tem que mostrar isso. Pra mostrar o que não é bonito já tem muita gente.”

Mesmo assim, esses retratos confrontam-se com as contingências de uma vida urbana, afetam a toda hora seu cotidiano, como nos momentos em que não pode fotografar sem seguranças - garantia de que seu equipamento não será roubado. Para se livrar um pouco desse aperreio, uma das soluções foi pedalar. “A bicicleta faz a gente se esquecer das outras coisas”.

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