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Vida & Arte

Crônica

José de Alencar e a palavra iracema

Ana Miranda esmiuça o termo Iracema, ícone de tantas lembranças e sentios que povoam o Ceará e, principalmente, Fortaleza

Ana Miranda
especial para O POVO

01 Mai 2009 - 01h59min

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Escrevo a olhar a paisagem, e cai uma chuva mansa, sem ventos. Vejo o mar, os coqueiros, o jardim... O jardineiro trabalha debaixo da chuva. Zum zum zum zum, escuto. ‘Tua natureza me fez viver’. Há dias penso em como começar esta conversa, e só me vem uma vontade: José de Alencar. Tendo nascido na Praia de Iracema, vim ao mundo sob as influências desse romancista. Iracema, corre a lenda, é um nome inventado por Alencar para sua personagem romântica, a mais conhecida de toda a literatura brasileira, e a que mais eleva a imagem feminina.

Nunca me bastou dizer que nasci em Fortaleza, sempre acrescentei: Nasci em Fortaleza, na Praia de Iracema. Talvez não dissesse, se fosse Praia dos Peixes, o nome antigo. O nome Praia de Iracema carrega tantos significados poéticos, místicos, históricos, literários, que acreditei ser o meu nascimento uma espécie de sina, e me tornei escritora de romances históricos brasilianistas e de herança indianista, como um toque da mão visionária de José de Alencar sobre a minha fronte. Quando eu dizia que nascera na Praia de Iracema, brilhava nos olhos do estrangeiro uma indiazinha surgindo de uma concha com o pé grácil e nu, ramos de acácia silvestre a esparzir flores nos cabelos, o aljôfar da água ainda sobre a pele selvagem, doce mangaba que corou em manhã de chuva... E outras imagens como essas alencarinas, românticas e sugestivas.

Numa nota ao pé da segunda página de ‘Iracema?, Alencar afirma que o nome significa ‘lábios de mel?. Mas há uma polêmica em torno de que Iracema seria, na verdade, um anagrama de América. Anagrama, sabemos, é a arte de recriar uma palavra ou frase transpondo as letras de outra palavra, ou frase. Criar anagramas era muito comum na época, e há indícios do uso que Alencar, charadista desde a infância, fazia da brincadeira. Em sua peça, ‘Mãe?, a heroína é Joana, um quase anagrama do nome da mãe de Alencar, a quem ele dedica, grafando Ana J. de Alencar. O personagem Ricardo, que retrata a personalidade do autor em ‘Sonhos de ouro?, tem nome composto com letras do sobrenome Martiniano de Alencar. E, afinal, o romancista fez um anagrama de seu próprio nome para batizar um personagem que atua em seu papel, no romance ‘Guerra dos mascates?, no qual satiriza viscondes, padres, ministros, marqueses, até o imperador. O anagrama é ‘Carlos de Enéia?, transposição quase perfeita de seu nome, valendo o j como i, o que está dentro das regras dos anagramistas.

Mas por que Iracema seria América? O ideal da Independência era traduzido em América. Ao Romantismo no Brasil chamavam escola Americana. A obra instrumental dos escritores do século 19 é repleta de menções à poesia americana, ao romance americano, ao teatro americano. A escola Americana era a exaltação das virtudes do indígena e sua idealização, nascida sob inspiração dos romances de Chateaubriand, em que um selvagem, meio civilizado em contato com a cultura européia, é aprisionado por uma tribo hostil e salvo por uma virgem mestiça índia, que por ele se apaixona; ou quando um jovem francês, fugindo de uma paixão pela irmã, vai viver junto aos índios Natchez.

América significava o não-europeu, o não-português, ou seja, o nosso Brasil independente. Não é difícil imaginar o sentimento de um país que acaba de se libertar do estado colonial, em busca de um rosto. Quem desenhou a feição de nossa nacionalidade foi a literatura, porque a literatura naquela época era quem fazia o debate das questões subjetivas da sociedade. E quem percebeu mais claramente a formulação do ser brasileiro foi José de Alencar, a partir de suas idéias de uma língua que não se sujeitasse às regras lusas.

No entanto, a explicação de Alencar para Iracema, em nota no próprio romance, é a junção de ‘ira?, mel, e ‘tembe?, lábios, alterado em ‘ceme?. O romance tem 128 páginas, e quase o mesmo tanto de notas, e mais um prólogo e mais um argumento histórico na abertura, e mais uma carta ao final. Com explicações e esclarecimentos quase obsessivos, é estranho que não seja mencionado o anagrama, tão absolutamente genial. Este anagrama foi anunciado pela primeira vez por Afrânio Peixoto, mais de sessenta anos depois da publicação do romance. Seria mais uma charada de José de Alencar para a posteridade? Poderia ter sido um anagrama feito de forma inconsciente? Iracema... América... Penso, olho novamente para o jardim, a chuva se foi.

‘O sol abre a minha janela... Chorar para espantar a quimera... Nua e clara mãe das águas, meu querer?...

>> Ana Miranda é autora de Boca do Inferno e Dias e Dias, entre outros publicados pela Companhia das Letras. Escreve quizenalmente no Vida & Arte
Numa nota ao pé da segunda página de ‘Iracema?, Alencar afirma que o nome significa ‘lábios de mel?

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29/08/2009
07:46

eifnojfc parqcvqj stsmtmyd

ATZeRZWyTbSXVqbAVE

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29/08/2009
06:07

xsznzpyk zufljtst sqsbiolb

dLQOabypBKXHXPr

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28/08/2009
23:34

thqosczh tfatiicw noxshovk

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