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Vida & Arte

Entrevista

Versos universais

Adriano Espínola escreveu a cidade em versos e rimas. a imensa paixão por sua terra natal alimenta até hoje uma saudade gostosa do ceará. Morando no Rio de Janeiro, ele ressalta que em Fortaleza compôs sua bússola poética


09 Mai 2009 - 16h37min

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Parte da obra de Adriano Espínola é dedicada à Fortaleza (Foto: DIVULGAÇÃO/ PALOMA ESPÍNOLA )
O poeta partiu. Deixou a cidade pra mais de 20 anos, mas sua memória, seu afeto e a paixão pelo Ceará permaneceram. Adriano Espínola, 57, mora no Rio de Janeiro, mas com o coração em Fortaleza, cidade onde se criou, aprendeu a versar e compôs sua bússola poética. Escreveu em rimas numa língua de vogais e consoantes aventureiras que enfrentaram ondas marítimas incessantes. “Ó língua-mar, viajando em todos nós/ No teu sal, singra errante a minha voz”, compartilhou as sensações de ser filho do Ceará e, assim, perenizou, em letras, imagens e sentimentos.

Parte da obra de Adriano Espínola é dedicada à Fortaleza, sua cidade natal. Fala, favela, 1981, Táxi, 1986 e Beira-Sol, 1997, sintetizam a experiência sensorial com a cidade. No primeiro, quando ainda morava por aqui, sensibilizou-se com o drama social vivenciado pelos moradores expulsos da Favela José Bastos. No Táxi, durante a noite, escancara a embriaguez delirante em meio às nossas ruas sombrias e asfaltadas. Boêmio inveterado, conduzido pelo desejo, o narrador passeia pela cidade à noite da Bezerra de Menezes à Praia do Futuro. Nas duas primeiras experiências literárias, veem-se elementos de uma cidade em expansão. Ao crescer, como qualquer metrópole, carrega carmas, destrezas e belezas. Espínola se misturava, nesse período, entre o drama social e amor épico.

Anos depois, ele experimentou uma nova cidade. Com Beira-Sol, traçou uma experiência plástica, contemplativa e existencial de Fortaleza. Num encarrilhado de poemas livres e soltos, ele compara as Rendeiras e os Jangadeiros com Penélope e Ulisses. Solidariza-se com os transeuntes da Praça José de Alencar, descobre as Lavadeiras da Maraponga. É uma paisagem vivida pelo poeta e relembrada sempre.

Ao falar de sua tribo, de sua cidade, Espínola galga pelo cenário literário nacional, longe, bem longe de ser tachado de escritor regionalista. Ensinamentos não os faltam nesta lição. Aprendeu com os mestres. Lembra de Goethe quando dizia que poesia estava na capacidade de “se apropriar do mundo real e expressá-lo artisticamente de forma eficaz”. E por que não lembrar de Tolstoi que depois de Goethe diria “Se pintares bem a tua aldeia, serás universal”? Sim, o Ceará, nos versos de Adriano Espínola tomam o status de universal, em especial a sua cidade querida, Fortaleza. (Tiago Coutinho)

O POVO - Nos primeiros versos do seu livro Fala, favela, você diz: “Minha cidade é meu país(...)/Fortaleza é minha pátria./ Aqui fundei a república/ de meus versos numa calçada.” Qual a importância do Ceará na sua lírica, na composição de seus versos?
Adriano Espínola - A minha poesia, suponho eu, se encontra orientada por quatro pontos cardeais: ao norte, o mar; ao sul, a cidade; ao leste, o sol e ao oeste, o amor. Embora tenha vivido desde os 18 anos noutras localidades e países, a cidade que primordialmente imantou até hoje a agulha da imaginação poética foi/é Fortaleza. Porque nela se deu a descoberta do mundo e da poesia. Menino e adolescente da praia de Iracema, do Meireles e do Mucuripe, fui marcado pela visão, o gosto e o cheiro do mar. E também pelo sol. As primeiras experiências amorosas também ocorreram na beira-mar e na praia do Futuro. Assim foi em Fortaleza que compus a minha bússola poética. E com ela me atirei no mundo. Também na cidade descobri o meu país concreto, composto de diversas classes sociais. Fala, favela pretendeu revelar um momento de injustiça e violência social, baseado num episódio real, ocorrido em 1979, quando moradores foram expulsos à força da chamada Favela José Bastos. Algo semelhante ocorreria também em quase todas as grandes cidades do Brasil.

OP - Acompanhando seus três livros, percebe-se que há uma mudança de relação com a cidade. O poeta de Beira-Sol parece admirar mais a sua terra. Quem mudou: você ou a sua terra?
Adriano - De fato, enquanto o lirismo em Fala, favela é sobretudo socialmente participativo, em Beira-Sol, seria mais contemplativo. Há, neste, um esforço de apreensão sensorial, plástica, dos seres e das coisas recortados pela luminosidade solar intensa, incisiva sobre a cidade, plantada à beira-mar “Por aqui o sol dispara/luz cortante de peixeira,/ o gume aceso do dia/retalhando as cumeeiras”. A claridade de Fortaleza sempre me impressionou muito, me marcou até, não só na pele mas na alma. Com ela, busquei expressar o fulgor existencial das coisas, da paisagem física, humana e social, como, por exemplo, no poema Praça ou no Mucuripe, peixe e paixão. Trata-se da vertente apolínea, diurna, do meu trabalho. Já no Táxi, predomina a dionisíaca, noturna. O poema é narrativo e veloz, atravessando praticamente toda a cidade de Fortaleza: vai da Avenida Bezerra de Menezes à Praia do Futuro, empurrado por Eros, que conduz no banco traseiro de um carro a paixão de um casal, a caminho do último motel da Praia do Futuro. Esses três livros, em síntese, enfocam de maneira diversa e, diria eu, complementar, Fortaleza. Fala, favela é um ponto de vista socialmente dramático; Beira-Sol é existencialmente lírico; Táxi é amorosamente épico. Portanto, a mudança que houve foi de perspectiva e de gênero por parte do poeta.

OP - São perceptíveis nesses três livros as referências diretas a Fortaleza. Como escrever sobre um local sem cair nas amarras do regionalismo?
Adriano - Creio que todo escritor já se deteve sobre essa questão. Daí a conhecida lição de Tolstoi: “Se pintares bem a tua aldeia, serás universal”. Goethe antes dele refletiu sobre o assunto, ao comentar para o seu interlocutor Eckermann, em 1826, uma falha fundamental no famoso improvisador Dr. Wolff de Hamburgo: a incapacidade deste de alcançar a objetividade ao descrever a sua cidade. Poeta, conclui Goethe, será aquele capaz de se apropriar do mundo real e expressá-lo artisticamente de forma eficaz, livrando-se dos sentimentos subjetivos. Marx já falava no momento de humanidade que o artista reflete num dado momento histórico. Penso que esse momento de humanidade pode também ser artisticamente expresso num determinado espaço ou região. Porque o universal por si só dificilmente se sustenta; necessita quase sempre de se encarnar no particular, na experiência concreta, sensível. Foi pensando assim que escrevi principalmente o Táxi. Quando, em 1988, fui convidado para falar sobre o poema na universidade da Flórida, em Gainesville, a professora e crítica literária Elizabeth Lowe, ao me apresentar, destacou o fato de que o poema apesar de profundamente enraizado em Fortaleza expressava o drama humano que poderia ser visto em qualquer grande cidade. Nesta hora, pensei: “consegui”. Alguns anos depois o livro seria publicado em Nova York e Londres, na coleção World Literature Today, da editora Garland. Quanto ao meu processo de criação artístico, não saberia descrevê-lo bem, pois esta matéria tem lá seus mistérios. Sei que é uma mistura danada de intuição, sonho, observação das coisas, imaginação, ideias, etc, que de repente se juntam no momento da inspiração ou insight. Depois, trabalho, muito trabalho, com a linguagem, pois como dizia Paul Valéry, o primeiro verso os deuses dão, o resto é com o poeta.

OP - São mais de 20 anos entre Fala, favela e Beira-Sol. Quais são as principais melhorias e/ou mudanças perceptíveis no Ceará?
Adriano - Desde o início da década de 1980, quando publiquei Fala, favela, Fortaleza vem se desenvolvendo de forma acentuada. O espaço urbano ampliou-se notavelmente, com muitas edificações, assim como as opções gastronômicas, comerciais e de lazer. Ocorreu a reforma do calçadão da beira-mar, desde a ponte metálica até o Mucuripe. A Praia de Iracema, que na minha época de boemia, resumia-se ao Estoril algo decadente, onde pontificava, aliás, o saudoso Rogaciano Leite Filho, ampliou a sua vida noturna, para agora conhecer novamente a decadência. No plano cultural, a criação do Centro Dragão do Mar foi uma melhoria extraordinária para a cidade. Sempre que volto a Fortaleza, passo por lá. Acrescente aí a reforma do Teatro José de Alencar. A democratização do espaço cultural do Ideal Clube, ao lado da consolidação do simpaticíssimo Clube do Bode, onde se reúnem às sextas e sábado intelectuais e artistas, sob a liderança do livreiro Sérgio Braga.

OP - Você mora hoje no Rio de Janeiro. Quais são as principais lembranças, saudades e memórias que tem do Ceará?
Adriano - Lembro-me das praias de Iracema, do Meireles e do Mucuripe, onde ia com meus irmãos e amigos “pegar carretilha” ou pescar de vara e de linha. Lembro-me também das mangueiras e cajueiros frondosos, que cresciam nos quintais dos vizinhos e nos muitos terrenos baldios que existiam na época, na Aldeota e adjacências. (Hoje, as áreas verdes cada vez mais raras). Lembro-me sempre do bosque do Curso de Letras, na UFC, onde me formei e mais tarde passei a lecionar. De comer caranguejo com cerveja, na Praia do Futuro, de beber água de coco, na Volta da Jurema, para ali ver o pôr do sol, de traçar um sirigado na brasa, no antigo Country Club, e de comer uma peixada à beira-mar, olhando as jangadas ali em frente. E por aí vão algumas saudades e lembranças da terra. Sem falar nas pessoas, familiares e amigas, cujos rostos e vozes (alguns perdidos) sempre me acompanham.

OP - Morando no Rio, talvez seja bem provável que sempre escute brincadeiras conhecidas como “existe cearense em todo lugar”. Quais são as brincadeiras mais recorrentes que você escuta estando no Rio de Janeiro? Percebe algum tipo de preconceito?
Adriano - Logo que aqui cheguei, em 1986, eram frequentes essas brincadeiras. Não só comigo, mas com meus filhos, na escola. Hoje, porém, mais conhecido no meio literário e acadêmico, não mais sinto isso, tampouco meus filhos que aqui cresceram e se educaram. Sou o primeiro, em algumas ocasiões, a me gozar, ao lembrar que não passo de um pau de arara, de um pobre poeta da praia de Iracema, o que é verdade. À medida, porém, que o nosso trabalho se torna mais conhecido e respeitado, costumo lembrar a grande tradição cultural/literária do Ceará, que vem de Alencar a Rachel de Queiroz, os quais por sinal aqui se fizeram. Quanto a eventual preconceito, pode ser que exista por parte de alguns, mas até agora penso que pouco me afetou. O carioca, assim como o cearense de Fortaleza, guardam, aliás, muitas afinidades. Como, por exemplo, a cultura da praia, a informalidade, o grande senso de humor, a malícia na ponta da língua, a criatividade e senso de oportunidade. Também compartilham o gosto pela música. Quanto ao trabalho, o cearense talvez seja mais obstinado, dedicado, em decorrência provável do desejo de vencer e de se impor.

OP - Você possui orgulho de ser cearense?
Adriano - É claro que tenho orgulho de ser cearense. Um dos motivos é que me sinto de certa forma herdeiro da grande tradição literária da terra, que, desde a segunda metade do século XIX, vem se impondo com muita criatividade e raça. Orgulho de pertencer a um povo capaz de superar obstáculos de toda ordem. Dotado de fé e ao mesmo tempo de humor irresistível até nos momentos mais duros. Sobretudo quando está fora do seu meio e busca se afirmar, lutando por aquilo em que acredita. De natureza errante, não tem medo de mudar e de sonhar.


POEMAS

RESIDÊNCIA
O corpo de minha cidade
é um naco de terras à beira-amar.
Nele, as ondas quebram
o tempo pode entre as pedras.
As dunas empinadas apontam-no
para o céu de minha boca.
Traz sobre as ancas
um sol selvagem tatuado.
Um riacho corre até à foz
de seu sexo salitroso.
Pássaros marinho migram
de seus olhos para as mãos.
Esquinas e gestos logo irrompem
sobre a praça de seu ventre.
Pelas ruas diariamente atravesso
o mapa de seu sangue.
Amar esta mulher é habitá-la.

O JANGADEIRO
Jangadas amarelas, azuis, brancas,
logo invadem o verde mar bravio.
o mesmo que Iracema, em arrepio,
sentiu banhar de sonho as suas ancas.
Que importa a lenda, ao longo, na história,
se elas cruzam, ligeiras, nesse instante,
o horizonte esticado da memória,
tornando o que se vê mito incessante?
As velas vão e voltam, incontidas,
sobre as ondas (do tempo). O jangadeiro
repete antigos gestos de outras vidas
feitas de sal e sonho verdadeiro.
Qual Ulisses, buscando, repetino,
a sua ilha, o seu rosto e o
seu destino.

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29/08/2009
04:28

kllkppbf htpzzblz fuudptys

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29/08/2009
01:14

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28/08/2009
23:34

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