Vida & Arte
Artigo
Por que não me orgulho
Com sua cinematografia refletindo questões da cultura popular sertaneja, o cineasta rosemberg cariry abre polêmica sobre "controversa cearensidade"
Rosemberg Cariry
especial para O POVO
11 Mai 2009 - 01h29min
"O que há de terrível na busca da identidade é constatar que se trata de um segredo que não nos pertence, como algo que nos tivesse sido roubado antes mesmo que viéssemos a possuí-lo"
Franklin Leopoldo e Silva
Nascer em um país, em uma região ou estado, não é uma opção, é uma contingência. Faz parte da condição humana. O mesmo se pode dizer em relação à raça, cor ou ao sexo. Por que nos orgulharíamos mesmo de uma coisa, a qual não escolhemos e de uma pertença que não decidimos ter? Orgulho de ser branco cheira a racismo. Orgulho de ser negro cheira a quê? Orgulho de ser macho cheira a estupidez. Orgulho de ser gay cheira a quê? Orgulho de ser nacionalista cheira fascismo. Orgulho de ser cearense cheira a quê?
Sinto-me bem sendo cearense e tenho um profundo sentimento de pertencimento à paisagem e à cultura que nomeamos cearenses. Todo o meu cinema tem sido uma busca de revelação da paisagem, da história e da cultura cearenses. Não por ser a paisagem cearense a mais bela, a história cearense a mais significativa, ou a cultura cearense, superiores a de outros povos. Procuro nesta cultura, em sua particularidade, o que ela reflete de pluralidade e herança de outros povos para, a partir daí, se reinventar. Faço cultura no Ceará, revelando a história e a arte do povo cearense, por sentimento de pertencimento à humanidade. Somos mestiços, caboclos, mulatos, sararás, herdeiros de outros povos e mundos. Somos universais e a compreensão desta universalidade é que nos faz profundamente cearenses. Mas o que mais nos faz cearense? Como explicar esse complexo de inferioridade que nos leva muitas vezes a nos orgulhar do que somos, em meio a delírios e irrealidades, ao mesmo tempo em que não conseguimos nos olhar em um espelho? E o destino de ser ave de arribação, quando somos expulsos da terra e dos sonhos, cumprindo o destino de Moacir, o filho “da outra”? Será que nos odiamos porque, no mito fundador, nascemos desta mãe índia violada e fomos negados pelo pai poderoso e branco? Sonhamos com a casa grande e desprezamos tudo que é taba e senzala? Seríamos inocentes diante da história? Não servimos em armas ao nosso pai branco, massacrando outras nações indígenas, os irmãos das nossas mães? Não fomos capitães-do-mato e nos orgulhamos de ser brancos, ou quando menos, caboclos sem sangue de negro? Que escravos libertamos? Quantos? Somos mesmo a terra da Liberdade? Temos quatro milhões de miseráveis, quando vamos libertá-los? Onde está o novo Dragão do Mar ou o novo Dragão do Sertão? Falando de “orgulho”, nos libertaremos ou seremos ainda mais escravos das ilusões e das propagandas inócuas?
Não erguemos, sobre os escombros da história, com a argamassa de ossos e sangue, esta cidadela disforme, sem cara, sem saudades e sem memória, que chamamos Fortaleza? Por que o passado nos assombra? Sem ele, como construiremos o futuro? Por que Fortaleza está sempre de costas para o sertão? Envergonha-se ainda dos retirantes que mandava confinar em currais? São os descendentes destes mesmos retirantes os que hoje engrossam os guetos da periferia? E os nossos industriais ainda cheiram a couro de bode, apesar do verniz moderno? O sertão é o atraso? Mais não foi do sertão que veio a grande renovação das artes cearenses contemporâneas? Não foi do sertão que veio o sopro ancestral e pós-moderno das artes populares que começam a construir uma das caras do Ceará? Hoje, já cuspimos menos nos nossos cegos de feira e nos nossos artistas populares. No início do século XX, queríamos destruir o Juazeiro, a quem os bem-pensantes intelectuais da provinciana Fortaleza, cheirando a perfume barato e com sotaque francês, chamavam de “cancro do analfabetismo, do fanatismo e do atraso”, assim como destruímos o negro José Lourenço e a sua comunidade do Caldeirão. Mas Juazeiro não é hoje o Caldeirão das Culturas dos povos do Nordeste? Não seria ela um grande ensaio civilizatório de um Brasil autêntico e profundo? Não é o que Darcy Ribeiro poderia chamar de “Roma Tardia”, por conta da grandeza dos seus artistas “populares”, dos seus profetas, dos seus santos, dos seus artífices? Nos orgulhamos desta Juazeiro popular – Meca do Nordeste? Em verdade, queremos ser brancos e progressistas, com as idéias enferrujadas da Europa do final do século XIX, mirando-se Fortaleza nos escombros de Miami? Por que destruímos todo o litoral e as comunidades de pescadores? Por que destruímos quase todos nossos índios e nos orgulhamos do decreto provincial de 1863, a dizer que não existiam mais índios no Ceará? Nos reconhecíamos, por termos massacrados as nações indígenas, como povo civilizado, finalmente livre dos bárbaros? Por que não reconhecemos os povos indígenas que sobreviveram e que hoje lutam pelas suas terras? Por que jogamos na lama a nossa dignidade e permitimos a prostituição da nossa infância, no mercado internacional dos horrores, a que chamamos turismo? Será que não confundimos a servidão com a hospitalidade, a submissão com o orgulho, a venda da dignidade com o desenvolvimento?
Não vejo do que ter orgulho por pertencer a um lugar ou a uma cultura. Talvez eu possa agradecer por ter convivido, neste espaço e neste tempo que me foi dado sobreviver, com homens e mulheres que são exemplos de dignidade e grandeza. Poderíamos ainda citar, como motivo de orgulho, uma lista de cearenses notáveis, numa lista interminável de estrelas que iluminaram e iluminam a escuridão dos séculos na terra desolada. Acontece que estes cearenses ilustres poderiam ter nascido no Piauí, na Bahia, na Alsácia ou em Honolulu. Para nossa sorte, nasceram eles no Ceará e isto nos faz menos pobres. Ficaremos orgulhosos por isto ou reconheceremos os seus talentos e desenvolveremos seus ideais? O que dizer dos milhares de protagonistas anônimos da nossa cultura e história, dos que migraram, dos que sobreviveram às secas e cheias, à fome e à falta de direitos, das mulheres que nos amaram e nos pariram, dos que lavraram a terra e nos alimentaram, dos que nos deram a vida e morreram para que pudéssemos hoje estar aqui a falar dessa controversa cearensidade, uma invenção ao lado de tantas outras, que nos faz crer numa certa identidade.
Tudo é provisório.
ROSEMBERG CARIRY é cineasta.
Franklin Leopoldo e Silva
Nascer em um país, em uma região ou estado, não é uma opção, é uma contingência. Faz parte da condição humana. O mesmo se pode dizer em relação à raça, cor ou ao sexo. Por que nos orgulharíamos mesmo de uma coisa, a qual não escolhemos e de uma pertença que não decidimos ter? Orgulho de ser branco cheira a racismo. Orgulho de ser negro cheira a quê? Orgulho de ser macho cheira a estupidez. Orgulho de ser gay cheira a quê? Orgulho de ser nacionalista cheira fascismo. Orgulho de ser cearense cheira a quê?
Sinto-me bem sendo cearense e tenho um profundo sentimento de pertencimento à paisagem e à cultura que nomeamos cearenses. Todo o meu cinema tem sido uma busca de revelação da paisagem, da história e da cultura cearenses. Não por ser a paisagem cearense a mais bela, a história cearense a mais significativa, ou a cultura cearense, superiores a de outros povos. Procuro nesta cultura, em sua particularidade, o que ela reflete de pluralidade e herança de outros povos para, a partir daí, se reinventar. Faço cultura no Ceará, revelando a história e a arte do povo cearense, por sentimento de pertencimento à humanidade. Somos mestiços, caboclos, mulatos, sararás, herdeiros de outros povos e mundos. Somos universais e a compreensão desta universalidade é que nos faz profundamente cearenses. Mas o que mais nos faz cearense? Como explicar esse complexo de inferioridade que nos leva muitas vezes a nos orgulhar do que somos, em meio a delírios e irrealidades, ao mesmo tempo em que não conseguimos nos olhar em um espelho? E o destino de ser ave de arribação, quando somos expulsos da terra e dos sonhos, cumprindo o destino de Moacir, o filho “da outra”? Será que nos odiamos porque, no mito fundador, nascemos desta mãe índia violada e fomos negados pelo pai poderoso e branco? Sonhamos com a casa grande e desprezamos tudo que é taba e senzala? Seríamos inocentes diante da história? Não servimos em armas ao nosso pai branco, massacrando outras nações indígenas, os irmãos das nossas mães? Não fomos capitães-do-mato e nos orgulhamos de ser brancos, ou quando menos, caboclos sem sangue de negro? Que escravos libertamos? Quantos? Somos mesmo a terra da Liberdade? Temos quatro milhões de miseráveis, quando vamos libertá-los? Onde está o novo Dragão do Mar ou o novo Dragão do Sertão? Falando de “orgulho”, nos libertaremos ou seremos ainda mais escravos das ilusões e das propagandas inócuas?
Não erguemos, sobre os escombros da história, com a argamassa de ossos e sangue, esta cidadela disforme, sem cara, sem saudades e sem memória, que chamamos Fortaleza? Por que o passado nos assombra? Sem ele, como construiremos o futuro? Por que Fortaleza está sempre de costas para o sertão? Envergonha-se ainda dos retirantes que mandava confinar em currais? São os descendentes destes mesmos retirantes os que hoje engrossam os guetos da periferia? E os nossos industriais ainda cheiram a couro de bode, apesar do verniz moderno? O sertão é o atraso? Mais não foi do sertão que veio a grande renovação das artes cearenses contemporâneas? Não foi do sertão que veio o sopro ancestral e pós-moderno das artes populares que começam a construir uma das caras do Ceará? Hoje, já cuspimos menos nos nossos cegos de feira e nos nossos artistas populares. No início do século XX, queríamos destruir o Juazeiro, a quem os bem-pensantes intelectuais da provinciana Fortaleza, cheirando a perfume barato e com sotaque francês, chamavam de “cancro do analfabetismo, do fanatismo e do atraso”, assim como destruímos o negro José Lourenço e a sua comunidade do Caldeirão. Mas Juazeiro não é hoje o Caldeirão das Culturas dos povos do Nordeste? Não seria ela um grande ensaio civilizatório de um Brasil autêntico e profundo? Não é o que Darcy Ribeiro poderia chamar de “Roma Tardia”, por conta da grandeza dos seus artistas “populares”, dos seus profetas, dos seus santos, dos seus artífices? Nos orgulhamos desta Juazeiro popular – Meca do Nordeste? Em verdade, queremos ser brancos e progressistas, com as idéias enferrujadas da Europa do final do século XIX, mirando-se Fortaleza nos escombros de Miami? Por que destruímos todo o litoral e as comunidades de pescadores? Por que destruímos quase todos nossos índios e nos orgulhamos do decreto provincial de 1863, a dizer que não existiam mais índios no Ceará? Nos reconhecíamos, por termos massacrados as nações indígenas, como povo civilizado, finalmente livre dos bárbaros? Por que não reconhecemos os povos indígenas que sobreviveram e que hoje lutam pelas suas terras? Por que jogamos na lama a nossa dignidade e permitimos a prostituição da nossa infância, no mercado internacional dos horrores, a que chamamos turismo? Será que não confundimos a servidão com a hospitalidade, a submissão com o orgulho, a venda da dignidade com o desenvolvimento?
Não vejo do que ter orgulho por pertencer a um lugar ou a uma cultura. Talvez eu possa agradecer por ter convivido, neste espaço e neste tempo que me foi dado sobreviver, com homens e mulheres que são exemplos de dignidade e grandeza. Poderíamos ainda citar, como motivo de orgulho, uma lista de cearenses notáveis, numa lista interminável de estrelas que iluminaram e iluminam a escuridão dos séculos na terra desolada. Acontece que estes cearenses ilustres poderiam ter nascido no Piauí, na Bahia, na Alsácia ou em Honolulu. Para nossa sorte, nasceram eles no Ceará e isto nos faz menos pobres. Ficaremos orgulhosos por isto ou reconheceremos os seus talentos e desenvolveremos seus ideais? O que dizer dos milhares de protagonistas anônimos da nossa cultura e história, dos que migraram, dos que sobreviveram às secas e cheias, à fome e à falta de direitos, das mulheres que nos amaram e nos pariram, dos que lavraram a terra e nos alimentaram, dos que nos deram a vida e morreram para que pudéssemos hoje estar aqui a falar dessa controversa cearensidade, uma invenção ao lado de tantas outras, que nos faz crer numa certa identidade.
Tudo é provisório.
ROSEMBERG CARIRY é cineasta.
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