Vida & Arte
Artigo
Por que não me orgulharia?
O jornalista Plínio Bortolotti rebate os argumentos do cineasta Rosemberg Cariry expressos no artigo ‘Por que não me orgulho’, publicado no Vida & Arte da última segunda (11)
Plínio Bortolotti
da Redação
15 Mai 2009 - 00h41min
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
Fernando Pessoa (pelo heterônimo Alberto Caeiro)
O respeitado cineasta Rosemberg Cariry escreveu o artigo “Por que não me orgulho”, uma referência direta – não citada no texto – à campanha sobre autestima cearense, que O POVO está promovendo. No texto (caderno Vida & Arte, 11/5) Rosemberg desfia argumentos para negar e mesmo combater o orgulho de ser cearense.
Ele começa dizendo que é o acaso que nos faz nascer aqui ou alhures, o que procede. Mas o mesmo acaso acontece quando somos paridos ou quando geramos. E por que amamos tanto os nossos pais? Por que nos orgulham dos nossos filhos? Portanto, em muitos casos, existem outras forças a contribuírem para que se transforme em amor e orgulho o que era apenas “acaso”.
Depois, ele diz que se alguém se orgulhasse ser branco – o que também é uma contingência – seria racismo. OK, mais uma vez concordo. Em seguida, pergunta a que “cheira” ter orgulho de ser negro, sugerindo que seria tão preconceituoso quanto vangloriar-se de ser branco. Aqui, discordamos.
Os brancos não sofrem preconceito e nem foram submetidos à escravidão por causa da cor da pele. Portanto, um estudo antropológico não só explicaria como justificaria o “orgulho de ser negro”, como uma proposta de afirmação. Por isso, não é ofensivo um ouvir um “branco azedo”, mas o é usar a palavra “negro” como se fosse xingamento. O mesmo se poderia dizer de outras minorias sociais.
Mas Rosemberg confessa que se sente “bem” sendo cearense. Diz que seu cinema é voltado para revelar a “pluralidade” da cultura cearense, buscando captar a herança de outros povos “para, a partir daí, se reinventar”. É verdade, podemos dizer que a obra de Cariry é uma ode ao Ceará, um elogio ao seu caldeirão de etnias e culturas e o que daí resultou.
Mas o fato é que Rosemberg não está sozinho na dificuldade em assumir o orgulho de ser cearense. Junto dele está um setor importante da academia, que não tem a coragem intelectual que teve Rosemberg, de expor seus argumentos à luz do dia.
Argumentos diferentes, diga-se, dos apresentados pelo cineasta. Esses “intelectuais” preferem o desprezo à cultura popular, a ironia ao modo de falar “errado” do sertanejo – demonstrando preconceito linguístico inaceitável – e a maledicência intramuros.
O interessante é que as pessoas simples, as mais castigadas pelas forças da natureza e pelos problemas sociais, essas não têm vergonha de manifestar o seu orgulho pela terra em que nasceram ou adotaram. Agora, um certo setor da “intelectualidade” cearense faz questão de mostrar-se divorciado de seu próprio povo. (Crítica esta, justiça seja feita, que não cabe a Rosemberg.)
Mas, caro Antônio Rosemberg de Moura, me explique uma coisa. Por qual esconsa razão, você, que não se orgulha de ser cearense, incorporou ao seu nome o nome de sua aldeia? (Aquela mesma, que só se deixa no último pau-de-arara.) Foi um ato inconsciente, um arroubo da juventude, ou um chamado atávico em direção àquilo que – sempre – nos alimenta, nos forma e nos fortalece?
Plínio Bortolotti é diretor institucional de O POVO. E-mail: plinio@opovo.com.br
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29/08/2009
07:46
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