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Pinga-pinga

Anamburucu

Uma mancha borrando os céus. Aos poucos, o contista Rodrigo Marques revela o escondido dentro das nuvens estranhas que se aproximavam da cidade de Fabiano

Rodrigo Marques
especial para O POVO

23 Mai 2009 - 16h02min

As chuvas fortes também castigaram a população de Itaiçaba

À primeira vista, só uma mancha longe borrando o céu, uma pancada roxa, um hematoma na altura do pescoço. As formigas se batiam avulsas na luz amarelada do oitão. O menino agarrou uma bem magra, queria deixar a formiga só o casco, montar um helicóptero. Esse ano vai ser bom. Soltaram fogos.

Parece que o pessoal da serrinha andava assustado. À noite, ela descia e deixava o chão todo empapado, enlesmado, uma farofa de anteontem. Fotografias. Os meninos punham pegadas na estrada a brincar de bicho, porcos, ou de disco voador. Fabiano sentia a platina do braço. Igual assim, só um ano antes de eu nascer. Apenas a torre da igreja ficaria com a cabeça de fora. Por enquanto era só uma mancha que crescia longe, uma pancada, um hematoma.

Por fim, o dia apareceu limpo, o calor pisava. Não se via claro a mancha escura que desde antes assustava o povo da serrinha, era mais uma torneira aberta, pinga-pinga. Talvez fosse melhor rezar, pedir a Deus que aquele vulto não se espalhasse. Poderia acordar revirando tudo, a casa, a geladeira, os móveis, melhor trepar os utensílios numa árvore, cobrir tudo, salvar os bichos. Santa Clara! A mancha rodando a casa, urubu por cima, urubu cascavilhou o pensamento nosso e alheio, enfiou o dedo nos olhos das crianças, criou cobra no assoalho.

O calor da noite aumentara. Até que a mancha roxa desceu do céu, uma perna, depois outra, contorceu-se, atirou um choro de menino novo. No quarto, as dores cresciam. As dores eram uma goteira numa bacia de alumínio. Aquela mancha que assustou o povo da serrinha estava com uma tromba no rosto, ganesha, os olhos acessos, a língua solta, os pés que ninguém via, com vontade de levar as sementes plantadas. Os habitantes detrás foram os primeiros a desaparecer na grande mancha de tromba de elefante. A platina de Fabiano doía mais. Um homem se encolheu no alto da torre da igreja. As formigas continuaram rondando a luz amarelada do oitão. Talvez aquilo não passasse de uma grande mentira, um filme rodado numa terra seca, uma tempestade de ventilador e areia. Uma cobra apareceu e sumiu. O gigante, de marcha lenta, pela cidade inteira, assaltava com seus pés invisíveis o íntimo das pessoas. Fabiano deu dois tiros para cima. Fogos. Festa.

>> RODRIGO MARQUES nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1980. É mestre em Literatura Brasileira pela UFC, onde defendeu dissertação sobre o poeta José Albano. Poeta e crítico literário, também envereda pela “Literatura para infância”. Publicou A Hora do Cururu, um livro artesanal e o romance Fazendinha (Cavalo Marinho, Fortaleza: 2005), que foi vencedor do II Edital de Incentivo às Artes do Governo do Estado do Ceará em literatura infantil.

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27/05/2009
17:26

A chuva-bem-vinda se adiantou uns 4 anos e nós já estamos com saudades. Foi a única que conheci, "será que vai dá milho e feijão no roçado esse ano?" Hê... época boa pra se ficar em casa alimentando as esperanças de tempo bonito pra chuver.

Rosangela

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25/05/2009
13:26

Tudo fora inundado pela enchente rio a fora, só restou a esperança e a força para conseguir tudo novamente.

Rêmulo

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