Vida & Arte
Dá-no-pé
As galinhas morreram todas
Fernando, o louco, diz: tragédia pouca é bobagem. Mesmo sob chuva torrencial e vivendo em estado de calamidade pública, o prefeito de Dá-no-pé aproveita o desespero da população para lavar o caixa da cidade
Henrique Araújo
especial para O POVO
23 Mai 2009 - 16h02min
Logo quando começou a chover Fernando saiu de casa repetindo a quem encontrasse na rua que a água germina desjuízos e, mais dia, menos dia, todos sem exceção seriam tomados de qualquer coisa assim parecida com um sentimento tresvaliantemente inconexo, qualquer coisa que poria galinhas fora dos poleiros e porcos fora dos chiqueiros e como se não bastasse pássaros fora das gaiolas e putas fora dos puteiros. Depois realmente não tinha jeito que desse jeito naquele aguaceiro tamanho vindo sabe-se Deus de onde mas que por ordem das forças gravitacional (F=G. M1.M2/d²) e divina (fórmula desconhecida) banhava os corpos habitantes da cidade de Dá-no-Pé, distante alguns quilômetros da vila mais distante que se possa imaginar.
Então era lá que Fernando vivia, lá vivia o prefeito, lá viviam os donos da venda, da farmácia, da casa de tolerância, da delegacia, da igreja. Lá viviam todos antes das chuvas que vinham de algum lugar estranhamente úmido. Do entrepernas divino? Dos olhos, das virilhas, dos cabelos? Vinham cheias de volúpia destrutiva e varriam sem dó as casas, lavavam móveis e geladeiras e fogões e panelas e lençóis. As chuvas deixavam dedos crus, as pernas antes quentes agora geladas, os cabelos ontem enxutos hoje molhados. Gentes perdiam as vergonhas, corpos banhados. Mas lá também viviam gatos, cachorros, traficantes, estupradores, sonegadores, garçons, coveiros. Lá viviam os loucos da terra e do ar.
E lá vivia Fernando, que era exatamente aquele que saíra correndo quando as primeiras chuvas começaram a cair de verdade, quando as gotas de tão grandes não podiam ser contidas ou aparadas ou mesmo detectadas por sistemas antigotas e quando os de Dá-no-pé pensavam realmente que podia acontecer algo pior caso o pior acontecesse. Porque as gotas eram simplesmente queda: pá. E Fernando corria, todo murmúrios sem dicção clara, todo nomes impróprios. “Deus vai punir cada ladrão, cada ladrão, que se chama...”, e dizia o nome do prefeito, por exemplo, que era mesmo um ladrão mas, segundo padrões absolutamente heterodoxos, era alguém estritamente irrepreensível, alguém cuja conduta podia envergonhar qualquer não-habitante de Dá-no-pé mas não o habitante nativo de Dá-no-pé.
O prefeito, Osvaldo seu nome, havia aproveitado as chuvas todas que tinham sido anunciadas no rádio nos intervalos do programa policial e na rede local de televisão e na intranet da paróquia e no Twitter da puta mais velha para comprar dez colchões Ortobom, quinze filtros, meia dúzia de ovos, trinta quilos de carne de carneiro, a parte traseira de uma vaca bem gorda, meia saca de feijão e algumas compotas de doce caseiro e ainda aguardente em abundância. Distribuiu tudo entre os parentes. E, na hora da chuva, todos ocupados com os trapos velhos e imprestáveis e totalmente necessários só os havia e não outros, apenas Fernando acudia cheio desse bom-senso maledicente quase pornográfico. “Socorram, a chuva lava, mas o prefeito é quem varre!”
Ninguém via, ninguém ouvia. Quem por descuido ouvia ou via ou supunha haver visto o que quer que fosse, logo dizia sem pestanejar, sem medidas, prontamente: desarrazoado. “Fernando é doido de pedra, não sabe nada que fala”. Outro: “Fernando comeu feijão quente e saiu na chuva, endoideceu”. Mais outro: “Está possuído”. Ainda: “Tem o diabo nos couros”. Derradeiro: “É a falta de uma mulher”. E por aí se iam os dizeres em essência desfavoráveis a Fernando, que seguia numa carreira desabalada cujo final só foi possível quando, ao cabo das fartas horas de chuva grossa, os muitos pobres desacorridos, soltos, boiando nas águas feito as folhas do cajueiro, os meninos moleques dando tainhas mil, o tempo levemente aberto mas cheio dessas nuvens cor de breu cismando ali, por trás da serra, ele assustado e enternecido percebeu que as suas galinhas tinham realmente morrido. Encharcadas, haviam sido varridas pela chuva, presas que estavam no galinheiro: Francesa, Margô e Vânia. Mortas. Chorou, jurou vingança eterna, mas foi recolhido da ira por um pensamento em nada compensatório: “Morreram, sim, mas todas de papo cheio”.
>> HENRIQUE ARAÚJO, 28, é estudante de jornalismo. Em 2007, foi um dos ganhadores do Edital das Artes (categoria Criação Literária) da Secretaria de Cultura do Município de Fortaleza. Escreve em www.henriquearaujo.blogspot.com.
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