Vida & Arte
Enchentes
Vidas submersas
Reféns das águas, milhares de pessoas sofrem com as últimas chuvas no interior cearense. Convidados a ficcionalizar o drama dos refugiados, escritores recriam a dor – e a loucura – dos corpos submersos
Alan Santiago e Henrique Araújo
especial para O POVO
23 Mai 2009 - 16h02min
No último 13 de maio, o jornal O POVO noticiava: “As inundações causadas pelas chuvas na Região do Jaguaribe são agravadas pelas águas que caem no maior açude do Estado, o Castanhão. E se não fosse ele, a situação seria pior”. Adiante, a repórter Daniela Nogueira informa: “São 1.200 metros cúbicos (m³) de água derramados por segundo no açude. Desse total, ele retém 300 m³ e solta o resto (900 m³), que cai nas cidades mais baixas. Se o Castanhão não existisse, todos esses 1.200 m³ cairiam direto nas cidades do Médio e do Baixo Jaguaribe”.
Mesmo existindo, o Castanhão e outros anteparos não puderam evitar a tragédia causada pelas chuvas dos últimos meses. Acostumados a festejarem a quadra invernosa, a esperarem-na ansiosamente, habitantes de cidades do interior cearense foram apanhados por uma fúria semelhante às das pragas bíblicas – mas apenas em sua capacidade de destruição. De resto, o peso da irresponsabilidade do homem permanece gerando os maiores danos.
Quando começaram a cair, as chuvas poderiam até ser bálsamo – e eram mesmo. Irrigavam as colheitas, arejavam os ares quentes do sertão, arrefeciam o sol causticante. Milhares de pessoas desabrigadas depois, aquelas águas, despejadas do céu como se deuses loucos houvessem decidido abrir as comportas de um imensurável reservatório, viraram tormento para o Ceará - e também Maranhão e Piauí, que formam juntos a tríade de estados mais atingidos.
Os números da Defesa Civil, que fazem as listas e boletins diários parecerem incríveis, escondem os reflexos de tanta água no imaginário dos que vivem sobre o solo cristalino do sertão. Hoje, o Vida & Arte Cultura projeta ficcionalmente o tema. Convida escritores e escritoras não para resolver, por meio da literatura, o que quer que seja – porque palavras soam brinquedos nessas horas -, mas tratar dessa matéria e, de algum modo, contribuir para que os refugiados das chuvas não tenham que se haver com a força tempestuosa das águas na próxima quadra invernosa. Participam do caderno Mariana Marques, Alan Santiago, Rodrigo Marques e Henrique Araújo.
Leia o conto Cama de Baleia, do escritor Dimas Carvalho em: www.opovo.com.br/conteudoextra
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