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Vidas submersas

Reféns das águas, milhares de pessoas sofrem com as últimas chuvas no interior cearense. Convidados a ficcionalizar o drama dos refugiados, escritores recriam a dor – e a loucura – dos corpos submersos

Alan Santiago e Henrique Araújo
especial para O POVO

23 Mai 2009 - 16h02min

Se não fosse o Castanhão, maior açude do Estado, a situação das inundações causadas pelas chuvas seria ainda pior(Foto: FCO FONTENELE)
O último boletim divulgado pela Secretaria Nacional de Defesa Civil antes do fechamento desta edição do Vida & Arte Cultura, na última quinta-feira (20), trazia números alarmantes: no País, são “254.361 mil pessoas desalojadas – hospedadas com amigos e familiares, e 122.611 mil desabrigadas”, cujas vidas dependem de abrigos públicos. Por trás desses dados, o mesmo fenômeno: as chuvas acima da média que têm castigado principalmente as regiões Norte e Nordeste. No Ceará, ainda segundo a SNDC, são 81 municípios atingidos pelas chuvas, 38.568 mil desalojados e 25.994 mil desabrigados. Até agora, 45 mortes foram verificadas, 15 delas no Estado.

No último 13 de maio, o jornal O POVO noticiava: “As inundações causadas pelas chuvas na Região do Jaguaribe são agravadas pelas águas que caem no maior açude do Estado, o Castanhão. E se não fosse ele, a situação seria pior”. Adiante, a repórter Daniela Nogueira informa: “São 1.200 metros cúbicos (m³) de água derramados por segundo no açude. Desse total, ele retém 300 m³ e solta o resto (900 m³), que cai nas cidades mais baixas. Se o Castanhão não existisse, todos esses 1.200 m³ cairiam direto nas cidades do Médio e do Baixo Jaguaribe”.

Mesmo existindo, o Castanhão e outros anteparos não puderam evitar a tragédia causada pelas chuvas dos últimos meses. Acostumados a festejarem a quadra invernosa, a esperarem-na ansiosamente, habitantes de cidades do interior cearense foram apanhados por uma fúria semelhante às das pragas bíblicas – mas apenas em sua capacidade de destruição. De resto, o peso da irresponsabilidade do homem permanece gerando os maiores danos.

Quando começaram a cair, as chuvas poderiam até ser bálsamo – e eram mesmo. Irrigavam as colheitas, arejavam os ares quentes do sertão, arrefeciam o sol causticante. Milhares de pessoas desabrigadas depois, aquelas águas, despejadas do céu como se deuses loucos houvessem decidido abrir as comportas de um imensurável reservatório, viraram tormento para o Ceará - e também Maranhão e Piauí, que formam juntos a tríade de estados mais atingidos.

Os números da Defesa Civil, que fazem as listas e boletins diários parecerem incríveis, escondem os reflexos de tanta água no imaginário dos que vivem sobre o solo cristalino do sertão. Hoje, o Vida & Arte Cultura projeta ficcionalmente o tema. Convida escritores e escritoras não para resolver, por meio da literatura, o que quer que seja – porque palavras soam brinquedos nessas horas -, mas tratar dessa matéria e, de algum modo, contribuir para que os refugiados das chuvas não tenham que se haver com a força tempestuosa das águas na próxima quadra invernosa. Participam do caderno Mariana Marques, Alan Santiago, Rodrigo Marques e Henrique Araújo.

Leia o conto Cama de Baleia, do escritor Dimas Carvalho em: www.opovo.com.br/conteudoextra

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