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Espaçonave

Início dos tempos

Nessa cidade imaginária, a chuva não causou estragos. a aparente sorte acabou isolando os poucos moradores do restante do mundo. Mas só até a chegada de um forasteiro

Alan Santiago
especial para O POVO

23 Mai 2009 - 16h02min

Foto: FCO FONTENELE

Só tive certeza, moço, quando ouvi a conversa dos meus pais, que já tinham se recolhido pra dormir. Como nunca consigo fechar os olhos antes de beber água três vezes e ir ao banheiro para dar descargas ritmadas até me sentir relaxado, atravessei o corredor, percebi um sibilar de vozes que me despertou a atenção e, pelo que entendi, estávamos ilhados, não havendo a perspectiva de, nos próximos meses, conseguir itens básicos que nossa cidade não produzia, nem sendo possível sair ou chegar caso estradas e vilarejos ao redor não tornassem à secura de sempre, mas meu pai não estava seguro de que isso voltaria a acontecer algum dia. Aquela ausência de chuvas aqui se tornara uma bênção que ninguém se dispunha a confessar e agradecer, mas que era perceptível quando nos chegavam notícias de famílias inteiras afogadas nas enchentes das cidades vizinhas. Éramos um chão seco e seguro, cercado de água por todos os lados. Essa aparente sorte começava aos poucos a virar um daqueles sonhos intranquilos nos quais, ao acordar, estamos transformados em monstruosos insetos. Talvez essa fosse a sensação de meus pais naquela noite. Não sei. Não tive muito tempo de pensar. Os dias cavalgavam em disparada como se alguém estivesse empurrando o ponteiro das horas de modo indiscriminado. E, nessas semanas velozes, quando a cidade deixou de ser abastecida com energia, se voltou à idade do escambo, ao cultivo de vegetais e às formas mais antigas de convivência, você foi avistado como se fosse um santo ou coisa parecida, o único ser vivo que, num truque mirabolante, tinha dado por nossa existência depois de tanto tempo isolados do mundo. No primeiro instante, pensei que tudo estava resolvido, que poderíamos voltar à vida que levávamos antes, mas fiquei triste quando você emendou a falar de seus planos, daquela espaçonave ou navio, não entendi direito, que iríamos construir para sair daquela situação. Depois de conseguir o que queria, agora que essa coisa impossível de ser descrita está de pé no meio da praça matriz, não estou entendendo o motivo de você estar levando minha cama, meus móveis, meus pais embora, meus livros do Bolaño, as bonecas sem braço da minha irmã, e muito menos consigo compreender, porque você está me colocando nessa fila e me fazendo seguir para entrar nessa arca, longe dos meus pais, sem conhecer ninguém e ser tratado como bicho, por isso é muito difícil aceitar que seja tudo, como você mesmo diz, pra me defender dessa terra que é minha e que estará inundada como as outras da região, pra me fazer ver que isso é castigo de deus, dos homens, da justiça, por conta das dívidas que não saldamos e das pessoas a quem não pedimos desculpa ou que não amamos ou que não nos amam, porque acaba sendo igual, e é até irônico que você me peça pra ficar calmo – logo eu, que já não tenho mais casa, nem família, nem amigos –, e só agora estou me dando conta que o mundo já havia acabado pela água e essa era a vez do fogo, então espero que você não esteja me escondendo coisas, que não esteja mentindo, porque, se você for quem eu estou pensando, se você for mesmo o sujeito sobre quem meu pai leu pra mim num livro antigo, desejo que experimente viver o que nós vivemos todos os dias, com o sol, o sal, a fome e as pestes, os tapas na cara, bem distante das páginas do livro e das metáforas embelezadas da Literatura, pra me dizer se to como você está me fazendo crer – somos o que você e esse seu deus estão procurando desde que o mundo é mundo.

> ALAN SANTIAGO nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1988. É contista, estudante de Jornalismo (UFC) e estagiário do Núcleo de Cultura e Entretenimento do jornal O POVO. Tem publicado o livro A Lua de Ur num Prato de Terra (7Letras), vencedor do IV Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará.


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