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Coreografia de (muitos) afetos

Tendo estreado em agosto do ano passado, os tempos, de Andréa Bardawil e sua Cia. Da arte antes, segue rendendo debate. Para o crítico Joubert Arrais, a montagem é emblemática e situa a história do coletivo

Joubert Arrais
especial para O POVO

16 Jun 2009 - 00h56min

Os Tempos atualiza laços criativos, enquanto agrega novos artistas ao coletivo da Cia. Andanças (Foto: PAULO AMOREIRA/DIVULGAÇÃO)
O tempo, quando visto como um aliado, é a dimensão existencial e fundamental da criatividade da natureza. Ao defender isso, o cientista Ilya Prigogine, Prêmio Nobel de Química, lança uma visão otimista: “O tempo que não fala mais de solidão, mas sim da aliança do homem com a natureza que ele descreve”. O mais recente espetáculo da Companhia da Arte Andanças, Os Tempos, em nova temporada aos sábados e domingos de junho, no Sesc Senac Iracema, é também uma mensagem positiva sobre os dilemas do ser-estar no mundo de hoje.

Criada em 1991, a companhia é referência estética na recente história da dança contemporânea no Ceará. Não sabiam ao certo de que ponto haviam partido nem a que final chegariam. Agora sabem, sabemos. São dezessete anos de atuação, muitos nomes atuantes e cinco trabalhos, que denunciam algo importante para a idéia de pesquisa coreográfica em dança, que é o princípio da continuidade. Em Vagarezas e Súbitos Chegares, o universo feminino é problematizado a partir de obras da escritora mineira Adélia Prado e da artista plástica gaúcha Elida Tessler. O mesmo tema vai ao encontro da vida literária de Clarice Lispector, desaguando na inquietante Dança de Clarice.

Já nas outras três coreografias, o tempo tem sido, e ainda é, motor criativo para a coreógrafa Andréa Bardawil. Primeiro veio O Tempo da Delicadeza, em 2001, realizado com apoio da extinta Bolsa Vitae de Artes e foi criado numa relação íntima com a estética do audiovisual e, especificamente, do vídeo-dança. Em 2003, estreou O Tempo da Paixão ou O Desejo é um Lago Azul, que se inspira livremente na obra do artista plástico Leonilson, apropriando-se de elementos característicos da sua história, como o bordar no tecido, para desvincular, pela dança, e também pela trilha sonora, do estigma do “cearense que morreu de AIDS”.

Tudo isso faz de Os Tempos, que estreou em agosto do ano passado, um trabalho emblemático, pois nos situa no percurso estético da criação artística da companhia. Estabilidade que tem permitido também outras direções dramatúrgicas, como o “performar”, junto com as já vivenciadas pela companhia, como “estar-presente” na cena assim como é na vida. Almofadas brancas sinalizam para um convite ao aconchego. Márcio Medeiros, Possidônio Montenegro e Sâmia Bittencourt como intérpretes-criadores. Trechos de músicas que soam como pequenas epifanias para aguçar nossa percepção. Como uma da Banda Legião Urbana, que diz: “Compaixão é fortaleza, ter bondade é ter coragem”.

Mais que isso, há em Os Tempos um refinamento coreográfico sutil que não se faz da noite para o dia e que vem sendo construído silenciosamente como uma agulha pontiaguda no sentido de nos tocar e fazer refletir de outro modo. O que nos leva, quase obriga, a entrar na apresentação em outro estado sensorial. Tentar, pelo menos. Digo melhor, adentrar lá num estado de disponibilidade para o encontro e a troca.

>> JOUBERT ARRAIS é jornalista, crítico de dança, pesquisador-mestre (PPGDanca/UFBA) e artista independente. O espetáculo Os Tempos, da Cia da Arte Andanças (CE), faz parte da pesquisa Coreografias Nordestinas - algumas escritas estéticas e críticas (FUNARTE / Minc). Comentários no www.umjovemcriticodedanca.combrasileiro.blogspot.com


SERVIÇO

OS TEMPOS - Espetáculo da Cia. Andanças com concepção, direção e composição coreográfica de Andréa Bardawil. Intérpretes-criadores: Márcio Medeiros, Possidônio Montenegro e Sâmia Bittencourt. Temporada aos sábados e domingos de junho, às 20 horas, no Sesc Senac Iracema (rua Boris, 90C - Praia de Iracema). Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Outras informações: 3252 2215.

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17/06/2009
09:03

ERRATA: O texto refere-se aos cinco trabalhos mais representativos para a dança contemporânea local da Cia. da Arte Andanças (CE), de um total de quatorze espetáculos apresentados nos dezoito anos de existência da companhia, e não dezessete como consta no texto.

Joubert Arrais

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