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Sertanejo e universal

Vencedor do júri popular do Festival de Guaramiranga, Encantrago ver de rosa um ser tão reestreia em Fortaleza. União dos grupos expressões humanas e teatro vitrine, a montagem é um convite às culturas populares do Brasil

Angélica Feitosa
angelica@opovo.com.br

17 Set 2009 - 02h28min

Parte da dramaturgia do espetáculo foi desenvolvida de forma coletiva (Foto: Sol Coelho/Divulgação)
Encantrago ver de rosa um ser tão é tão plural quanto são as culturas populares do Brasil. O cenário é, sim, um sertão do Nordeste. Rituais e símbolos unidos ao marrom dos figurinos: em tudo, lembram uma peleja de um povo inventivo. "É o fascínio por uma gente que cria em meio a qualquer adversidade", aponta a diretora Herê Aquino.

A montagem, fruto de uma união do Grupo Expressões Humanas com o Teatro Vitrine, foi destaque no Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga. Vencedor do júri popular e amplamente destacado pelos críticos presentes no encontro, Encantrago está novamente em cartaz no Sesc Senac Iracema, seguindo até o começo de novembro. De volta a Fortaleza, o desafio está em fugir do estereótipo, mesmo usando elementos facilmente associados ao Nordeste.

O novo grupo formado dessa junção não quis fazer um espetáculo limitador. A tentativa foi de partir do sertanejo para falar de um homem universal, através de questões que extrapolem os limites do espaço. O tempo desvia-se da linearidade, é circular. Embora as histórias tratem da universalidade e procurem fugir da pecha do regionalismo, difícil não associá-las ao que comumente se entende por Nordeste. Isso vem de um sotaque, de um cenário seco e marrom, dos movimentos embrutecidos do corpo das meninas quando fazem um papel masculino. É, muitas vezes, a terra da peixeira, da religiosidade desmedida, do homem que resguarda a honra e leva a palavra às últimas consequências.

O mérito está em não parar por aí. Se, à primeira vista, Encantrago parece reforçar uma imagem única do Nordeste, ele ganha pontos ao não ser unilateral. São várias as culturas populares. O exemplo disso é uma figura feminina, uma mulher que parece observar, controlar e abençoar seu derredor. A personagem não é definida pela religiosidade, mas, dependendo do ponto de vista, pode ser Oxum, a mãe terra, Gaya e até a Virgem Maria.

É o ritualístico a principal pesquisa hoje do grupo Expressões Humanas. O teatro que convida o público a fazer parte, apesar de não ficar tão claro assim porque eu, plateia, devo entrar na roda. "Ele bebe dentro da cultura do Nordeste, mas é o homem, o ser, o existir que percorre todo o espetáculo. Quando assistimos a um filme como Abril Despedaçado (2001, de Walter Sales), vemos a universalidade presente nesse sertão", pontua a diretora. Herê acrescenta que os recursos do Prêmio Mírian Muniz 2008, da Fundação Nacional das Artes (Funarte), acabou de ser liberado e o grupo deverá repensar a estética do Encantrago.

A verve do teatro ritualístico do experimento foi resultado de uma pesquisa na obra de Guimarães Rosa. Segundo Herê Aquino, todo o grupo ficou imerso no universo do escritor. O texto inspirado no autor mineiro foi assinado pela diretora, mas o processo de escrita ia e voltava o tempo inteiro, a partir do que a cena mostrava. A dramaturgia era misturada aos causos presentes no imaginário popular e a outros, frutos da imaginação do grupo.

O estopim para a união dos grupos veio da contrapartida do Edital das Artes da Secretaria de Cultura de Fortaleza. Com quase duas décadas de atividade, o Expressões Humanas foi vencedor do prêmio, na categoria manutenção de grupos. "A gente teria que convidar um grupo recente e eu já tinha visto o trabalho do Teatro Vitrine, o espetáculo Trindades e vi uma identificação com o nosso trabalho. Percebi o quando era cuidadoso. Havia uma inquietação parecida com a nossa", finaliza Herê.


EMAIS

- Encantrago foi selecionado para o Festival Palco Giratório, promovido pelo Sesc e deve rodar as capitais do País em 2009, além do interior de Santa Catarina.


SERVIÇO

ENCANTRAGO VER DE ROSA UM SER TÃO - peça do Grupo Expressões Humanas e Teatro Vitrine, com direção de Guimarães Rosa. Reestreia hoje, 17, no teatro do Sesc Senac Iracema (rua Boris, 90 - Praia de Iracema, ao lado do Centro Dragão do Mar). Em cartaz às quintas-feiras de outubro, exceto dia 22; e dias 1º e 5 de novembro, sempre às 20 horas. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Outras informações: 3452 1242 ou 8854 3219.

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