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Literatura

Pequenos absurdos

Em o Imitador de Vozes, de Thomas Bernhard, a fatalidade presente no noticiário é convertida em palavra. No livro, o autor embaralha instâncias antitéticas: realidade e ficção

Henrique Araújo
henriquearaujo@opovo.com.br
especial para O POVO

17 Out 2009 - 01h18min

Em O imitador de vozes, Thomas Bernhard brinca entre realidade e ficção (Foto: BANCO DE DADOS)
O que não está lá. É disso que trata O imitador de vozes, de Thomas Bernhard (1931-1989). O resíduo visual de quem assiste a um filme. A continuidade que se perpetua na cabeça de quem lê depois que a história termina. O fio interrompido, histórias cujo final abrupto e surpreendente remetem o leitor a uma dimensão fantasiosa e enigmática. Mesmo cotidianas, mesmo colhidas do jornalismo diário. As extravagâncias ordinárias: eis a matéria-prima do autor de Extinção e A origem.

Lançado originalmente em 1978, O imitador de vozes só agora ganha tradução no Brasil. Integrado por 104 narrativas breves, trata-se de livro de sinistros. Nele, o manejo econômico de palavras empreendido por Bernhard é adequado ao propósito de narrar desventuras fantásticas. A obra fala de assassinatos, desaparecimentos, frustrações, mortes inusuais, façanhas irrealizáveis. Arrancadas ao noticiário, as histórias carregam um gérmen literário que as torna potencialmente diferentes do jornalismo. Distantes da palidez e da bidimensionalidade das notícias, guardam portas secretas, vazios, lacunas que exigem preenchimento imediato. Não se esgotam, não esclarecem, mas empurram o entendimento para camadas mais profundas.

Como o caso do jovem cuja família ansiava desesperadamente que ele desenterrasse o tesouro escondido pelo pai. Constituído de moedas de ouro, o tesouro fora guardado em lugar que apenas o filho & por que somente ele? & sabia. Antes de morrer, o pai havia determinado: o tesouro só poderá ser descoberto no ano de 1974. O filho não vive para encontrá-lo. Após dois anos e meio desaparecido, seu corpo é encontrado às margens de um rio. Nesse tempo, o que ele havia feito? Só o leitor pode dizer.

Em Correio, lê-se: ``Por anos depois da morte de nossa mãe, o correio continuou entregando as cartas endereçadas a ela. O correio não tomara conhecimento de sua morte``. Comédia registra o insucesso de quatro atores. Cansados das peças que lhes eram enviadas, eles resolvem assumir todos os riscos e escrever um texto teatral. Cada um assume o papel autoral. Passados alguns meses, as narrativas individuais são concluídas. Os atores as apresentam uns aos outros. Em seguida, as partes são reunidas e encenadas. O espetáculo é um fracasso.

A estrutura dessas pequenas histórias apresenta quase sempre o mesmo desenho: partem de enredos inusitados que, em parágrafo único, são desenvolvidos minimamente. No fim, um dado surpreendente é revelado. Minúsculas, nunca ultrapassando uma página inteira, as narrativas tratam de personagens comuns. Lenhadores, comerciantes, fotógrafos, atores, professores, dançarinas. Ora rural, ora urbano, o cenário tem contornos indistintos. Fazendas no interior da Áustria, ruas esquecidas de lugarejos ainda mais remotos e muitas outras vias pavimentadas de mistérios corriqueiros.

Em O imitador de vozes, Bernhard parece querer afirmar a primazia da realidade sobre a ficção. Ou antes: definir como ficcional a própria realidade.


SERVIÇO

O IMITADOR DE VOZES & Livro de Thomas Bernhard. Companhia das Letras, 160 páginas. R$ 39.

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