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Casa Cor Ceará

Traços de cor e (de) rua

A inspiração urbana se une à cultura tradicional na edição da Casa Cor Ceará deste ano, que segue até o próximo dia 10. Em destaque, o diálogo de jovens artistas do grafite com nomes experientes das artes plásticas locais na decoração de diversos ambientes

Júlia Lopes
julialopes@opovo.com.br

30 Out 2009 - 01h30min

(Foto: EDIMAR SOARES)
Na esquina das ruas Marcos Macêdo e Visconde de Mauá, quem esticar a vista pela esquerda ou pela a direita vai ver, até o final do muro branco, um comprido e colorido camaleão. A entrada a que está defronte o visitante é da Casa Cor, mostra de arquitetura que acontece em todo o País e segue, em Fortaleza, com as portas abertas até 10 de novembro. Por dentro dos muros, outras realizações dos mesmos autores do camaleão: a fachada do prédio, onde pode ser conhecido o primeiro hotel do evento, e ainda no ambiente das arquitetas Liana Feingold e Laura Rios, a galeria das escadas desse hotel. Os artistas? Respondem pelo nome de Coletivo Monstra e trabalham com grafite.

Do grupo, fazem parte 23 pessoas, de variadas origens: história em quadrinhos, ilustração, design, publicidade... ``Cada artista tem uma particularidade. O que a gente pensou mesmo em fazer foi que cada um criasse um desenho dentro do seu estilo para ocupar a fachada do ambiente. Já o muro foi concepção do Franklin Stein, mas todos nós pintamos. Na escada, as meninas planejaram o espaço e a gente acabou colaborando de diversas formas, como o lambe-lambe colado nas paredes. Lá, os desenhos são independentes um do outro. Eles se encerram em si mesmos``, detalha Weaver Lima, um dos colaboradores. ``Alguns se preocuparam em fazer desenhos que fossem vistos à distância, outros levaram trabalhos que já vinham desenvolvendo``, pontua Franklin.

Já faz tempo o grafite foi apropriado pelos mais diversos segmentos da arte, da publicidade e do design. E da arquitetura. Aqui, ele vem ainda acompanhado de um terceiro elemento: o convite a experientes artistas para participar do jogo. ``Eu achei legal a participação. Tem que ter essa moçada do lado da gente, dos mais velhos. Mais velho entre aspas!``, brinca Audifax Rios. Com seus 63 anos, ele é um dos convidados ao lado de Hélio Rola, Cláudio César, Batista Sena e Sergei de Castro. E nunca havia trabalhado com grafite nem com história em quadrinhos, linguagem bem próxima de algumas pessoas do coletivo. ``Então eles me convidaram porque não dava para completar as telas que estavam disponíveis. Eu fiz o meu desenho repetido, meu sol. Eles mesmos deram essa liberdade``, ri o artista.

``Hélio Rola e o Batista Sena fazem uma coisa mais universal. Já o Audifax, por exemplo, é mais regional, tem um desenho que é muito calcado naquele tipo de desenho da xilogravura. Mas que a gente chamou porque gosta dele. Por outro lado, a pintura dele é muito pop, as cores são muito vivas. Desenho regional não chega a ser um problema para a gente``, especifica Weaver. Para Audifax, o mais interessante foi ter sentido a liberdade vinda a partir do Coletivo, que não se restringiu por estar num evento como a Casa Cor, de orientação mercadológica.

Para Weaver, esse é um dos pontos fortes da exposição. ``Acredito que todos nós temos um traço muito pessoal, que tem identidade``. Ele se vale da visita de Lucas Pexão e Ana Ferraz, responsáveis pela galeria Fita Tape, em Porto Alegre, e influentes no meio, para desenhar um quadro geral do grafite no Ceará. ``O que eles observaram é que faltam artistas com estilo, independente de ser grafite de rua ou não. É uma deficiência do cenário daqui. Os grafiteiros daqui são muito influenciados pelos grafites americanos da década de 1980, copiam a letra do hip hop, os desenho são meio destorcidos. E o que a gente tem de melhor no grafite brasileiro, que é apontado como um dos mais originais no mundo, é esse traço com identidade. Espeto e osgêmeos, por exemplo, todos eles são conhecidos por isso``, conclui.

E-Mais
> A Casa Cor deste ano tem, entre seus homenageados, o paisagista Roberto Burle Marx, por ocasião dos 100 anos do seu nascimento. Dentro da casa, um jardim revitalizado com base no projeto original dele. Nos muros, livre inspiração de Franklin Stein, que assina a concepção do desenho do camaleão.

SERVIÇO

CASA COR CEARÁ 2009 - A mostra de arquitetura estará aberta até dia 10 de novembro na rua Visconde de Mauá, 1000 - Aldeota. Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia) e R$ 60,00 (passaporte, com acesso liberado em todos os dias da mostra). De terça-feira a domingo, com funcionamento no feriado do dia dois, das 16h às 22h. Outras informações: 3112 4144.

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